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Políticas públicas culturais levam Kleber Mendonça Filho ao prestígio internacional

Recursos federais e estaduais ajudaram a consolidar carreira do cineasta pernambucano, cujo filme O Agente Secreto alcançou quatro indicações ao Oscar

Cena do filme "O Agente Secreto" (Foto: Divulgação/Vitrine Filmes)

247 - A trajetória que levou O Agente Secreto a fazer história com quatro indicações ao Oscar — melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor direção de elenco — é marcada por décadas de construção artística e pelo apoio contínuo de políticas públicas voltadas à cultura no Brasil. O reconhecimento internacional do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho se insere em um contexto mais amplo de fortalecimento do audiovisual nacional por meio de investimentos federais e estaduais.

A reportagem é do Brasil de Fato, que destaca como a consolidação da carreira do diretor dialoga diretamente com mecanismos públicos de fomento ao cinema brasileiro, fundamentais para viabilizar produções, formar profissionais e ampliar a presença do país no circuito internacional.

O Agente Secreto contou com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), principal instrumento de financiamento público do cinema nacional. Criado há 20 anos e administrado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) como categoria do Fundo Nacional de Cultura, vinculado ao Ministério da Cultura, o FSA também esteve presente em outros longas do diretor, como Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023).

Atualmente, o FSA é a principal fonte de patrocínio público para a produção audiovisual brasileira, sustentando diversas linhas de editais em todo o país. Seu modelo é considerado, em grande medida, autossustentável, já que a principal origem de seus recursos é a arrecadação da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), imposto pago pelo próprio setor audiovisual.

Dessa forma, a cadeia produtiva do cinema brasileiro atua simultaneamente como beneficiária e financiadora do fundo. O FSA também teve papel decisivo em um dos períodos mais críticos para a cultura nacional, ao se tornar a principal origem dos recursos da Lei Paulo Gustavo, responsável por socorrer o setor durante a pandemia da covid-19.

Segundo Mannu Costa, professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e realizadora cultural, o FSA foi essencial para a entrada de novos agentes no mercado, além de permitir experimentações narrativas e estéticas e incentivar a regionalização da produção. “O FSA ajudou o surgimento de novos agentes no mercado, também possibilitando experimentações narrativas e estéticas, além de promover uma regionalização por meio dos indutores e por editais específicos para regiões que historicamente estavam em desvantagem competitiva no mercado”, afirma.

Apesar dos avanços, a professora aponta lacunas que ainda limitam o pleno potencial do fundo. “Hoje há uma inexistência de uma regularidade no financiamento da comercialização (promoção e distribuição) e o completo desaparecimento dos editais de desenvolvimento”, avalia.

A concentração regional do acesso aos recursos também aparece como um desafio. “Quando analisamos o desempenho de produtoras, por exemplo, em determinadas unidades federativas, observamos baixa diversidade de agentes que acessam recursos do FSA em chamadas nacionais. Grande parte do nosso mercado, de Pernambuco, ainda é composto por produtoras de nível 1 e 2 (iniciantes), e apresenta pouca mobilidade de crescimento desses agentes”, explica. Segundo ela, a concentração ocorre tanto no volume de recursos quanto na diversidade de produtores contemplados.

No âmbito federal, a carreira de Kleber Mendonça Filho também recebeu investimentos da Petrobras, por meio do programa Petrobras Cultural. A estatal patrocinou os longas O Som ao Redor (2012) — que também contou com recursos da Lei do Audiovisual — e Bacurau, além do curta Recife Frio (2009), um dos trabalhos mais populares do diretor.

Com mais de quatro décadas de atuação, o patrocínio cultural da Petrobras passou por diferentes fases, variando nos valores investidos. Em 2024, a empresa lançou seu maior edital da história, destinando R$ 250 milhões à cultura brasileira.

Pernambuco em cena

Nos primeiros segundos de vários filmes de Kleber Mendonça Filho, aparece a marca do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), criado em 2002 e administrado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), vinculada ao Governo de Pernambuco. Trata-se do principal mecanismo estadual de fomento ao cinema e de uma das políticas culturais mais antigas do Nordeste, com uma linha específica para o audiovisual desde 2007. O edital mais recente, lançado no início de janeiro, prevê cerca de R$ 11 milhões distribuídos em 14 categorias que abrangem produção, distribuição, formação, pesquisa e preservação.

O Funcultura esteve presente nos longas O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau, além dos curtas Eletrodoméstica (2005) e Vinil Verde (2004). Este último marcou a primeira participação do cineasta no Festival de Cannes, tornando-se um ponto de virada para sua projeção internacional e um marco do cinema de terror brasileiro contemporâneo.

Como principal política de fomento estadual, o Funcultura é alvo constante de debates entre profissionais do setor, que buscam seu aprimoramento. As discussões envolvem temas como a descentralização dos recursos para estimular produções no interior do estado, a desburocratização dos processos e a ampliação do acesso para novas vozes frequentemente à margem da cena cultural consolidada.

Mannu Costa destaca que a participação da sociedade civil foi decisiva para a criação, manutenção e aprimoramento do fundo, que acabou inspirando políticas semelhantes em outras regiões do país. Ela classifica o Funcultura como central na política cultural pernambucana e responsável por projetar profissionais reconhecidos nacional e internacionalmente, mas ressalta desafios atuais.

“O Funcultura hoje se demonstra insuficiente para dar conta da demanda local, em termos de recursos, que estão defasados, além de ter se enfraquecido no que tange ao processo seletivo”, afirma. Segundo a professora, o papel do Estado precisa ir além do financiamento direto. “Quando falo da insuficiência, refiro-me também à necessidade do Estado atuar em outras frentes, como na captação de negócios para os agentes do setor, fomentar a estruturação das empresas locais, identificar lacunas e áreas de sombra na cadeia local e atuar na promoção dos negócios regionais”, complementa.

A formação acadêmica também ocupa lugar central na trajetória do cineasta. Kleber Mendonça Filho iniciou sua produção na Universidade Federal de Pernambuco, instituição que aparece retratada em O Agente Secreto. Foi na UFPE que ele realizou seus primeiros curtas documentais, Casa de Imagem e Homem de Projeção, como trabalhos de conclusão do curso de jornalismo, em 1992. Anos depois, em 2009, a universidade inaugurou o curso de Cinema e Audiovisual.

De acordo com Mannu Costa, a UFPE teve papel decisivo na formação de grupos e coletivos que se tornaram referências do cinema brasileiro a partir dos anos 2000. “As parcerias começam nesses espaços e seguem pela vida”, observa. Ela também ressalta o impacto das políticas de ações afirmativas na transformação do ambiente universitário. “Graças às políticas para cotistas (social, racial, PCDs), a universidade pública vem se diversificando, mudando a perspectiva das pessoas e forçando uma mudança também no plano institucional e formativo, que exige que nós também nos atualizemos nesse sentido”, conclui.