O racha entre bicheiros da nova e da velha geração que está por trás de nota do Salgueiro antes de desfile
A relação entre o jogo do bicho e as escolas de samba é histórica no Rio de Janeiro
247 - Às vésperas da apuração do Carnaval carioca, uma disputa interna no jogo do bicho elevou a temperatura nos bastidores da Acadêmicos do Salgueiro. Segundo reportagem de Rafael Soares, publicada pelo O Globo, a escola divulgou um comunicado horas antes do desfile afirmando “sua plena confiança na realização de julgamentos justos” e ressaltando a “lisura, no comprometimento e na condução séria” da Liesa e de seu presidente, Gabriel David.
A nota pública ocorreu em meio ao inconformismo do patrono da escola, o bicheiro Adilson Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, com o resultado do Carnaval de 2025, quando o Salgueiro não conseguiu vaga no desfile das campeãs. Foragido da Justiça e com quatro mandados de prisão em aberto, ele atribui as notas baixas à relação conturbada que mantém com integrantes da chamada “velha guarda” da contravenção.
Entre os nomes apontados como parte desse grupo estão Ailton Guimarães Jorge, patrono da Unidos de Vila Isabel, e Anísio Abraão David, ligado à Beija-Flor de Nilópolis.
A tensão ganhou contornos públicos após a divulgação, em 2022, de um áudio interceptado pela Polícia Federal em que Adilsinho manifesta o desejo de reorganizar a estrutura de poder do jogo do bicho. Na conversa, ele afirma:
“O ‘verde e branca’ falou comigo de fazer uma nova organização. Só que eu não consigo falar com ele. Eu também quero, eu também quero poder”.
De acordo com a PF, a referência a “verde e branca” seria a Mocidade Independente de Padre Miguel, cujo patrono é Rogério Andrade.
Na mesma gravação, Adilsinho critica a estrutura histórica que rege o jogo do bicho desde a década de 1970, criada para dividir territórios e reduzir conflitos entre contraventores. Ele afirma:
“Já deu, já passou! É outra geração agora! Tem que entender! Não tem santo... é tudo malandro! Tudo bandido mesmo! Trata a gente bem na vaselina, mas quer ser centralizador! A velha cúpula já foi há muito tempo”.
Estratégia de imagem e investimentos
Após a repercussão do áudio e o desgaste com integrantes da velha cúpula, o patrono do Salgueiro adotou postura mais discreta depois do Carnaval de 2025. Segundo a reportagem, ele teria solicitado a retirada de menções a seu nome na quadra e no barracão da escola, além de orientar integrantes a evitarem citá-lo em entrevistas.
A estratégia busca desvincular a imagem da agremiação de seu patrono, numa tentativa de evitar possíveis impactos na avaliação dos jurados. Internamente, integrantes afirmam que o desfile deste ano é o mais luxuoso dos últimos cinco carnavais, reflexo de investimentos significativos mesmo diante da situação judicial do bicheiro.
A contratação de celebridades como musas também integra o plano de reposicionamento da escola. O objetivo, segundo relatos de bastidores, é fortalecer a imagem pública do Salgueiro e ampliar sua projeção midiática.
Carnaval sob influência histórica
A relação entre o jogo do bicho e as escolas de samba é histórica no Rio de Janeiro, especialmente no Grupo Especial, organizado pela Liesa. Embora a atuação de patronos ligados à contravenção seja alvo constante de investigações e debates, o financiamento privado continua sendo elemento relevante na estrutura das agremiações.
Neste cenário, o resultado da apuração ganha dimensão que vai além da disputa artística. Para Adilsinho, vencer o Carnaval significaria consolidar espaço em uma estrutura de poder que ele próprio classificou como ultrapassada. Para o Salgueiro, o desafio é provar na avenida que pode superar as turbulências políticas e judiciais com um desfile competitivo e tecnicamente consistente.