Abstraindo o consumo

Mesmo que mais satisfeitos e com mais opções, o atual consumidor busca satisfazer suas expectativas, suas vontades, e não mais estritamente suas necessidades

A expansão da economia formal introduziu novos conceitos de renda, emprego, relações comerciais, consumo e uma integração que correlacionou tendências externas ao mercado interno. Uma série de fatores e motivações econômicas tiveram influência na construção do mapa atual de circulação de renda, o que na verdade significa dizer que houve mudança na rota de circulação do dinheiro à disposição da população brasileira.

O desenvolvimento do mercado consumidor na região Norte e Nordeste, impulsionado pela formalização das relações de trabalho e incremento produtivo, realocou as forças de vendas e estratégias de empresas que antes se centravam no eixo Centro Sul e agora expandem seus negócios frente a concorrentes regionais ali instalados.

Mesmo que muitas ações de crescimento econômico estivessem ligadas a indução do governo federal, alguns estados redescobriram suas vocações e melhoraram suas estratégias de atratividade industrial, garantindo uma média modernização nos parques industriais, o que trouxe consigo um batalhão populacional de empregados, que ávidos por oportunidades, não se privaram de migrar para os mais diversos pontos de nosso território para galgar melhores posições sociais.

Mesmo que o mercado consumidor seja composto por diferentes gerações, X, Y, Z e etc..., a concepção de consumir e se organizar como agente econômico se transformou na verdade em um processo, em uma ação, que hoje ativa muito mais pelas disponibilidades e expectativas de consumo do que pelas reais necessidades.

Recai neste ponto a forte influência e integração do meio externo com o meio interno. Muitos brasileiros aproveitaram as oportunidades cambiais para agregar experiências de vida e cumpriram roteiros internacionais de viagens.

Logo, os mais jovens, já tendem a construir sua identidade cultural acostumados com uma integração intensa com outras culturas, o que deliberadamente agregará novas rotinas e novos processos de consumo.

Quero dizer com isso que, o que antes era algo pontual, se tornará absolutamente comum e normal para as novas gerações. Reitero o discurso de desprendimento das fronteiras geográficas e construção de atalhos culturais.

Mesmo que mais satisfeitos e com mais opções, o atual consumidor busca satisfazer suas expectativas, suas vontades, e não mais estritamente suas necessidades. A satisfação marginal do produto precisa caminhar em encontro ao que se tem constituído na sociedade organizada, e o produto não é simplesmente para uso próprio, e sim, fator referencial de seu status para com a relação do meio consumidor. O consumo perdeu sua pessoalidade.

Objetiva-se assim a analisar que, os hábitos de consumo não parecem ter apenas se alterado devido as novas formas, as novas ofertas de produtos, e sim, por uma alteração de simbologia, de status, de cronologia e de necessidade de afirmação frente a coação sofrida pelos outros agentes econômicos sociais.

A alteração das rotas do consumo, mesmo que ainda de forma progressiva e longe de quebrar as amarras do centro sul, demonstra novas feições e novas particularidades quando se analisados os aspectos regionais.

Logo, leia-se que, cada região brasileira possui eixos e perfis comportamentais diferenciados, e daí, um grande número de empresas líderes regionalmente em seus ramos de atividade, mas praticamente desconhecidas do restante do mundo consumidor.

Raras, é verdade, são as empresas que conseguiram romper a barreira do regionalismo e expandir sua cultura de vendas e uso para outros além territórios.

Um fator a se ponderar nesta argumentação é como a interação e a necessidade de se manter sempre atualizado, conectado ao mundo, influencia na tomada de decisão. O status transitório de conexão e informação com o mundo amplia as bases e fronteiras das expectativas de consumo, abrindo margem para querer obter aquilo que até então não se via necessidade.

Ou seja, a alteração do consumo passa pela ampliação da renda e dos fatores inicialmente argumentados, mas ganha um "efeito multiplicador" proporcionado pelas novas relações sociais e institucionalização dos bens de consumo.

Antônio Teodoro é economista e professor

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