Desafio às companhias

O alargamento das atividades das empresas fez pressupor um nível maior de risco, mas é preciso redesenhar qual o modelo que o Brasil pretende construir

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O ano de 2012 tem sido um verdadeiro desafio para as companhias globais e as nacionais.

Ao tempo da mundialização da economia, os reflexos mostram repercussões nas nações desenvolvidas e nos países do BRIC.

O crescimento brasileiro revela-se aquém da expectativa e a maioria das empresas demonstra uma queda sensível, principalmente em relação aos lucros dos bancos, com novos spreads e redução da taxa dos juros.

Em termos práticos, as empresas se ajustaram ao consumo e passaram a encontrar meios mais diretos de vencer a crise.

Evidente que houve um acentuado aumento de falências e pedidos de recuperação judicial, tudo isso somado incorpora-se ao momento de preservação dos empregos e da manutenção da empresa, independente do porte que apresenta.

O cenário, um tanto pessimista, apresenta grandes corporações com balanços volumosos dos seus próprios prejuízos, e dele não foge a Petrobrás, após mais de uma década em franco progresso e altos dividendos para os acionistas.

E uma vez que as companhias, a grande parte, estão no mercado acionário, de imediato os dividendos e os juros pagos serão menores do que nos anos anteriores.

A leitura feita é um desestímulo ao investidor e acionista no sentido do rentista e maior acompanhamento de aplicações com prefixação de rendimentos.

Muitos fatores contribuíram para a tempestade que se abateu sobre as empresas.

A queda do consumo, o aumento do dólar, o endividamento dos consumidores, a concorrência, e a falta de uma política industrial voltada para nortear metas de planejamento a longo prazo.

E, para arrematar, temos os custos tributários da produção na cadeia produtiva, incidindo, por substituição tributária, o PIS/COFINS, e tudo que agride o preço final.

A revolução feita com o pacote rodoferroviário no qual se pugna por um incremento de mais de 100 bilhões na economia é um passo significativo para que o governo mude o seu foco de acesso ao crédito para investimentos, geração de empregos, com a participação acentuada do BNDES.

Ninguém duvida que a crise internacional veio sem data para terminar, alguns colacionam uma década, outros menos, mas os próximos anos serão difíceis sob o prisma do mercado interno e das exportações junto ao mercado internacional.

Deslanchar e desenvolver plataformas dentro de um cenário de crise inspira uma mudança de mentalidade em torno de um plano nacional fortalecido em sintonia com a solução do crédito.

E não podemos pensar a curto prazo se a greve que contamina o serviço público acarreta prejuízos nos portos, nos aeroportos e torna enfraquecida a nossa pálida infraestrutura, assim os movimentos paredistas precisam ter soluções para que os impasses não respinguem na conjuntura dos balanços empresariais.

O alargamento das atividades das empresas fez pressupor um nível maior de risco, mas é preciso redesenhar qual o modelo que o Brasil pretende construir, de mero assistencialismo, ou de cogestor da iniciativa privada, com intervenções pontuais em tempos de crise.

Em decorrência dos prejuízos experimentados pelas empresas, em especial aquelas de grande porte, muitos gastos são cortados, desde aquele do investimento em tecnologia, realização de cursos, viagens, e tudo que possa contribuir para domestificação do treinamento de pessoal.

A questão mais aguda diz respeito à criação de uma poupança interna e aprimoramento da renda per capita da população, mas tudo isso depende da distribuição da riqueza e menor concentração de renda.

Os balanços negativos contribuem para uma menor arrecadação de impostos e essa situação já demonstra a insatisfação do governo, o qual, à míngua de um superávit primário, não pode se programar ou fazer investimentos maciços.

Em qualquer perspectiva, os administradores das companhias são chamados para os esclarecimentos perante os investidores e o mercado, a fim de tranquilizar e ao mesmo tempo apresentar plano compatível com a normalização da atividade.

Nada obstante, as macroempresas têm massas para gastar e o ajuste que está sendo feito nesse momento é crucial para que, na próxima década, tenhamos horizontes mais promissores.

Os balanços reais são pessimistas, mas muito mais otimistas daqueles fraudados por grandes corporações locais ou internacionais, causando uma debacle no mercado e colocando, em risco, a atividade produtiva.

A maior lição que se nos apresenta é que o tempo do capitalismo financeiro chegou à temperatura máxima, e somente o retorno ao capitalismo produtivo seguro nos dará condições de mantermos empresas sadias e balanços compatíveis com a renda da população, em harmonia com os riscos do negócio empresarial.

Carlos Henrique Abrão é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo

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