Rock Brasília na veia

O documentário de Vladimir Carvalho percorre os passos da garotada entediada no Planalto Central, com a opressão sem limite da ditadura e que buscou na música a válvula de escape para nortear seus sonhos e anseios

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Brasília respira rock. Nessas veias, vias e traços desenhados por Oscar Niemeyer, o gênero que imortalizou a figura de Elvis Presley, dos Beatles e dos Sex Pistols ajudou a construir a trajetória de uma turma que deu identidade ao rock brasileiro por meio de canções, letras e comportamento bem singulares. Eram os meninos da Colina, filhos de diplomatas, embaixadores, funcionários do alto escalão do governo e professores da UnB que um dia desdenharam um futuro promissor nas altas esferas do poder para abraçarem aquilo em que eles acreditaram, de fato: a música.

Essa história foi bem contada pelo brilhante jornalista Carlos Marcelo no seu livro Renato Russo – O Filho da Revolução. E só poderia ser retratada nas telas de cinema por ninguém menos que Vladimir Carvalho, que emocionou o público na noite de 26 de setembro, com exibição na Sala Villa-Lobos, do documentário Rock Brasília – Era de Ouro. O filme marcou a abertura da 44ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Como era de se esperar, foi uma comoção geral, uma catarse emocional, abundantemente visceral. Há muito tempo que o Festival de Brasília não demonstrava tamanha empolgação diante de uma projeção. De uma simplicidade ululante, a narrativa percorre os passos dessa garotada entediada com a falta do que fazer no Planalto Central, com a opressão sem limite da ditadura e que buscou na música a válvula de escape para nortear seus sonhos e anseios.

A riqueza e preciosidade dos depoimentos são poderosas, mas as imagens arquivadas por mais de 20 anos pelo mestre Vladimir são impactantes. São elas que dão a grandeza e importância do filme, como as passagens perturbadoras do fatídico show da Legião Urbana no extinto estádio Mané Garrincha. Você pode até ter visto algumas cenas da famosa apresentação em algum lugar, mas nunca de forma tão visceral e reveladora como em Rock Brasília – Era de Ouro.

Com veia jornalística, o diretor registrou passo a passo a queda de braço do ídolo Renato Russo com o público irascível e o caos em que se transformou a passagem da banda pela cidade, em 1988, com gente massacrada, estraçalhada nas enfermarias. "Não queremos saber deles nunca mais", brada um fã inconsolável.

Em outro momento emocionante e igualmente revelador, Dinho Ouro-Preto conta como a morte de Renato Russo ressuscitou o Capital Inicial, hoje uma das bandas mais importantes do rock nacional e herdeira do legado deixado pela Legião Urbana.

Há quem diga que o filme seja longo demais. E é mesmo, mas nem dá para notar tal detalhe porque a narrativa envolve de tal maneira que, quando a fita termina, a gente diz: "Ué, mas já acabou?!" Outros podem reclamar que Vladimir tenha se perdido ou mesmo traído suas origens cinematográficas em experimentalismo como a inclusão de trechos em animação e dramatizados por atores, mas e daí? Woody Allen não fez tudo isso e não entrou para história como gênio?

Rock Brasília – Era de Ouro já vale por si só como testamento documental precioso de uma fase importante da história de Brasília. Brasília essa que Vladimir Carvalho mais uma vez estampa nas telas do cinema brasileiro porque, como desabafou ontem, no palco da Sala Villa-Lobos, ama demais.

Nós também, Vladimir!

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como:

• Cartão de crédito na plataforma Vindi: acesse este link

• Boleto ou transferência bancária: enviar email para [email protected]

• Seja membro no Youtube: acesse este link

• Transferência pelo Paypal: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Patreon: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Catarse: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Apoia-se: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Vakinha: acesse este link

Inscreva-se também na TV 247, siga-nos no Twitter, no Facebook e no Instagram. Conheça também nossa livraria, receba a nossa newsletter e ative o sininho vermelho para as notificações.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247