Por favor, por favor! Alguém me ajuda a atravessar a rua, por favor...

Agora, só agora vejo. A resposta estava nos olhos do cego

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- Por favor, por favor! Alguém me ajuda a atravessar a rua, por favor..., era o som do murmúrio que eu captava ao longe. O rapaz, que não enxergava, era incapaz de passar para o outro lado da calçada sozinho. Quem passava por ele, todos acompanhadamente sozinhos, também não o viam – a tal da invisibilidade social. Mesmo atrasado, me aproximei e me permiti titubear auxiliá-lo, desconfiar dele na sua frente, já que ele não perceberia. O tênis semi-aberto, a calça surrada, barba sem muito asseio e uma bengala improvisada, que mais se assemelhava a um cajado de figura biblica, além do diminuto sotaque interiorano, deram crédito. Sem saber muito bem do que se tratava, dei-nos chance, perguntei para onde ia. Contou-me que carecia de ir ao banco, pois sua mãe havia falecido. Ele precisava de trocar dinheiro para viajar até Itaperuna, onde ela morava - velório na manhã do dia seguinte, pôs em adendo. Difícil não se sensibilizar. Um tanto atônito, tomei ele pelo braço e disse a única resposta dizível: - “Vem comigo”.

Nos longos segundos que andamos sob a faixa do sinal, trocamos breves palavras e rapidamente de olhares. Não podia me ver, mas queria enxergar esse cara que se dispôs. Questionou, risonho, o porquê d'eu ter ajudado ele. Olhei no fundo de seus olhos, que mais pareciam espelhos e confessei: - “Não sei, meu amigo. Francamente, não sei”. Intimamente, surgiu a interrogação: pode um cego ajudar outro?

Chegando à agência, a porta que trava automaticamente sempre que o segurança decide, apitou. O rapaz cego explicou a mim e ao homem de uniforme (ou seja, respeitável) que ele queria trocar suas notas em moedas, a fim de não ser passado pra trás por aí, pois ele não reconhece notas, mas moedas sim - curioso, eu nunca havia olhado por esse ângulo. Lá dentro, sem demora, mas com um alarde deflagrante do despreparo para esse tipo de atendimento, deram jeito. “Duzentos reais em moedas de um”, foi o pedido. Uma vez que o processo estava em andamento, eu que precisava partir já podia ir embora. Encostei no ombro do cego e me despedi. Na singeleza de seu agradecimento, exclamou, ainda que não me reconhecesse, caso passasse por mim minutos depois: “Nunca vou esquecer de você”.

Não foi a primeira vez que me pediram algo. Ao contrário, vira e mexe sou parado na rua por algum pedido de doação, esmola ou congênere. Quando passei um tempo na Baixada Fluminense, era quase impossível sair de casa sem prestar meu dízimo social, pagar a dívida de ser quase inerte perante a esta realidade. Às vezes me pergunto se tenho cara de bonzinho, rico ou trouxa – não me responda!

Pensei milhões de vezes sobre esse assunto. A cena não saía da minha cabeça, enquanto ecoava a pergunta trazida por ele. A resposta do mais puro otimismo humanista seria afirmar meu altruísmo. Que eu sou um homem de bem e pronto: abdico do que é meu, seja dinheiro ou tempo, e dou para um estranho. Mas será mesmo que não temos um ganho ao dar? Sob uma análise economicista, entoariam Adam Smith: “Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu auto-interesse”. Entretanto, não é muito difícil perceber que existem outras formas de ganho além da tradicional relação econômica objetiva, como é o querer-bem de outrem. Será, então, que quando faço cafuné na cabeça do meu amor, meu amorzinho, quero é que seus cabelos acariciem minhas mãos?

Na contramão do egoísmo como motor das ações, um famoso-desconhecido sociólogo (graças à redoma em que se enclausura a universidade, o que é assunto para outro texto) chamado Pierre Bourdieu desenvolve um conceito chamado illusio, que significa estar dentro das regras de um jogo.

Em sua teoria, trata da possibilidade do comportamento desinteressado (sem lucro palpável) como um hábito bem visto. Ou seja, é viável que um indivíduo esteja tão incorporado num sistema de pensamentos e práticas a ponto de querer algo para o outro sem calcular um ganho para si, apenas reproduzindo a lógica em que está inserido. Eu adoraria, mas esta resposta não me é suficiente – não disse que está equivocada -, pois tem um detalhe que não dá conta: o fato de que até o ato reprodutor e impensado tem uma causa. Seja intencionalmente para atender à pressão social, ou sem consciência com causas distantes do cálculo racional, sempre temos porquês de agir.

Sou inábil para bater o martelo com um veredito sobre este tema. Por isso, fico com um talvez. Peço licença à Antropologia, ao Existencialismo e mais uma série de correntes (que prendem, vale lembrar) para dizer: talvez – repito, apenas “talvez” - exista algo em comum a todos nós, intrínseco ao ser humano, presente no beijo esquimó, no suicídio do homem-bomba, no amor incondicional materno, nos doutores da alegria, nos missionários religiosos e políticos e até na subjetividade histérica. Talvez, o ato humano tenha como combustível, em primeira e invariável instância, o sentido de si mesmo. Quero dizer com isso que agimos a partir da referenciação em nossas próprias noções de mundo – cada ponto de vista é a vista de um ponto - e temos como fim de nossos atos, tendo ciência disso ou não, nosso próprio gozo – ainda que com um sofrimento que seja gostoso lá no fundo, sabem os sádicos. Toda troca tem um ganho duplo: se ganha o que se recebe e o que se dá.

Eu poderia estar matando, roubando e estuprando, mas estou aqui apenas para trazer a seguinte ideia: por mais que esta possibilidade soe um tanto desesperadora, o que realmente importa não é a origem de nossas ações, mas o quanto elas resvalam no outro. Tiranos caem, máscaras caem, muros caem. Mas a bolha em que vivemos não é estourada, permanecemos em ilhas. Viver em sociedade é existir em arquipélago, pois, por mais que sejamos ilhas, dotados de diferenças, formamos unidades – convencionadas até – que se integram. Ao passo que o sentido de nossas ações somos nós mesmos, é imprescindível dizer que elas só são possíveis porque existe o outro, porque ultrapassamos os limites de nossos territórios. Eu ajo para mim, mas no meu EU cabe a Julya, meus amigos, o Flamengo, as Ciências Sociais, esta crônica e tanto mais.

Agora, só agora vejo. A resposta estava nos olhos do cego. Não se trata de favor, de ser trouxa ou bonzinho, mas sim do quanto olhando em seus olhos eu mirava a mim mesmo.

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