Banco Central rejeitou compra do Master pelo BRB dois meses antes de liquidação
Ofícios enviados meses antes apontaram falhas graves, inconsistências e falta de dados na operação, segundo documentos analisados pelo TCU
247 - Dois meses antes de barrar oficialmente a aquisição do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília), o Banco Central já havia informado às duas instituições que o negócio, da forma como foi apresentado, não poderia ser aprovado. A informação foi revelada pela Folha de S.Paulo, com base em documentos oficiais.
Em ofício datado de 27 de junho do ano passado, técnicos do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central foram categóricos ao afirmar que a documentação entregue pelos bancos em cinco ocasiões era insuficiente e que o pedido de compra “na forma como atualmente se encontra, não reúne condições de aprovação”.
Na comunicação, a autoridade monetária listou cerca de 40 pontos que exigiam esclarecimentos adicionais, incluindo demonstrações contábeis, relatórios de diligência, atualização de projeções econômico-financeiras e a definição clara do escopo da transação. Ao longo do processo, o próprio perímetro do negócio — ou seja, quais partes do Banco Master seriam incorporadas pelo BRB — sofreu mudanças sucessivas entre o pedido inicial, feito em 28 de março, e a decisão final, tomada no início de setembro.
Procuradas pela reportagem, as instituições não comentaram. A defesa do Banco Master optou por não se manifestar, enquanto o BRB não respondeu aos contatos feitos por e-mail e mensagens.
Entre os pontos críticos levantados pelo Banco Central estava um relatório da consultoria PwC, que identificou falhas relevantes na qualidade das informações apresentadas. O documento apontava “falta de informações suporte de forma completa”, incluindo ausência de reconciliação de saldos importantes, como aplicações compromissadas, operações de crédito e depósitos à vista.
Segundo a consultoria, parte desses dados era controlada manualmente, o que aumentava o risco de inconsistências. “Esses fatores aumentam o risco relacionado com a confiabilidade das informações e destacam a necessidade de aprimoramento do ambiente de controles internos das instituições”, registrou o relatório.
Outro ponto que chamou atenção do Banco Central foi a rentabilidade informada de um fundo específico. O órgão solicitou explicações sobre a composição do FIDC RSG e questionou o retorno reportado pelo Banco Master: 4.245,81% em apenas 42 dias, conforme consta no ofício.
As cobranças se repetiram nas semanas seguintes. Em novo documento, de 23 de julho, o Banco Central voltou a alertar que o pedido não reunia condições de aprovação, citando inconsistências, indefinições sobre o escopo da operação e falhas nas projeções econômico-financeiras. Segundo os técnicos, esses problemas “comprometem o requisito de viabilidade da operação”.
Esse segundo ofício foi enviado 42 dias antes da decisão definitiva de barrar o negócio. De acordo com documentos encaminhados ao Tribunal de Contas da União (TCU), tratava-se da terceira tentativa do Banco Central de obter informações detalhadas sobre a transação. Uma quarta e última solicitação ainda seria feita em 31 de julho.
Os registros mostram que BRB e Master foram reiteradamente omissos na definição do perímetro da operação. Para os técnicos do Banco Central, essa indefinição “impossibilita a esta autarquia examinar e decidir o estudo de viabilidade econômico-financeira”.
A atuação do Banco Central foi posteriormente analisada pelo TCU, que abriu processos para apurar tanto a conduta da autoridade monetária quanto os desdobramentos da tentativa de aquisição. A área técnica da corte concluiu que o BC agiu com diligência e baseou suas decisões em critérios técnicos.
Já a unidade especializada em instituições financeiras do tribunal, a AudBancos, identificou indícios de que o BRB tenha adotado uma postura temerária ao insistir na compra, mesmo após o surgimento de suspeitas de fraudes na cessão de carteiras de crédito entre os bancos.
Em resposta a essa avaliação, o governo do Distrito Federal — principal acionista do BRB — afirmou que a instituição “possui governança corporativa robusta e atua com independência em suas decisões de mercado”, acrescentando que as negociações faziam parte de um processo regular de estruturação de negócios.
Apesar dos alertas do Banco Central, o BRB seguiu defendendo a operação. No mesmo dia em que recebeu uma das cobranças por mais informações, o banco divulgava ao mercado seus resultados do primeiro trimestre de 2025, destacando a aquisição do Master — chamada internamente de “Projeto Vórtice” — como peça-chave para sua expansão nacional. A expectativa era colocar o banco entre os dez maiores do país em volume de crédito.
O plano previa a compra de 58,04% do Banco Master, incluindo 49% das ações com direito a voto e a totalidade das preferenciais.
Pouco mais de dois meses após a rejeição da operação pelo Banco Central, o Banco Master teve sua liquidação decretada. Seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso e chegou a cumprir prisão domiciliar, mas retornou ao regime fechado em março deste ano após novas descobertas da investigação.
Segundo a Polícia Federal, mensagens encontradas em seu celular indicariam a intenção de simular um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, como forma de intimidação. As apurações também apontam que o ex-banqueiro mantinha uma milícia privada, chamada “A Turma”, voltada à coerção de adversários.
Atualmente, Vorcaro está detido na superintendência da Polícia Federal em Brasília, onde negocia um acordo de colaboração premiada.