Alta do petróleo impulsiona SAF, mas aviação enfrenta obstáculos
Escalada dos preços do petróleo aumenta interesse pelo combustível sustentável, porém baixa oferta ainda limita sua adoção pelas companhias aéreas
247 - As tensões geopolíticas no Oriente Médio e a disparada dos preços do petróleo voltaram a colocar em evidência o debate sobre o futuro do combustível utilizado pela aviação mundial. Embora especialistas tenham alertado para o risco de escassez de querosene de aviação e interrupções significativas no transporte aéreo global, o setor conseguiu evitar, ao menos até agora, um cenário mais grave de desabastecimento.
De acordo com reportagem publicada pelo jorntal The New York Times, reproduzidda pela Folha de S.Paulo, as previsões mais pessimistas indicavam que um conflito prolongado envolvendo o Irã poderia provocar cancelamentos em massa de voos, aumento expressivo das tarifas aéreas e dificuldades de abastecimento. O principal motivo de preocupação era o estreito de Hormuz, rota estratégica para a exportação de petróleo e gás natural.
O impacto potencial da crise também levantou questionamentos sobre os efeitos ambientais da aviação, responsável por aproximadamente 2,5% das emissões globais de dióxido de carbono. Em meio às incertezas sobre o fornecimento de combustíveis fósseis, o combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF (Sustainable Aviation Fuel), voltou a ser apontado como uma alternativa capaz de reduzir a dependência do petróleo convencional.
Mercado evita cenário mais grave
Apesar dos receios iniciais, a indústria aérea global não sofreu os efeitos devastadores previstos por parte dos analistas. Companhias aéreas adotaram medidas para enfrentar a alta dos custos, incluindo reajustes de tarifas, cobrança de sobretaxas relacionadas ao combustível e cancelamentos pontuais de voos.
Executivos de grandes empresas europeias, como Ryanair e easyJet, afirmaram recentemente que não enxergam riscos imediatos para suas operações. Ao mesmo tempo, produtores de petróleo, especialmente os Estados Unidos e países da África Ocidental, ampliaram a oferta da commodity para compensar parte das pressões sobre o mercado.
Além disso, refinarias passaram a direcionar uma parcela maior de sua produção para o querosene de aviação, reduzindo a fabricação de gasolina. O movimento ajudou a estabilizar o abastecimento e evitar rupturas na cadeia logística do setor.
Demanda segue aquecida apesar dos preços
Mesmo com o encarecimento do combustível, a procura por viagens aéreas permanece relativamente forte em alguns mercados. Nos Estados Unidos, a United Airlines elevou o preço das passagens entre 15% e 20% desde o início do conflito, mas ainda assim projeta transportar cerca de 3 milhões de passageiros a mais durante o verão do Hemisfério Norte em comparação ao ano passado.
Especialistas, contudo, alertam que o equilíbrio atual pode ser temporário. Caso o estreito de Hormuz permaneça fechado por um período prolongado, projeções da consultoria Rystad Energy indicam que a demanda global por querosene de aviação poderá cair ao longo do ano em razão da redução de voos pelas companhias.
A perspectiva reforça a vulnerabilidade da aviação às oscilações do mercado energético, especialmente em momentos de instabilidade geopolítica.
Empresas de baixo custo sentem mais os efeitos
O aumento dos combustíveis atingiu de forma particularmente intensa as companhias aéreas de baixo custo. Isso ocorre porque voos de curta distância consomem proporcionalmente mais combustível por quilômetro percorrido, já que as etapas de decolagem e subida exigem elevado gasto energético.
Nos Estados Unidos, a Spirit Airlines apontou o aumento dos custos com combustível entre os fatores que contribuíram para sua falência no início de maio. Já no Sudeste Asiático, onde empresas como a AirAsia expandiram fortemente suas operações nas últimas décadas, os reajustes tarifários provocaram retração significativa na demanda.
Segundo o analista de aviação Brendan Sobie, baseado em Singapura, as companhias de baixo custo reduziram aproximadamente 20% de suas operações em relação ao período anterior à crise, o que representa cerca de 4 milhões de passageiros a menos por mês.
"É um mercado muito sensível a preço", afirmou Sobie. "Quando as tarifas sobem, nem todo mundo consegue pagar para voar."
SAF ganha relevância estratégica
Em meio à volatilidade dos combustíveis fósseis, cresce a atenção dedicada ao SAF, produzido a partir de matérias-primas como óleo de cozinha usado, etanol de milho e resíduos agrícolas. O combustível é considerado uma das principais apostas do setor para reduzir emissões de carbono nas próximas décadas.
Entretanto, a produção global ainda está muito distante da escala necessária para substituir o querosene convencional. A United Airlines, considerada a maior compradora de SAF dos Estados Unidos, consumiu 28 milhões de galões do combustível produzido a partir de óleo de cozinha usado no ano passado. Mesmo assim, esse volume representou menos de 1% de todo o combustível utilizado pela companhia.
Por outro lado, a valorização do petróleo reduziu a diferença de preços entre o combustível fóssil e o SAF, tornando a alternativa renovável mais competitiva economicamente.
Segurança energética entra na discussão
Para Lauren Riley, diretora de sustentabilidade da United Airlines, o debate em torno dos combustíveis alternativos passou por uma mudança significativa nas últimas semanas. Segundo ela, além das preocupações ambientais, a segurança de abastecimento passou a ocupar papel central nas discussões do setor.
"Estamos começando a perceber algo que antes não valorizávamos: a cadeia de suprimentos para produzir SAF é totalmente desvinculada da cadeia fóssil", afirmou Riley.
"Isso representa uma oportunidade para diversificarmos nossas fontes de energia."
Apesar do interesse crescente, o SAF ainda enfrenta questionamentos sobre sua efetiva sustentabilidade ambiental e sobre a capacidade de expansão da produção. O governo do então presidente Joe Biden estabeleceu a meta de alcançar uma produção anual de 3 bilhões de galões até 2030, volume equivalente a aproximadamente 10% da demanda do setor aéreo. Ainda assim, projeções recentes da própria indústria apontam que o crescimento da oferta de combustíveis sustentáveis menos poluentes poderá desacelerar ao longo de 2026, mantendo os desafios para uma adoção em larga escala.
