A ressaca do crédito

O que vem no pós queda dos juros é que deveremos agora nos ater, refletir e definitivamente ponderar a sua capilaridade

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A resposta nos foi dada: a ação de baixar os juros pelos bancos estatais foi seguida pela maioria dos bancos privados, ou melhor, foi seguida por todos os maiores bancos privados que operam no mercado nacional. Tímida, é verdade.

A influência dos players estatais sobre o regime de juros brasileiros ganhou ainda mais reforço após a nova queda da taxa SELIC, que já ligou o sinal amarelo referente a remuneração à poupança.

Porém, antes de pensarmos no sistema de remunerações da poupança, vamos destacar os resultados para a captação de recursos das famílias, ou em termos populares, o volume de endividamento em que as famílias ficarão expostas após um barateamento do custo do capital.

A queda das taxas de juros é algo extremamente necessário, justo, impositivo e eficaz. O que vem no pós queda dos juros é que deveremos agora nos ater, refletir e definitivamente ponderar a sua capilaridade.

A família brasileira está ávida ao consumo, ávida a ter acesso às novidades, aos produtos importados e impulsionados pela melhoria qualitativa no padrão de consumo proporcionado pelo aumento dos salários. Sabendo disso, a política econômica proposta pelo governo federal objetiva exatamente alimentar este processo de consumo interno para manter a economia aquecida.

Baseando-se em um cenário externo estagnado, paralisado pelas crises e ausência de soluções no curto prazo, a saída para a manutenção da temperatura da economia é focar no consumo das famílias. O problema recai justamente no efeito de endividamento que isso provocará. É o lado negativo da expansão do crédito.

A primeira onda de endividamento das famílias foi gerada pela compra facilitada dos carros novos, com prazos elásticos e uma oferta maior de opções. Carros chineses, importados e melhoramento dos veículos nacionais foram variáveis que incrementaram as vendas, mas nada foi mais importante do que o nível de financiamento ofertado pelas instituições bancárias.

O primeiro problema deste endividamento começa a ser sentido, salvo exceções, após cerca de 12 a 24 parcelas, começa-se a notar um aperto no fluxo de caixa do cliente (esse problema ocorre justamente após o período de pagar IPVA, Seguro e o reconhecimento que a despesa com o veículo não incluí apenas parcelas do financiamento, mas manutenção e outros serviços).

Logo, o orçamento fica apertado, e o cliente percebe que, mesmo tendo pago um numero médio de parcelas, o saldo devedor não diminui na velocidade esperada, principalmente porquê muitos empréstimo foram feitos sem entrada, ou seja, o financiamento do bem foi sobre o valor total.

Além disso, as necessidades de consumo foram se ampliando ao longo do período em que já se tinha um fluxo de pagamento apertado, sufocando ainda mais a renda. A segunda onda, mais restrita é verdade, veio e ainda é o boom imobiliário, com financiamentos acima dos valores reais dos imóveis e altas parcelas, que mesmo subsidiadas pela renda foram prejudicadas pela supervalorização imobiliária.

Apartamentos e casa antes vendidos a um preço, sofreram incremento na média de 10 a 20% em seus preços. É importante ponderar que a economia brasileira não sofre ainda com uma crise de inadimplência e que os dois movimentos citados anteriormente representam marcos da evolução do nosso sistema financeiro e amadurecimento econômico. Caso a população continue a se endividar, através do crédito menos caro (mesmo com a baixa da taxa de juros, ainda temos uma taxa média acima do mercado mundial) proporcionará uma terceira onda.

A questão a se pensar é que o crédito no atual patamar deve ser utilizado para se negociar e substituir uma dívida mais cara por um valor de juros mais barato. Porém, se o brasileiro não expandir seu consumo, não se materializará o movimento de reaquecimento da economia brasileira. Para àqueles que não possuem dívidas, não há restrição para utilizar a redução dos juros.

O ponto central é que o governo, mesmo expandindo o crédito para potencializar o consumo, monitorará o endividamento das famílias a fim de evitar exageros, tendo como comprovação disto o movimento anterior em que o Banco Central passou a monitorar os empréstimo de menor valor. Ou seja, antes, o governo estabeleceu as bases de acompanhamento para agora liberar o crédito.

Não podemos esquecer ainda que a baixa dos juros poderá sim ajudar os empresários na condução de suas empresas, principalmente aqueles que possuem um caixa abaixo do necessário, com um fluxo apertado e já se encontram pagando taxas sufocantes. É uma boa alternativa a negociação das dívidas e a contratação de empréstimo sob taxas menos penalizantes.

Enfim, a redução dos juros foi um movimento multiplicado para outros agentes financeiros, e pode ajudar a economia na retomada de seu crescimento. Empresários e consumidores deverão se atentar as regras e manter a comparação entre as taxas. O consumo deve ser consciente, para que não se torne um problema futuro.

Antônio Teodoro é economista e professor

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