You know I'm no good

A tragédia anunciada da efemeridade traz a pergunta miserável: se ela não fosse a mulher que se mataria aos 27, ela seria a Amy?

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Amy Winehouse morreu e você já não aguenta mais ouvir sobre isso. Era das informações, tudo corre muito rápido. Na Wikipedia provavelmente já existe o carimbo dos peritos com a hora do falecimento; pelo Facebook citações a torto e direito de versos de suas músicas por parte de fãs póstumos da cantora; às tardes em qualquer canal por aí, Sônia Abrão esmiúça o que mais pode haver de pauta para tratar do fatídico fim da jovem bretã e os sites já questionam se vale a pena continuar estampando em sua página inicial alguma nova notícia. Afinal, tudo é tão efêmero que o fato acontecido ainda agora, como diz a expressão estrangeirista do internetês, já é “old”.

Com o fim desse primeiro parágrafo, tradicionalmente introdutório, deverá ter surgido uma pergunta-obstáculo para qualquer desenvolvimento de texto: “Ué, e você ainda vai dizer alguma coisa sobre o assunto?”. Vou, claro que vou, eu não começaria o artigo dessa maneira pra depois passar uma receita d'um bolo de cenoura com calda de chocolate – porra, tô com tanta fome que dei um jeito de encaixar isso no texto. O que me desperta atenção no caso da Amy não é qualquer teorização sobre sua morte, como Tognolli colossalmente satirizou por aqui – deixo isso pra Sônia e seus analistas de famosidades em plantão. Qualquer tipo de especulação acerca do ocorrido é mero sensacionalismo, no máximo pseudo-psicologia, falta de compromisso em atrelar possibilidades ao que é factual. Como saber à distância, conhecendo o indivíduo por sua imagem icônica, o turbilhão que existe em sua cabeça a ponto de tantos shows desastrosos, fotos auto-flageladas e do quanto mais de íntimo e subjetivo é desconhecido e capaz de culminar em sua morte? Essas lacunas sempre ficarão ao vácuo. Não há flagra de paparazzi que possa alcançar tais respostas. Cabe aqui apenas um esporro: não faz sentido qualquer lamentação por parte daqueles que espetacularizaram sua dificuldade em largar o uso abusivo de drogas. Ah, vai, vocês sabiam que ela não era coisa boa. E era isso que vocês gostavam nela.

Vale dizer, o consumo de drogas - que aparenta ter sido motivo orgânico para sua morte -, tem a idade do céu. Inclusive, eu e você usamos drogas vira e mexe, quando ficamos doentes. Além do mais, existe mais uma centena de drogas licitas que provocam perda do reflexo e discernimento e tantos outros produtos que trazem mil malefícios – por sinal, você deve usar alguns deles. Portanto, a questão não é propriamente o uso, mas o abuso (rima clichê, mas precisa) e a falta de criteriosidade na seleção. Na verdade, a questão nem é o motivo da morte, mas que o uso de drogas está atrelado a uma imagem construída tanto pela mídia quanto por parte de suas músicas e, ora produzida tal imagem, ela foi massificada e degustada sem mastigação pelo público. Se Amy incorporou esse personagem e optou por este caminho? Apenas questionamentos.

O fato é que não vimos Amy velha. Entrou para a dream band dos mortos aos 27 – que talvez seja a idade média suficiente para um indivíduo se tornar famoso, ficar rico e aniquilar seu próprio corpo. Não deu pra saber como lidaria com a miserável máxima de Oscar Wilde: “Não é possível ser popular sem ser medíocre”. Apesar de pop, não viu seu estilo se tornar hegemônico, apenas seu nome – quantas Amy você conhece? Findou-se como [e por causa da] heroína, pois não viveu o suficiente para tornar-se vilã. Numa carreira tão curta que o auge compadeceu quase em seu nascimento, dita por muitos o grande nome do cenário musical na primeira década do milênio, Amy se foi sem assistir vanguardistas chamando-a de ultrapassada e quiçá careta. Morreu jovem.

Deixou a música marcada não propriamente por sua genialidade, pois não é pra tanto. Ficou, sim, mais um estigma provocado pelo ovacionamento a um gozo hedonista e auto-predatório que mal se sabe se realmente existiu, mas que pode ter sido senão a causa, pilar de toda essa história.

A tragédia anunciada da efemeridade traz a pergunta miserável, dando ao texto a necessária brevidade condizente em seu fim: se ela não fosse a mulher que se mataria aos 27, ela seria a Amy?

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