Dinheiro que banqueiro não vê

Informalidade e excluso bancria ainda so realidade do brasileiro de acordo com pesquisa do BC

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Lu Miranda_ 247 – Todos os dias, Paulo Airton Pontes, de 47 anos, pai de três filhos, sai da Vila Maria, na zona Norte de São Paulo para trabalhar na movimentada Rua Santa Ifigênia, no centro da cidade. Leva poucos trocados no bolso. O suficiente para comprar um maço de cigarros logo cedo. Depois, passa o dia sem um tostão. Paulo é trabalhador informal e não tem registro em carteira de trabalho. Distribui panfletos para divulgar um restaurante da região que serve almoço do tipo “prato feito”. Sem uma moeda sequer, não resta outra opção senão contar com o “PF” gratuito servido pelo patrão. Paulo conta que ganha R$1 mil reais por mês em dois pagamentos. E o dinheiro passa bem longe de uma conta em agência bancária. “Eu ganho o dinheiro e nada fica comigo. Vai direto para pagar o aluguel, o mercado, a gasolina do carro que uso para vir trabalhar. Só sobra mesmo um troco para o cigarro”.

Paulo não faz ideia, mas faz parte de uma maioria da população brasileira (72%) que só usa dinheiro. O panfleteiro também faz parte de uma parcela generosa de 55% dos brasileiros que só recebem em espécie. Os dados fazem parte de uma pesquisa encomendada pelo Banco Central no ano passado sobre a relação do brasileiro com o dinheiro e faz algumas comparações com o mesmo levantamento feito em 2007.

A pesquisa foi realizada pelo instituto Zaytec Brasil e concluída no primeiro trimestre do ano passado. Foram ouvidas 2.089 pessoas nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal, além de municípios com porte acima de 100 mil habitantes. As entrevistas foram dirigidas à população, ao comércio e aos prestadores de serviço. Segundo o BC, o objetivo é levantar informações que ajudem na melhoria de qualidade e oferta das diferentes cédulas e moedas, além de auxiliar no planejamento para orientação do público sobre os cuidados com o dinheiro. Aliás, a pesquisa apurou que a maioria dos entrevistados (82%) considera importante que as cédulas não estejam rasgadas, além de guardar o dinheiro em local adequado. A carteira é usada por 61% dos entrevistados, o bolso por 24%, cédulas soltas na bolsa por 9%, em compartimentos dentro da bolsa por 7% e nos porta-níqueis por 3%.

Se tivesse participado da amostra da pesquisa, Paulo faria parte de uma considerável parcela da população que passa longe de uma agência bancária, embora tenha havido aumento do número de brasileiros com conta corrente. Em 2007 representavam 39% e em 2010, 51%. A exclusão bancária de quase metade da população é apenas reflexo do alto nível de informalidade no País. De acordo como o economista Miguel Daoud, ela chega perto de 35%. “O dinheiro que não passa pelo sistema financeiro não é tributado e representa uma perda de R$ 380 bilhões por ano ao Brasil com a falta de arrecadação.”

A pesquisa encomendada pelo BC também apontou maior uso do cartão de crédito ou débito no pagamento de contas e compras, principalmente em super/hipermercados, aquisição de eletrodomésticos, roupas e calçados. O valor médio das despesas mensais do público subiu cerca de 40% entre 2007 e 2010 e ficou perto de R$ 808. Destes gastos, 59% dos pagamentos são feitos em dinheiro.

O africano Khalil Kane, de 23 anos, foi obrigado a entrar na formalidade aqui no Brasil. Teve de regularizar a situação e abrir conta em banco. Trabalha como ambulante no centro de São Paulo e vende correntes banhadas a ouro e prata. Simpático, cativa os clientes na rua, e afirma que consegue até R$ 200 por semana. Ele também não sabe, mas, mesmo estrangeiro, faz parte do público responsável pelo aumento no uso do cartão, de qualquer espécie, em detrimento do cheque. Uma parcela 43% da população em 2010 comparados aos 35% no cartão de débito e 31% no crédito, verificados em 2007. “Preciso do cartão do banco para depositar o dinheiro que ganho e enviar para minha família”. Há 3 anos no Brasil, Paulo tem planos de juntar dinheiro e, um dia, voltar à Guiné Bissau, na costa oeste da África.

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