Como restaurar a prosperidade

As incertezas politicas na Europa e nos Estados Unidos estão trazendo de volta os temores de 2011

O ano de 2008 marcou o inicio de uma série de eventos econômicos – a eclosão da crise financeira nos EUA, a crise na Irlanda em 2009 seguida da Grécia, Portugal, Espanha e Itália – que colocaram a questão de como restaurar a prosperidade. Até pouco tempo atrás os lideres das economias europeias achavam que tinham a resposta para esta pergunta. A solução seria a austeridade. A austeridade, imposta pelo FMI e a União Europeia, restauraria a confiança dos mercados e como resultado haveria crescimento econômico. Austeridade foi o requisito para que os países recebessem ajuda do FMI.

Quatro anos depois ficou provado que longe de restaurar a prosperidade, a austeridade impediu o crescimento econômico e agravou a situação fiscal dos países que implementaram a receita do IMF/ECB. O índice de desemprego dos vários países afetados é uma das muitas provas de que a austeridade não trouxe bons resultados. Na Irlanda, o desemprego que em 2009 era de 13%, é agora quase 15%. Na Grécia, o desemprego de 17.3% cresceu para 21.8%, na Itália, cresceu de 7.0% em 2009 para 9.3% e na Espanha chega agora a 24%, ou seja, ¼ da população. Esta lista poderia crescer. Interessante notar que em pelo menos dois países que não seguiram o receituário de austeridade, Estados Unidos e Brasil, o desemprego caiu. Nos EUA, apesar de todas as dificuldades politicas, o exemplo de austeridade não foi seguido. As medidas aprovadas no inicio do Governo do presidente Obama aliviaram a recessão, poder-se ia dizer que evitaram a depressão, e o estimulo ainda que pequeno fez com que o desemprego passasse de 9.9% para 8.2% e no Brasil, o desemprego caiu de 6.8% para 6.2%.

Nas ultimas semanas subitamente a conversa mudou. Começou-se a falar em mudança de estratégia e em particular da necessidade reverter o ciclo vicioso de desemprego e recessão. Para completar, o Primeiro Ministro holandês renunciou depois que suas medidas de mais austeridade não foram aprovadas e é possível que o socialista François Hollande vença as eleições. Não sabemos o que ele vai fazer como presidente. Ele me lembra de quando Lula estava para ganhar as eleições no Brasil em 2002 e o “Mercado” entrou em pânico achando que viria um presidente socialista. Em escala muito menor isto aconteceu também com Dilma Roussef. Ambos mostraram que uma vez sentado na cadeira as coisas mudam de figura. Eu acredito que isto vá acontecer com Hollande, mas também acredito que ele vai ser uma força combatendo a politica de austeridade.

Esta mudança de tom coincidiu com a piora das condições na Espanha que passou para o centro dos acontecimentos. A Grécia já entrou para a história e a economia espanhola é quatro vezes maior que a economia grega. A bola da vez é a Espanha. Começa-se a se notar uma divergência entre a visão do FMI e das autoridades europeias. O FMI está começando a se distanciar da visão de que austeridade é a solução. Apesar das declarações de preocupação de Mario Draghi, o BCE está, como esteve outras vezes no passado, paralisado. Agora seria a hora de fazer alguma forma de afrouxamento monetário, diminuir a taxa de juros, injetar dinheiro nos bancos espanhóis. Repete-se o que vimos em 2011, muita conversa e pouca decisão enquanto a situação se deteriora.

Na semana passada aqui nos Estados Unidos, começou uma briga que vem sendo chamada a briga dos barbudos entre Bernanke e Krugman, porque Bernanke insiste em que não há necessidade de ajudar a economia e Krugman insiste que o medo de inflação não deveria impedir mais flexibilidade monetária para ter mais crescimento econômico.

Nos Estados Unidos as eleições estão indefinidas, Obama e Romney aparecem empatados em todas as pesquisas. Por enquanto as mensagens de ambos os candidatos são genéricas. A de Obama é “vamos continuar fazendo que vimos fazendo que tudo vai melhorar”. A de Romney é “vamos fazer outra coisa, eu vou fazer melhor e tudo vai melhorar”. Tudo muito vago. Romney tem que vencer muitos obstáculos, tem que começar a detalhar um plano de Governo, tem que escolher quem vai ser o Vice-presidente. Depois do filme Game Change da HBO, que mostra os bastidores da escolha desastrosa de Sara Palin, todos estão ansiosos para ver quem será o escolhido. Muita água vai rolar de agora até Novembro, mas seja qual for o novo Presidente, o voto do Congresso no ano passado para aumentar o teto do endividamento vai provocar cortes automáticos de despesas daqui a pouco a partir de 2013. Na semana passada o anuncio do PNB de certa forma nos lembrou da importância de gastos do governo. A economia americana cresceu mais lentamente, 2.2% contra os 3% registrados no último trimestre, principalmente por causa do declínio dos gastos do governo. A verdade é que a situação politica é de incerteza e isto vai se refletir nos mercados.

Desde Fevereiro, mas mais especificamente em Março e Abril houve um retorno da volatilidade nos mercados acionários. O Dow Jones, que vinha em uma trajetória ascendente desde o fim de 2011 tem se mantido num range entre 12.700 e 13.200. Os indicadores econômicos americanos que vinham apresentando constante melhora passaram a ser mistos, alguns positivos outros negativos. Os pedidos de seguro desemprego aumentaram, mas as vendas de casas chegaram ao ponto mais alto dos últimos dois anos. Entramos na temporada de resultados das empresas inquietos e temerários de que más noticias das empresas, aliadas ao retorno dos problemas europeus aos holofotes, pudessem provocar uma queda no Dow Jones. Não foi isto que aconteceu. A temporada de resultados tem sido no geral positiva. Apesar de cedo, os resultados estão 7.3% maiores do que no ultimo trimestre. Mas a volatilidade com certeza voltou e como sempre nestas horas, todo cuidado é pouco e risk management é crucial.

Nós estamos praticamente em Maio e o frio voltou esta semana, completamente inesperado e me fez tirar os casacos do armário. As incertezas politicas na Europa e nos Estados Unidos estão trazendo de volta os temores de 2011. Pior ainda, ninguém tem uma resposta boa para como restaurar a prosperidade.

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