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Biodiesel fica mais barato que diesel e muda mercado global

Queda inédita nos preços dos biocombustíveis, impulsionada por tensões no Oriente Médio, leva fornecedores a buscar alternativas ao petróleo

Biodiesel fica mais barato que diesel e muda mercado global (Foto: REUTERS/Diego Vara)

247 - Fornecedores de combustíveis na Ásia aceleraram a busca por biocombustíveis após uma mudança inédita nos preços: pela primeira vez, essas alternativas renováveis ficaram mais baratas que seus equivalentes fósseis. As informações são de reportagem original do Financial Times, reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo.

O movimento ocorre em meio à pressão sobre o mercado de petróleo provocada pela guerra no Irã, que elevou os preços dos combustíveis tradicionais e estimulou uma corrida por substitutos. Dados da consultoria Argus Media indicam que, no fim de março, os preços de referência do biodiesel na Europa passaram a ser negociados com desconto em relação ao diesel convencional. Na Ásia, contratos futuros de óleo de palma também ficaram abaixo do diesel no início de abril.

A mudança de cenário já se reflete na demanda. Segundo Matti Lievonen, diretor-executivo da EcoCeres, produtora de combustíveis renováveis com sede em Hong Kong, fornecedores asiáticos de petróleo passaram a intensificar consultas para garantir óleo vegetal hidrotratado (HVO), usado como substituto do diesel. Ele afirmou que esse interesse tem crescido de forma consistente e que parte relevante da demanda está direcionada à Austrália, onde a escassez de oferta é mais severa.

Embora parte dessa corrida seja atribuída a grandes petroleiras tentando assegurar alternativas ao diesel, Lievonen destacou que há também uma transformação estrutural em curso. Para ele, os combustíveis renováveis estão se tornando mais competitivos, levando empresas a “pensar de forma diferente” sobre a dependência energética do Oriente Médio.

Os preços dos combustíveis fósseis dispararam no início do conflito no Irã, especialmente com o fechamento quase total do estreito de Hormuz, uma rota estratégica para o transporte global de petróleo. Mesmo com um cessar-fogo provisório, os valores permanecem elevados. Já os biocombustíveis seguem relativamente estáveis, sustentados por fatores próprios, como políticas públicas e a oferta de matérias-primas, explicou Giulia Squadrin, especialista da Argus.

Esse novo equilíbrio de preços também tem incentivado governos a ampliar mandatos de mistura, que determinam a proporção mínima de biocombustíveis nos combustíveis de transporte. A Indonésia, maior produtora mundial de óleo de palma, anunciou no fim de março que elevará sua meta para 50% a partir de julho, ante os atuais 40%. A Malásia, por sua vez, planeja aumentar seu percentual de 10% para 15%.

Apesar disso, muitos países ainda adotam uma postura cautelosa. Lievonen avalia que preços elevados dos combustíveis fósseis tendem a reforçar o debate sobre segurança energética e estimular investimentos em alternativas renováveis. “Evidentemente, esses preços farão as pessoas pensarem” em desenvolver uma “economia circular” mais robusta, afirmou, destacando o potencial de regiões asiáticas que possuem matérias-primas disponíveis localmente.

Na Europa, a Comissão Europeia já orientou os países do bloco a se prepararem para possíveis interrupções prolongadas no fornecimento de energia ligadas ao Oriente Médio. Em carta recente, o órgão sugeriu que os governos façam preparativos e considerem ampliar o uso de biocombustíveis para aliviar a pressão sobre o mercado.

Mesmo com o avanço, desafios persistem. O HVO de referência europeu ainda custa aproximadamente o dobro do diesel fóssil, embora esse prêmio já tenha sido maior. Além disso, limitações de produção continuam sendo um entrave para expansão mais rápida.

Projeções da Agência Internacional de Energia indicam que o consumo global de biocombustíveis deve mais que dobrar até 2030, alcançando cerca de 6 milhões de barris por dia em equivalente de petróleo. Ainda assim, esse volume representaria apenas cerca de 6% da oferta global atual de petróleo.

A expansão dos biocombustíveis também levanta preocupações sobre seus impactos em outros mercados. Muitas das matérias-primas utilizadas, como óleos vegetais, fazem parte da cadeia alimentar, o que pode pressionar os preços dos alimentos. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura mostram que o índice de preços de óleos vegetais atingiu, em março, média de 183,1 pontos — alta de 5% em relação a fevereiro e o maior nível desde junho de 2022.

No setor de aviação, o combustível sustentável (SAF) também reduziu a diferença de preço em relação ao querosene tradicional, mas ainda permanece cerca de 60% mais caro. Segundo Mylène Scholnick, consultora da World Star Aviation e ex-chefe de gestão de frota global da Amazon Air, “a diferença ainda é grande demais para ser atraente para as companhias aéreas”, além de a oferta continuar limitada.

Para especialistas, ainda é cedo para afirmar se a atual vantagem de preço dos biocombustíveis será duradoura. Alan Gelder, da consultoria Wood Mackenzie, destacou que investidores precisam de previsibilidade para ampliar aportes no setor. “Para que as pessoas invistam mais, elas precisam acreditar que é estrutural”, afirmou, ressaltando que oscilações pontuais de preços não garantem uma mudança permanente no mercado.