Ser especialista não tem mais a mesma graça

Crianças hoje em dia são especialistas em Direito Internacional, Ritmos Caribenhos, Balística, e ouvi falar até em duas pessoas em Samoa especialistas em acertar as horas do videocassete

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A minha sede por conhecimento inútil e cultura idem nasceu com o Manual do Escoteiro Mirim. O MEM (para abreviar) era uma série de livros que traziam, além de conhecimentos sobre coisas de escoteiros – como fazer fogo, plantas e pesca – uma vastíssima gama de cultura inútil, mas, à época, inacessível. Foi com o Manual que aprendi a diferenciar cobras venenosas de não-venenosas pela pupila, descobri que os meses de Julho e Agosto têm esses nomes em função de auto-homenagens feitas por Julio Cezar e Augusto a eles mesmos, além de ter aprendido tudo sobre o animal mais fascinante do mundo, e que até os 21 anos eu era o único que sabia que ele existia: a Equidna. (Procurem no Google)

E foi nessa época que eu descobri o que eu queria ser na vida: um especialista. Simplesmente isso, um especialista. Em qualquer coisa. Eu queria ser o cara que acaba com uma conversa quando se toca no assunto que ele domina. Por algum tempo eu tentei ser especialista em Mitologia Grega. Comprei dezenas de livros, decorei estórias, lendas, nomes de Deuses, Semi-Deuses, filhos de Deuses, ex-Deuses, datas, decorei tudo. E por três minutos eu fui o maior especialista do meu colégio em Mitologia Grega. No quarto minuto eu esqueci metade dos nomes, confundi as datas e afundei minha carreira de especialista em Mitologia Grega.

De lá para cá já tentei ser especialista em quadrinhos, cinema, literatura, carros, aviões, astronomia, e até em cultura chinesa, logicamente sem sucesso em nenhuma destas especialidades. Eu invejava meus amigos que sabiam tudo sobre mecânica, matemática ou pesca. Eu era um especialista em generalidades, nada mais.

Mas eu tenho uma desculpa: naquela época, ser um especialista consistia em ler livros (acreditem, ainda existiam os livros), enciclopédias, compêndios, jornais, revistas e afins. Não era só digitar “Mitologia Grega” no Google e decorar o conteúdo dos dez primeiros resultados. Exigia trabalho. Para minha curta carreira de especialista em Mitologia, li mais de dez livros e dezenas de revistas. Hoje em dia é fácil. Meu sobrinho com dez anos sabe o nome dos jogadores de TODAS as seleções da última Copa do Mundo, reservas inclusos. Tive uma estagiária que sabia tudo de astronomia. Ela lia uns cinco sites de astronomia por dia e tinha uns cinco aplicativos sobre isso no iPhone. Não tem a mesma graça. Não houve sofrimento, noites e noites decorando algo escondido só pra depois poder recitar aquilo da forma mais natural e casual possível. A internet tirou toda a graça em se ser um especialista. Crianças e adolescentes hoje em dia são especialistas em Direito Internacional, Ritmos Caribenhos, Balística, e ouvi falar até em duas pessoas em Samoa especialistas em acertar as horas do videocassete. E com toda essa facilidade eu não consigo decorar nem os nomes de todos os filmes do Woody Allen...

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