BC e a vergonha estrutural

O cenário justificável para o aumento discreto da taxa juros é o reconhecimento de um cenário com picos, muito influenciado pelos hiatos produtivos, principalmente de alimentos. Não concordo com tal visão

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As perguntas foram respondidas: a taxa básica de juros da economia subiu 0,25%. Menos do que o mercado esperava, mas certeira na forma como se concebeu. O governo optou por segurar parcialmente o viés altista do cenário inflacionário através do aumento da taxa de juros.

Considero a atitude parcialmente acertada, uma vez que não bastará apenas elevar o nível dos juros para conter o processo inflacionário. Precisaremos atuar muito além desta proposição. Deveremos qualificar o gasto público, implantar uma política de orçamento focada em investimentos e reduzir a expansão burocrática da máquina pública. Não nos esqueçamos dos municípios e estados, que também estão paulatinamente atingindo seus níveis máximos de comprometimento orçamentário.

A ata ainda não foi divulgada até o desenvolvimento deste artigo, mas acredito que escolheram trabalhar no limite da margem de erro, ou neste caso, apostaram num enfraquecimento externo e de uma acomodação produtiva. Optaram por trabalhar no limite da meta inflacionária.

O cenário justificável para o aumento discreto da taxa juros é o reconhecimento de um cenário com picos, muito influenciado pelos hiatos produtivos, principalmente de alimentos. Não concordo com tal visão e acredito que mais uma vez não escolheram o caminho correto.

O ponto chave da análise inflacionária passou pelo fato de identificarmos certa dose de contaminação do aumento dos preços, principalmente em um período prévio de negociações sindicais. Este para mim é o ponto chave.

Muitas categorias profissionais têm os meses de abril e maio como referenciais para o reajuste salarial. Assim, com um pico de inflação neste momento, automaticamente o cenário para uma reposição salarial estará em um patamar mais alto que o costumeiramente adotado. "Indexados" ao INPC, o aumento salarial acima da capacidade de acomodação macroeconômica, traduz-se em inflação.

Logo, com um sentimento inflacionário ativo, ânimos exaltados pelo conflito de interesse, há possibilidade de uma contaminação dos salários e, por conseguinte, iniciar a espiral preço salário.

A tradicional e ainda presente indexação informal da economia ressurge com muita força nestes momentos. A elevação dos preços nas prestações de serviço é um dos termômetros mais claros, pois antecede em muitos casos a elevação do preço, tentando se precaver da elevação dos custos salariais, por exemplo. Recai justamente nesta antecipação a escalada dos preços e o decolar do voo inflacionário.

Não poderia deixar de sublinhar que, além desta notícia da subida da SELIC e a reação dos mercados, tivemos debitado em nossa conta de infraestrutura, mais uma vez, prejuízos frente à ineficiência de entrega, ou seja, produzimos uma safra monstruosa de grãos, mas estamos incapazes de escoá-la, ficando reféns de nossos gargalos.

Infelizmente, tal situação comprometeu a imagem institucional do país, sendo que houve a compra do produto, mas infelizmente não conseguimos entregar a comercialização. Refiro-me à ocorrência entre produtores brasileiros e compradores chineses de soja, que não conseguiram chegar ao acordo após atrasos no embarque do produto e romperam contratos.

Por outro lado, como neste momento o produto declinado foi a soja, que possui em sua cadeia produtiva um lobby muito forte e com representação no Senado federal, a chiadeira foi generalizada e ecoou em alto e bom som nos corredores da instituição. Finalmente tivemos escancarado o problema que cotidianamente convivemos.

Enfim, quem sabe poderemos evoluir em algum ponto no que se diz respeito a infraestrutura portuária, pelo menos, já que as estrutura rodoviária continua jogada às traças.

Há de se destacar a intenção do governo em atualizar a legislação e melhorar as concessões, mas de intenções em intenções, perdemos o tempo, a esperança e os negócios.

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