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Cachinhos Dourados novamente?

Não conseguimos ver diferença entre a economia dos EUA em 2006 e a economia dos EUA em 2013, a não ser pelo tamanho da encrenca

Vários economistas estão dizendo que a situação da economia dos EUA está melhorando, que os estímulos à economia fornecidos pelo FED estão dando resultado. Vimos as Bolsa de Valores de lá subindo, o preço dos imóveis também subindo e achamos que está indo tudo bem realmente.

Infelizmente, isso é somente uma impressão.

Em 2006 o preço dos imóveis estava subindo, as Bolsas de Valores também e vários economistas (os mesmos que agora dizem que está tudo bem) diziam que era a economia dos cachinhos dourados – tudo perfeito e sob medida!

Não conseguimos ver diferença entre a economia dos EUA em 2006 e a economia dos EUA em 2013, a não ser pelo tamanho da encrenca.

Os mesmos problemas que causaram a crise de 2008 estão aí hoje, só que muito maiores. A economia dos EUA naquele período estava crescendo devido a estímulos do FED, não era um crescimento verdadeiro. Muito dinheiro barato induziu as pessoas a fazer investimentos bem aquém de razoáveis que propiciou uma bolha naquela economia e vimos as consequências dessa política de crédito farto a juros baratos no estouro da bolha de 2008.

Hoje o dinheiro está ainda mais barato e o crédito ainda mais abundante. Os EUA conseguiram se safar das consequências daquela crise porque o mundo inteiro correu para o dólar americano, o que manteve a moeda desse país forte, os juros baixos e a inflação sob controle, apesar do maior programa de estímulos a uma economia já visto.

Dessa vez, não há garantias que o mundo vai correr para o dólar uma vez mais – e o perigo para os EUA pode estar aí.

Para sair desse programa de QE (quantitative easing, ou afrouxamento quantitativo), o presidente do FED, Ben Bernanke, disse há cerca de um mês que a estratégia de saída do FED desse QE será o de reduzir as compras de títulos do governo e bônus de hipotecas ainda esse ano e parar de comprá-los totalmente no meio do próximo ano.

A verdade é que isso não vai ocorrer e o FED não tem nenhuma estratégia de saída.

Como dizia Einstein, a definição de loucura é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes.

Já nos esquecemos dos anos antes da crise de 2008, mas o então presidente do FED, Alan Greenspan, abaixou os juros para 1% ao ano para estimular a economia depois do estouro da bolha da internet nos EUA.

Em 2004/05, a estratégia de saída do FED foi de subir os juros devagarinho – não poderia ter subido rapidamente pois senão iria acabar com a "recuperação" da economia. Em 2008, quando a taxa de juros chegou a pouco mais de 5%, vimos o que aconteceu. Vale lembrar que a maioria dos empréstimos podres feitos pelos bancos foi realizada no período de 2006-07; se o FED tivesse sido rápido para subir os juros, a crise de 2008 não teria sido tão ruim.

Hoje a economia dos EUA está viciada em estímulos. Aquilo que deveria ter sido uma ajuda temporária, se transformou em algo constante, como uma droga. Agora a economia não consegue viver sem estímulos e cada vez mais precisa de estímulos maiores para se manter.

Na verdade, a economia não vai melhorar enquanto a taxa de juros for tão baixa. Os japoneses estão fazendo isso há 20 anos e não há sinal de melhora naquele país também. E há pouco anunciaram um programa de afrouxamento quantitativo no Japão ainda maior (proporcionalmente à sua economia) que o dos EUA. É como tentar quebrar uma faca dando murros na sua ponta; como não se consegue, então dão-se murros mais fortes ainda!!!

Por isso achamos que não haverá um fim à vista para os QEs: quanto mais estímulos são dados, pior será a crise quando os juros subirem – e eles vão subir!

Ou eles sobem agora e descarrilam de vez a economia norte-americana ou eles vão subir depois (o que eu acho) e as consequências serão catastróficas.

E por que os juros subiriam?

Acredito que eventualmente a inflação vai aparecer: o governo tem feito um trabalho espetacular (aliás, isso não é só mérito do governo dos EUA, mas de vários outros, incluindo o nosso) de mascarar a inflação, mas quem tem que sair e fazer compras sabe que a inflação não é tão pequena assim.

Estamos vendo um crescimento na economia dos EUA simplesmente porque os índices de inflação são muito baixos e o deflator pequeno. Eu acredito que eles já estão em recessão e que se a inflação fosse medida corretamente, isso viria à tona. Basta ver o índice de desemprego naquele país – é condizente com recessão, não com uma economia vibrante.

Quando não der mais para o governo mascarar a inflação, os juros terão que subir e aí essa bolha será furada. Só que o problema será muito maior, já que mais pessoas compraram casas com hipotecas que serão reajustadas, vários bancos estão atolados em títulos públicos americanos (que caem quando os juros sobem) e o próprio FED, maior detentor de títulos americanos, sofrerá um grande prejuízo – e quem irá resgatar o FED? Especialmente depois da operação twist, onde o FED alongou o perfil da sua dívida. Um aumento na taxa de juros seria fatal.