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Cultura

Originalidade ou qualidade

Se você não consegue fazer um ótimo filme sobre um tema comum, faça um filme medíocre sobre algo “diferente e original”, e use isso como argumento

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Eu sou um cara muito estranho. Sempre fui. Desde criança nunca entendi essa busca incessante dos meus coleguinhas por serem diferentes, originais e únicos. Não é uma questão de “espírito de rebanho” nem nada disso. É que eu sempre achei mais importante ser bom em alguma coisa do que ser só diferente. Eu nunca quis uma bicicleta diferente, nunca quis fazer uma redação diferente muito menos nunca quis parecer diferente. Sempre quis uma bicicleta boa, fazer uma redação boa, e ter uma boa aparência – no que eu até hoje falho miseravelmente.

Cresci e até hoje não entendo essa busca desesperada por originalidade e por ser diferente. Eu não tento escrever um texto original, tento escrever um texto bom. Não tento escrever o livro mais original do mundo, tento escrever o melhor livro do mundo. Acho uma tremenda idiotice usar roupas esquisitas ou fazer furos por todo o corpo só pra “ser diferente”. Em que momento a humanidade decidiu que ser diferente é uma qualidade. Vejam que não estou defendendo uma espécie de comunismo mental. Só acho que ser diferente é tanto uma qualidade quanto ser igual é: nenhuma. Não é vantagem ser diferente, assim como não é vantagem ser igual. É só uma característica.

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E é aí que está o maior problema dessa glamorização da “originalidade” vazia e sem sentido. Hoje em dia se dá mais importância a essa originalidade entre aspas do que ao que realmente deveria ter valor. E então vemos bandas sendo idolatradas só por fazerem um “som diferente”, independente da qualidade. Vemos escritores alçados ao Olimpo literário por terem escrito livros “fora do lugar comum” ou “quebrando todas as convenções”, mesmo que os livros sejam enfadonhos e forçadamente densos.

É realmente triste ler e ouvir coisas como “Adoro o fulano, mas ele faz um som tão mainstream”, “o livro do cicrano é ótimo, mas é muito lugar-comum”. E daí se é lugar comum? Se é bom, pronto, é o suficiente. Fazer um filme bom sobre ETs que invadem Porto Seguro para abrir Resorts intergalácticos com água de côco a um real é difícil, mas fazer um filme bom sobre uma estória de amor simplesmente é muito mais difícil. Fazer uma boa música ininteligível e complexa, cheia de palavras difíceis e complicadas, é até difícil. Mas fazer uma boa música sobre o amor é ainda mais difícil. Na minha opinião essa idolatria ao diferente vem do medo de não conseguir fazer bem o que todos fazem.

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Se você não consegue fazer um ótimo filme sobre um tema comum, faça um filme medíocre sobre algo “diferente e original”, e use isso como argumento. Ninguém nunca fez algo como você. O fato de ter ficado ruim não importa, o que importa é que você “inovou”. Fico assombrado quando vejo ótimas comédias românticas, ótimas músicas pop ou ótimos livros sobre estórias de amor. Porque percebo que o autor não teve medo de fazer algo que milhões já fizeram, e disputar com milhões de obras, ao invés de ir pelo caminho fácil de fazer algo “diferente” e não competir com ninguém. É como a velha estória do menino que prefere apostar corrida sozinho porque ele sempre ganha. Só que quando ele cresce, percebe que desse jeito ele sempre ganha, mas na verdade, ele também sempre perde. E o que é melhor, ser o melhor em um grupo de dois ou três, ou ser o vigésimo em um grupo de um milhão?

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