E a Europa?
Um corte orçamentário generalista para todos os países pertencentes à União Europeia, sem recortes, tende a igualar os diferentes. E isso, na economia, tem seu preço
Tomados por mais uma semana eleitoral, nosso processo democrático se consolida. A vitória, a derrota, as discussões ideológicas caminham lado a lado das paixões e irracionalidades que muitas vezes presenciamos nas disputas eleitorais, transformando nosso processo em imbróglios eleitoreiros.
As idéias de melhorias municipais estão em pauta, e as melhores propostas e expectativas é que guiarão a tomada de decisão da maioria democrática.
Dentro de um cenário menos condescendente, vive o Velho Continente que, passadas as trocas de governos, principalmente na França, Espanha e Itália, se vê novamente frente à uma dicotomia: cortar despesas para equilibrar o orçamento ou expandi-lo para manter a atividade econômica aquecida?
A dúvida ocorre pelo seguinte raciocínio (simplificado): caso a escolha econômica caminhe por uma austeridade mais agressiva (economizar), o país terá de reduzir seu custeio, reduzir seus investimentos, e isso recairá sobre uma menor injeção de capital no cenário econômico.
Logo, o giro da economia será mais estacionário, o que automaticamente transferirá para as expectativas futuras um cenário pessimista. Materializando tal cenário pessimista, os empresários puxam o freio de mão sobre os investimentos e sobre a expansão produtiva.
A resposta vem no aumento do nível de desemprego e perda de renda entre os trabalhadores. Logo, sem renda, sem consumo e com mais desempregados, a situação que já era difícil torna-se ainda pior.
Caso o governo opte por manter a atividade aquecida e escolha o caminho de indutor do crescimento econômico, deverá arcar com o custeio extra que recairá sobre sua incipiente "força de indução".
Induzir, neste momento, significa injetar recursos para investimentos, obras e canalizar recursos para que a temperatura da atividade econômica suba de forma a garantir uma economia forte e com expectativas positivas, com um mercado aquecido e com melhorias nas condições de ampliar as plantas produtivas, contratar trabalhadores e ter assim um mercado consumidor aquecido.
Porém, para tais movimentos, os países europeus se encontram com déficits altíssimos e sem um mercado ávido por seus títulos públicos, que poderiam financiar tais manobras indutoras. Na verdade, o cenário é de temor para quase todos os papéis relacionados às dividas destes países.
Na França, mesmo que o novo presidente se esforce para alterar o ritmo da política econômica empreendida por Sarkozy, vê-se forçado a seguir a cartilha ortodoxa imposta por Merkel e o controle do Banco Central Europeu, fazendo assim anúncios de novos cortes de custeio da máquina pública e suspensão de investimentos, além de claro, propor um novo aumento de impostos, agora sobre grandes fortunas e que já traz reflexos negativos ao governo. Alguns bilionários franceses já estão buscando refúgio em países como Suíça e Bélgica.
Na Grécia, que por muitos está dada com carta fora do baralho europeu, pode ressurgir com um "esqueleto" financeiro. As medidas propostas ainda não surtiram o efeito desejado e nem planejado, tendo demanda para novas injeções de bilhões de euros, que deverão ocorrer ainda ao longo deste ano.
Os bancos alemães sentiram o golpe, mas o governo de Berlin ainda não deixou que o mercado sentisse de forma direta seus anseios. Isso é positivo, pois caso fique comprovado a exposição dos bancos alemães que tradicionalmente estão ligados a um perfil tradicionalista, as fragilidades econômicas mundiais podem se agravar.
A Itália vem cambaleando desde o início da crise, tentando cortar custos, e a Espanha mostra-se totalmente combalida frente as suas instituições bancárias com baixa liquidez.
Na terra da Rainha, o primeiro ministro David Cameron esforça-se para não se submeter às lições alemãs, mas comprova que também deverão corrigir o curso orçamentário, apertando ainda mais o cinto frente às novas dificuldades, e o que é pior, frente a um cenário que ainda não registra perspectivas de melhoras. Não há um horizonte positivo.
As expectativas frente à Europa ainda estão ruins, e outras variáveis que poderiam ajudar na retomada do crescimento, como a melhora nas economias de China e EUA, também estão enfraquecidas e com severos problemas internos para resolver.
Não podemos esquecer que nos EUA temos um cenário eleitoral bastante ajustado, com pesquisas ainda indicando uma vitória apertada de Obama, mas que coloca o presidente frente a uma posição complicada para se tomar qualquer decisão que possa trazer prejuízo eleitoral, mesmo que se garantam benefícios econômicos ao país e que tal externalidade positiva se alastre ao resto do mundo.
As medidas de austeridades aclamadas por todos os governos europeus podem trazer resultados importantes para a economia destes países, mas assim como no Brasil, algumas reformas necessitam ser adiantadas, e muitas abalarão o estilo paternalista social que se instalou por décadas naquela região.
O corte reto e direto de gastos inibe a atividade econômica, carecendo de avaliar as vocações (industriais, tecnologia, comércio, logísticas e etc) de cada país, as especificidades culturais e até mesmo a formação econômica ali conjecturada, para ai sim, conseguir integrar um plano de corte de despesas eficiente e induzir um processo de retomada econômica.
Um corte orçamentário generalista para todos os países pertencentes à União Europeia, sem recortes, tende a igualar os diferentes. E isso, na economia, tem seu preço.
