Recordando Gilberto Amado

Coitados, ensinava o mestre, são aqueles que podem mais do que sabem

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Gilberto Amado(1887-1969), político , jornalista, diplomata, jurista, conferencista, memorialista, autor de talento cujos livros são pouco encontradiços e seu nome é pouquíssimo citado por jovens jornalistas e quase nunca por professores universitários , que quando não o ignoram completamente, consideram-no relíquia de tempos amadores, ainda ”não científicos.” Isto, claro, quando o citam sem o ler, sabendo-o personagem da História do Brasil, mas indecisos quanto ao século que o teve como personagem. Não sou propriamente uma exceção, admito que sei pouco dele, conheço apenas alguns de seus achados verbais e curiosidades (primo de Jorge Amado, pai da atriz Vera Clouzot, esposa de Henri George Clouzot, atriz de seus filmes como “Salário do Medo” e “As diabólicas”) e apenas recentemente conhecendo seu livro (coletânea de textos) “A chave de Salomão”de 1913 . Obra ultrapassada, item de museu? Vejamos:

“Entre nós, ouvimos a todo instante dizer-se: até não vale a pena a gente estudar, porque só os nulos, os incompetentes é que sobem (...) Tenho ouvido algumas vezes: se eu tivesse um filho, ele não aprenderia a ler, ficaria bem estupidozinho, a fim de vencer na vida, e tenho ouvido enumerar-se o enorme catálogo das pessoas incompetentes que ocupam posições superiores ao seu mérito.” A inversão de valores sendo demonstrada já assustadora em 1913, ele nem imaginando o que se destruiria ainda, por gente supostamente apta a restaurar a escola.

“O nosso país é, a este respeito, na opinião dos pessimistas, um país essencialmente perdido (...) toda a gente compreende o estudo, praticamente, como um expediente, um instrumento, um meio.” E nem se cogitava, por ocasião destas palavras a obrigatoriedade de Diploma para Jornalistas, mas certamente, reservas de mercado sempre foram tratadas com zelo, como um traço indiscutível da identidade brasileira e Lima Barreto, outro gigante pouco citado, observava que diplomas consagravam nulidades .Como observa Mestre Gilberto:

“No Brasil toda a gente estuda, ou melhor, não estuda, para ser advogado, para ser engenheiro, para ser médico, ninguém estuda para saber, para ser feliz, para ver com os olhos mais claros o mundo.” Para galgar o pau de sebo, e garanti-lo intacto como único meio de ascensão social, ainda que se declarando de esquerda e oferecendo às massas ensino de péssima qualidade em salas repletas de semi alfabetizados , ouso completar.

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“Todos nós sabemos do horror que é o destino do intelectual, do pensador de nascença no Brasil, é a tragédia mais extraordinária que conheço (...) sua solidão é a mais patética do mundo.” João Antonio, o grande escritor dizia , e Otto Lara Resende o citava, que “ter talento no Brasil é uma maldição , ai de quem o tem. ”Glauber Rocha e sua vida de exilado cultural e Tom Zé que levou décadas para ser “descoberto “por David Byrne, são apenas dois exemplos de um país que exporta talentos enquanto importa chavões e sub ideologias para uso acadêmico. Parece que fomos sempre assim e assim sempre o seremos.

Em outra passagem, Gilberto Amado detecta nos intelectuais autênticos, de espírito contemplativo “ a dor dos monstros, dos que se sentem diferentes dos seus semelhantes,anômalos, estrangeiros na própria pátria”. Bem, hoje em dia, para sofrê-la não é preciso ser erudito, basta pensar com alguma independência e recusar –se a aderir à maioria triunfante , orgulhosa de sua aversão a livros, de sua dermatite de contato inflamada ao tocar tais objetos.

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Lembro de entrevista que Fernando Morais fez com Ulysses Guimarães em 1978, para a revista “Status”, onde o então emedebista Ulysses relatava conversa que tivera com Gilberto Amado em Paris por ocasião do Governo João Goulart, em que o diplomata e escritor se referiu ao Presidente Goulart como “coitado”. Ulysses não entendia como era coitado” homem rico, casado com uma das mulheres mais bonitas do Brasil e Presidente da República – se este é o coitado, quem somos nós?”e Gilberto Amado explicou:”Porque ele pertence à categoria dos homens que podem mais do que sabem”. Ulysses usou mais tarde esta imagem para se referir aos governantes militares e muitos julgam ser ele o autor desta síntese.

Síntese e definição dos poderosos, de tempos distintos, de um mesmo país.

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