Thais Duran: “eu tive privilégios no samba por ser branca”

Em entrevista ao programa Um Tom de resistência, na TV 247, a cantora e compositora paulistana falou sobre sua carreira, suas influências e referências musicais, machismo no mundo do samba, racismo e violência contra a mulher. Assista

www.brasil247.com - Cantora e compositora Thais Duran
Cantora e compositora Thais Duran (Foto: Divulgação/Marília Heymer)
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Por Ricardo Nêggo Tom - Mulheres do Samba foi o tema do programa “Um Tom de resistência”, que recebeu a sambista Thais Duran. Paulista de Araçatuba, e atualmente residindo no Rio de Janeiro, ela falou sobre a sua carreira, suas influências e referências musicais, machismo no mundo do samba, racismo e violência contra a mulher. “Desde que me entendo por gente eu gosto de música. Aos 6 anos de idade, meu pai me matriculou no conservatório de música da cidade, onde eu comecei a estudar piano e fui amando aquilo tudo. Aos 8 anos, eu me apresentei no Teatro Municipal com o coral do conservatório. Quando eu vi aquele público, aquele monte de gente na plateia, apesar de que era tudo família (risos), sabe como é, né? Araçatuba, teatro pequeno, enfim, aí eu descobri que era aquilo que eu queria fazer da vida. Tanto, que eu não quis mais estudar piano. Eu só queria cantar. E comecei a escutar muitas coisas. Meu pai colocava para eu ouvir Baden Powell, Paulinho da Viola, Vinícius de Moraes, Toquinho, e eu comecei a gostar dessa parte do samba. Eu tive sorte de ter tido um pai que me deu essa oportunidade de aprendizado”.

Thais conta que começou a sua carreira profissional cantando na noite, aos 14 anos de idade, se apresentando nos bares da região de Araçatuba. “Eu fazia MPB, Pop-Rock, Bossa-Nova. Mas o samba entrou mesmo na minha carreira, quando comecei a fazer capoeira. Quando eu escutei aquela batucada, aquele pandeiro, eu fiquei desesperada. Eu falei: é isso. E eu fui criada na umbanda. Então, desde pequena eu já tinha o batuque correndo nas veias. Mas quando entrei na capoeira, logo quis aprender a tocar pandeiro e decidi que só queria cantar samba. A partir daí, fui pesquisando, fui aprendendo, e ainda estou aprendendo e tenho conhecido muita coisa maravilhosa. Isso tudo me despertou essa paixão pelo samba. “O racismo estrutural também entrou na pauta e Thais não fugiu do tema. Ela lembrou de algumas situações de racismo que presenciou e entende que é privilegiada por ser uma artista branca no gênero. “É uma questão que tenho pensando muito a respeito. Somos todos brasileiros, mas eu, como uma pessoa de pele branca, nunca sofri esse racismo estrutural que oprime as classes mais baixas, que, majoritariamente, são formadas por pessoas negras”.

A sambista descreve algumas situações envolvendo os músicos da sua banda, nas quais o racismo foi o fator motivador do tratamento diferenciado destinado a eles. “Eu presenciei várias situações de racismo com os meus colegas músicos. De contratantes me cumprimentarem e não falarem com eles, porque todos eram negros. Acontecia muito quando eu ia me apresentar em lugares mais abastados ou considerados da elite. Tem uma história que ocorreu na minha cidade, quando eu comecei a tocar junto com os meninos da periferia. E eles nunca tinham tido vez. Quando alguém ficou sabendo que tinha uma menina branca que cantava junto com os caras, nos pegaram para fazer shows em casas maiores. E eu sei que só nos foi dada essa oportunidade, porque eu era uma cantora branca. Foi onde nós começamos a ganhar um pouco mais. Nessa época, formávamos o grupo “Saia na Roda”, porque era só eu de mulher. E eu não posso deixar de falar que, infelizmente, e eu não gostaria que fosse assim, eu tive privilégios no samba por ser branca. E essas coisas me deixaram muito chateadas, porque escancarou o racismo na minha cara e me deram a noção do tanto que eu sou privilegiada por ser branca. Principalmente, porque eu chego fazendo um som de preto para branco aplaudir. É triste ver gente não querendo chegar perto de amigas e amigos meus, só porque eles eram pretos. “

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O aumento nos casos dos crimes de feminicídio e da violência doméstica contra as mulheres, foi apontada por Thais como consequência da ascensão de Bolsonaro, a quem ela define como “misógino” e do conservadorismo no país. Mostrando muita coragem e instando as mulheres a denunciarem os seus agressores, ela revelou um drama pessoal vivido dos 16 aos 23 anos, quando sofreu violência de um ex namorado que veio a se tornar seu companheiro. “Eu tive uma experiência horrível na adolescência, onde me relacionei com uma pessoa que me batia e no outro dia me pedia desculpa. Foram sete anos de violência e tortura psicológica. Num dia ele me dava porrada, e no outro me pedia perdão ajoelhado na minha frente. Essa história começou quando eu tinha 16 anos, e eu tinha vergonha de contar aquilo para as pessoas. Eu já cantava e ele dizia que a minha voz era horrível e que ninguém iria querer me ouvir cantar. Ele dizia que eu era horrorosa, que eu já tinha perdido a virgindade com ele e nenhum homem ia me querer mais. Além da questão psicológica, a porrada corria solta de verdade. Uma vez ele me bateu tanto que eu resolvi chamar a polícia. Quando o policial me viu, a primeira coisa que ele me perguntou foi o que eu tinha feito para ter apanhado. Ou seja, a mulher ainda é vista como a possível culpada pela agressão sofrida. Eu demorei muito para sair dessa situação e hoje eu exponho isso publicamente para que as mulheres denunciem. Tem que pedir ajuda”.

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