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Cultura

O vigarista do ano

Howard Hughes era um dos donos dos EUA, Rupert Murdoch só pretende ser, usando os terroristas do Tea Party, que promove desde que surgiu

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Em O Vigarista do Ano, Clifford Irving forja cartas de Howard Hughes e um documento em que o bilionário norte-americano o autoriza a escrever sua biografia. É um filmaço, baseado em fatos reais. De vez em quando passa no Telecine: Richard Gere é o escritor trampolineiro e ambicioso. O filme, de Lasse Hallström, diz mais sobre o esquisitão do que O Aviador, com Leonardo DiCaprio se debatendo no papel de Howard Hughes na superprodução de Martin Scorcese.

É inevitável lembrar Clifford Irving em meio a todo o imbróglio que pega pela proa o império jornalístico de Rupert Murdoch. O livro falso, entre outros estragos, apressou o fechamento da revista Life e desmoralizou a mais famosa firma de peritagem grafológica dos EUA.

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“De maior negócio literário do século, o livro se tornou a mais espetacular fraude literária de nosso tempo”, resume José Hamilton Ribeiro em texto publicado décadas antes do filme no mensário alternativo EX-, com o título “As memórias fajutas de Howard Hughes”.

Em maré baixa, Clifford Irving, que também escrevia obras de não-ficção, bonitão como Richard Gere, contou uma lorota espetacular para os chefões da McGraw-Hill, a maior editora do mundo: havia estabelecido linha direta com o homem mais rico do mundo, recluso em algum ponto do planeta, através de cartas. Colou. Seria o inestimável ponto de partida da “biografia”, que teve trechos de seus capítulos liberados para a Life, que embarcou no projeto.

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Como Rupert Murdoch, Howard Hughes também era dono de estações de TV, só que na Califórnia e no Texas. Mas não dá para comparar. Howard Hughes era um dos donos dos EUA, Rupert Murdoch só pretende ser, usando os terroristas do Tea Party, que promove desde que surgiu.

Howard Hughes tinha a patente de uma broca única no mundo para a perfuração de petróleo, patentes para uso industrial de raios laser, empresas especializada em “defesa” – mísseis, helicópteros, veículos blindados, o diabo.

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Construiu satélites como o Intelsat que nos trouxe a Copa de 70 pela TV. Era dono da segunda linha aérea do mundo, a TWA. Teve a RKO, o primeiro dos grandes estúdios de Hollywood -- seus astros e estrelas não teriam escapado dos grampos feitos pelos tabloides de Rupert Murdoch. Tampouco Howard Hughes.

Se fosse hoje, é legítimo supor que Clifford Irving, com incrível vocação para o trambique, estaria trabalhando sob as ordens de Rupert Murdoch do outro lado do Atlântico. Em vez de Rebekah Brooks, ele seria encarregado pelo chefão de comandar um esquema policial armado para devassar a vida de Howard Hughes e seus homens de confiança. Com toda sorte de recursos ilegais, iriam dar ao News of the World a reportagem mais bombástica de todos os tempos.

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Apesar do alvo controverso, seus métodos seriam considerados repulsivos. Desmascarados, apareceriam na manchete do Guardian como “Os vigaristas do ano” e iriam parar em cana, como Clifford Irving parou.

Dá outro filme.

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