Brasil se tornou desinteressante para investidores, aponta correspondente alemão

"O Brasil foi o país que mais perdeu investimentos entre os principais mercados emergentes do mundo, com queda de 50%. No México, por exemplo, as empresas estrangeiras investiram apenas 8% a menos. Na Índia e na China, pelo contrário, elas aumentaram suas aquisições", diz Alexander Busch

(Foto: ABr | Divulgação)
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Por Alexander Busch, do jornal Handelsblatt, na Deutsche Welle – Os últimos números da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) sobre o desenvolvimento do investimento estrangeiro no mundo praticamente não chamaram atenção no Brasil. Mas deveriam. Eles apontam para uma perigosa inversão de tendência, que moldará a economia brasileira nos próximos anos.

No ano passado, o investimento estrangeiro direto no Brasil encolheu por cerca da metade. Em comparação com as economias industrializadas como a de países europeus e dos Estados Unidos, isso não é muito – nelas, os investimentos das empresas estrangeiras caíram quase 70%.

Mas o problema é que o Brasil foi o que mais perdeu entre os principais mercados emergentes do mundo. No México, por exemplo, as empresas estrangeiras investiram apenas 8% a menos. Na Índia e na China, pelo contrário, elas aumentaram suas aquisições, investimentos e novos aportes, mesmo em meio à pandemia.

Isso é incomum para o Brasil. Até agora, o país podia contar sempre com empresas estrangeiras para investir, por mais grave que fosse a crise. Durante grande parte dos últimos 20 anos, ele esteve entre os quatro ou cinco melhores lugares para se investir no mundo. Mas agora a maré parece estar virando.

Como a saída da Ford do Brasil acaba de demonstrar, o tamanho do mercado brasileiro, com 210 milhões de consumidores, está servindo cada vez menos como argumento de investimento. Até recentemente, estar presente no Brasil era uma obrigação entre os fabricantes de bens de consumo do mundo inteiro. Mas agora, nem mesmo o real desvalorizado e, portanto, barato está atraindo empresas para comprar fábricas.

Há, além disso, três outras tendências que tornam o Brasil ainda menos atraente para as multinacionais.

A primeira: as esperadas privatizações do governo estão estagnadas e é pouco provável que decolem em breve. O presidente parece não ter o menor interesse em vender empresas estatais.

Outra é que, enquanto o mundo se integra – o tratado de livre-comércio da região Ásia-Pacífico é um exemplo – a integração na América do Sul está paralisada. O Mercosul agora é apenas uma sombra do que foi.

E a terceira tendência: os gerentes no Brasil estão tendo cada vez mais dificuldade em convencer seus conselhos de administração e de supervisão nas matrizes na Europa e nos EUA a investir no país. As crescentes demandas no exterior por investimentos responsáveis social, ética e ecologicamente estão afastando as empresas de investir no Brasil. E isso, não há dúvida, se deve principalmente às políticas ambientais do governo Jair Bolsonaro.

Isso não é um bom desenvolvimento para o Brasil: levará o país, ao final, a tornar-se cada vez mais dependente de suas exportações de commodities.

Em declarações ao Brazil Journal, o investidor e especialista em commodities Jean Van de Walle esclareceu a importância cada vez menor do Brasil na economia global: "90% do crescimento da classe média no mundo acontece na Ásia", disse Van de Walle.  "Então, será que vale a pena o investidor global passar muito tempo olhando uma região que ficou tão pequena no contexto global? E uma região que, para além das commodities, não tem crescimento e tem pouca inovação?"

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

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