Salas de cinema diminuem no Brasil e exibidores cobram apoio
Com queda no número de salas e no público, setor pressiona por políticas públicas, mais recursos e regras para enfrentar avanço do streaming
247 - O número de salas de cinema em funcionamento no Brasil voltou a cair após anos de recuperação no período pós-pandemia. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que o país tem atualmente 3.538 salas, sete a menos do que as 3.545 registradas no fim de 2025.
As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo e revelam um cenário de contradições: enquanto a produção audiovisual cresce e recebe mais investimentos públicos, o setor exibidor enfrenta dificuldades, com redução de público e salas vazias.
De acordo com a Ancine, o público caiu de 126 milhões em 2024 para 113 milhões em 2025, uma retração de cerca de 10%. Em sentido oposto, o investimento público alcançou R$ 1,41 bilhão em 2025, alta de 29% em relação ao ano anterior, sendo a maior parte destinada à produção de conteúdos.
O desequilíbrio também aparece na distribuição desses recursos. Em 2023, cerca de 79% dos aportes do Fundo Setorial do Audiovisual foram direcionados à produção, enquanto áreas como comercialização e formação de público ficaram com apenas 2,5% do total.
Apesar do aumento na produção — com 3.979 filmes brasileiros certificados em 2025 —, o desempenho nas salas segue limitado. Segundo dados do Filme B, 54,7% dos lançamentos nacionais não alcançaram mil espectadores, e metade do público se concentrou em apenas dois títulos, “O Auto da Compadecida 2” e “Ainda Estou Aqui”.
Diante desse cenário, exibidores se reuniram em Salvador durante o Festival Panorama para discutir saídas para a crise. O cineasta Cláudio Marques afirmou: “O produtor há décadas aprendeu a gritar, a fazer pressão. Coisa que o exibidor nunca fez”. E completou: “O exibidor não tem o que o produtor sabe desde sempre, que precisa ter uma organização política.”
O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira destacou a falta de planejamento estratégico. “Perdemos a noção da realidade. É preciso saber quanto vai se investir na produção, na distribuição, onde estão os gargalos”, disse. Ele alertou ainda: “O streaming, depois da pandemia, criou um mercado que [...] vai engolir as salas de exibição.”
Como resultado do encontro, o setor elaborou propostas ao governo, como a destinação de 10% do orçamento do audiovisual para acesso às salas, um programa emergencial de R$ 120 milhões para ampliar o público e a criação de uma janela mínima de 180 dias para exibição exclusiva nos cinemas antes do streaming.