Protestos franceses mostram que é a visão de Macron a verdadeira utopia

O filósofo cultural Slavoj Zizek, pesquisador no Instituto de Sociologia e Filosofia na Universidade de Ljubljana e professor de Alemão na Universidade de Nova York, diz que faliu o sistema que o presidente francês Emmanuel Macron representa

(Foto: Paulo Emílio)

247 - Por Slavoj Zizek, para Russia Today Os protestos em andamento na França revelam a falência do sistema que Emmanuel Macron representa. Uma mudança radical na ordem capitalista, como Corbyn e Sanders defendem, seria uma solução.

Com a continuação das greves dos trabalhadores franceses dos transportes públicos, alguns comentaristas até começaram a especular que a França está se aproximando de um tipo de momento revolucionário.

Enquanto estamos longe disso, o certo é que o conflito entre o Estado (defendendo nova legislação unificada de aposentadoria) e os sindicatos (recusando qualquer alteração do que consideram seus mal conquistados direitos) não deixa espaço para concessões.

Para um esquerdista, é bem fácil simpatizar com os trabalhadores em greve: Emmanuel Macron quer privá-los de suas condições de aposentadoria duramente conquistadas. No entanto, deve-se notar também que os ferroviários e outros trabalhadores do transporte público estão entre aqueles que ainda podem se dar ao luxo de fazer greve. Eles são empregados permanentemente pelo Estado, e o domínio de seu trabalho (transporte público) lhes dá uma forte posição para negociar, e é por isso que conseguiram obter um bom sistema de aposentadoria - a greve em andamento é precisamente sobre a manutenção dessa posição privilegiada.

Obviamente, não há nada de errado em manter os direitos duramente conquistados do Estado de Bem-Estar Social que o capitalismo global de hoje tende a dispensar. O problema é que, do ponto de vista - não menos justificado - daqueles que não gozam dessa posição privilegiada (trabalhadores precarizados, jovens, desempregados etc.), esses trabalhadores privilegiados que podem se dar ao luxo de entrar em greve não podem deixar de aparecer como inimigos de classe, contribuindo para sua situação desesperadora, como uma nova figura do que Lenin chamou de "aristocracia operária" - e os que estão no poder podem facilmente manipular esse desespero e agir como se estivessem lutando contra privilégios injustos em favor dos trabalhadores verdadeiramente carentes, inclusive dos imigrantes.

Além disso, não se deve esquecer que eles estão atendendo a essas demandas no governo de Macron e que Macron representa o melhor do sistema econômico e político existente: ele combina realismo econômico pragmático com uma visão clara de uma Europa unida, além de se opor firmemente ao racismo anti-imigrante e ao machismo em todas as suas formas.

Os protestos marcam o fim do sonho de Macron. Lembre-se do entusiasmo por Macron oferecer uma nova esperança não apenas de derrotar a ameaça populista de direita, mas de fornecer uma nova visão da identidade européia progressista, que levou filósofos em oposição como Jurgen Habermas e Peter Sloterdijk a apoiar Macron.

Lembre-se de como todas as críticas de esquerda a Macron e todos os avisos sobre as limitações fatais de seu projeto foram descartados como "objetivamente" apoiando Marine Le Pen. Hoje, com os protestos em andamento na França, somos brutalmente confrontados com a triste verdade do entusiasmo pró-Macron. Macron pode ser o melhor do sistema existente, mas sua política está localizada dentro das coordenadas liberal-democráticas da tecnocracia iluminada.

Qual é a solução?

Então, que opções políticas existem além de Macron? Há políticos esquerdistas como Jeremy Corbyn e Bernie Sanders que defendem a necessidade de dar um passo decisivo além de Macron na direção de mudar as coordenadas básicas da ordem capitalista existente, embora permaneçam dentro dos limites básicos da democracia parlamentar e do capitalismo.

Eles inevitavelmente ficam presos à um impasse: esquerdistas radicais os criticam por não serem realmente revolucionários, por ainda se apegarem à ilusão de que uma mudança radical é possível de maneira parlamentar regular, enquanto centristas moderados como Macron alertam que as medidas que eles defendem não são bem pensadas e desencadeariam no caos econômico - imagine Corbyn vencendo as últimas eleições no Reino Unido e a reação imediata dos círculos financeiros e empresariais (fuga de capitais, recessão...).

Em certo sentido, ambas as críticas estão certas - o problema é apenas que ambas as posições a partir das quais são formuladas também não funcionam: a insatisfação contínua indica claramente os limites da política de Macron, enquanto os pedidos "radicais" por uma revolução simplesmente não são fortes o suficiente para mobilizar a população, além disso, eles não se baseiam em uma visão clara de qual nova ordem impor.

Paradoxalmente, a única solução é (por enquanto, pelo menos) se engajar na política de Sanders e Corbyn: eles são os únicos que provaram que conseguem provocar um movimento de massa real.

Temos que trabalhar pacientemente, nos organizando e estando prontos para agir quando uma nova crise explodir - com a crescente insatisfação popular, com uma inesperada catástrofe ecológica, com uma revolta contra a explosão do controle e da manipulação digital.

A esquerda radical não deve se envolver em tramas sombrias e planejar como tomar o poder em um momento de crise (como os comunistas estavam fazendo no século XX). Deve funcionar exatamente para evitar pânico e confusão quando a crise chegar. Um axioma deve nos conduzir: a verdadeira utopia não é a perspectiva de mudanças radicais, a verdadeira utopia é que as coisas podem continuar indefinidamente do jeito que estão acontecendo agora. O verdadeiro "revolucionário" que mina os fundamentos de nossas sociedades não são terroristas e fundamentalistas externos, mas a dinâmica do próprio capitalismo global.

E o mesmo vale para a cultura. É comum ouvir-se que a guerra cultural de hoje é travada entre tradicionalistas, que acreditam em um conjunto firme de valores, e relativistas pós-modernos, que consideram regras éticas, identidades sexuais, etc. como resultado de jogos de poder contingentes. Mas este é realmente o caso? Os derradeiros pós-modernistas são hoje os próprios conservadores. Uma vez que a autoridade tradicional perde seu poder substancial, não é possível retornar a ela - todos esses retornos são hoje uma farsa pós-moderna.

Trump aprova os valores tradicionais? Não, seu conservadorismo é uma performance pós-moderna, uma gigantesca viagem do ego. Brincando com "valores tradicionais", misturando suas referências com obscenidades notórias, Trump é o presidente pós-moderno definitivo, enquanto Sanders é um moralista antiquado.

Tradução de Carolina Ferreira  


 

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