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Eduardo Moreira: distribuição é a única solução para a pobreza

Economista, engenheiro e escritor, Eduardo Moreira desmascara o sistema dos bancos no Brasil: "o que eles fazem é uma sacanagem"; porque descobriram, explica, que é muito mais fácil "ganhar dinheiro em cima dos outros"; em entrevista à TV 247, ele desmonta a tese neoliberal de que deve se buscar o lucro e o resto se resolve sozinho; é preciso "distribuir riqueza", ressalta, lembrando que, "no Brasil, só 13% da renda gerada vai para os 50% mais pobres"; sobre política, avalia que "o grande erro do PT foi não ter sido esquerda suficiente" e que a dupla Bolsonaro e Guedes "não tinha como dar certo"; assista

Eduardo Moreira: distribuição é a única solução para a pobreza (Foto: Editora 247)

247 - Economista, engenheiro, professor, autor de vários livros - o mais recente na lista dos mais vendidos: "O que os donos do poder não querem que você saiba" - e, mais recentemente, Youtuber, Eduardo Moreira tem dedicado seu tempo e seu trabalho a educar financeiramente as pessoas para que entendam, segundo ele, "as sacanagens" feitas pelos bancos. "Porque o que os bancos fazem é uma sacanagem, não tem outra palavra", resume, em uma longa entrevista concedida à TV 247 (assista abaixo).

Com uma origem "super conservadora e capitalista", como ele próprio define, Eduardo trabalhou no mercado financeiro durante 20 anos e, portanto, foi "programado mentalmente" para acreditar na eficiência do mercado e na tese de que o lucro é "aquilo que deve ser buscado a todo custo e o resto se resolve". Mas alguns episódios na vida o deixaram com um raciocínio "mais progressista e até de esquerda mesmo", conta. Um deles foi significativo: ter feito um trabalho em comunidades do Rio de Janeiro durante dois anos, como estudante de engenharia na PUC, quando teve contato direto com comunidades sem saneamento básico e com casas sob risco de desabamento.

Eduardo relata que, uma vez no mercado financeiro e observador de tudo o que acontecia de ruim com os clientes que se endividavam e se tornavam "escravos econômicos", tentou "mudar o sistema de dentro", mas concluiu que isso é "absolutamente impossível". Porque no Brasil, explica, descobriram que é muito mais fácil se "ganhar dinheiro em cima dos outros". Segundo ele, há dois caminhos possíveis para ficar rico: a partir da riqueza gerada ou tirando das pessoas da sociedade. "O que é louco, porque você enfraquece o grupo, e começa a enfraquecer o conceito de nação", avalia.

"O que é bom para você como investimento é ruim para o banco. E que é ruim para você é bom para o banco. Então o banco, para ganhar dinheiro, tem que te vender o que é ruim. Portanto, dá para mudar o sistema por dentro? Não dá. Só dá para ensinar as pessoas, e é o que eu estou fazendo", critica.

Na entrevista, ele desmonta a tese dos liberais de que a desigualdade não é um problema desde que se 'suba a maré', ou seja, desde que a renda seja elevada para todos. No período das eleições em 2018, esse discurso foi bastante repercutido pelo então candidato à Presidência João Amoêdo, do Partido Novo, banqueiro que detém um patrimônio de R$ 425 milhões.

Bem didático, Eduardo Moreira compara a distribuição da riqueza com um parquinho de areia: para se fazer montes de areia num ponto, é preciso fazer buracos em outros. "Porque a areia do parque é a mesma. Vamos supor que a gente só queira tapar buraco gerando riqueza nova. O mundo teria que crescer 175 vezes, o que significa 17.500%, número suficiente para que os mais pobres consigam ganhar 5 dólares por dia, que é o nível mínimo. Só que se o mundo crescer dessa forma, acabam-se os recursos naturais. Então não tem solução, é distribuir riqueza", ressalta.

Um agravante ainda é que o Brasil, "país mais desigual do mundo", cresce concentrando a riqueza nos mais ricos, por isso, segundo ele, "não há solução para as pessoas mais pobres e de classe média". "No Brasil só 13% da renda gerada vai para os 50% mais pobres", alerta. Para isso, ele propõe soluções como a reformulação do sistema tributário, entre outras medidas. "Os ricos vivem num paraíso fiscal" no Brasil, afirma Eduardo Moreira.

Outra reflexão feita por ele é a de que a corrupção não é o principal problema do País, como gostam de sugerir a mídia e muitos políticos. "Todo mundo é contra a corrupção, mas o maior problema do Brasil não é nem de perto a corrupção", destaca, mais uma vez levando as atenções para a desigualdade social.

Ele pondera que "o endividamento, até certo nível, é saudável". "Porque naturalmente algumas pessoas vão gerar mais riqueza do que outras, e se parte dessa riqueza que está parada nas mãos de alguns for para as mãos de alguém que tem capacidade de usar esse negócio para gerar mais riqueza do que tem que pagar de juros para esse cara, você está conseguindo que mais riqueza seja gerada. Mas não é isso que a gente tem no Brasil. Temos um endividamento absolutamente cruel, que para a nossa máquina, porque o que você paga de juros é muito maior do que a riqueza que você pode gerar, gerando um escravo econômico".

Política

O economista analisa o governo Lula: "o grande erro do PT foi não ter sido esquerda suficiente. Quando foi distribuir os montinhos de areia, foi direita". Para ele, "o grande erro do Lula foi derrubar apenas o 'monte de areia' do Estado para distribuir para os mais pobres. Ele não mexeu nos 'montes de areia' dos Gerdau, dos Setúbal. E aí não tem como, porque a riqueza é finita, é matemático".

Eduardo critica os planos de privatização do atual governo, especialmente da Caixa Econômica Federal, e diz que a dupla [Jair] Bolsonaro e [o ministro da economista Paulo] Guedes "não tinha como dar certo". "O Paulo Guedes é um cara que odeia o Estado, acredita 100% no lucro, tem ódio de servidor público... então se você for fazer a conta de tudo aquilo que ele odeia, vai sair quem? O Bolsonaro, que é servidor público a vida inteira. Quem pariu Jair Bolsonaro? O Estado brasileiro. Então ele é a representação perfeita do que Paulo Guedes odeia, tem ojeriza. Um cara é empregado de quem tem ojeriza e ainda tem um monte de bilhão a mais do que ele. É uma equação que não tem como dar certo, zero de chance", analisa.

O atual governo, diz ainda, colocou os banqueiros no poder e disse que "eles são a solução para resolver o seu problema". "Como os banqueiros vão tapar os buracos de areia das outras pessoas? Não tem a menor chance", rebate, indignado. "Não vamos subestimar o baixo nível das pessoas que estão no governo, elas são isso mesmo, absolutamente esdrúxulas, como estamos vendo", completa.

Inscreva-se na TV 247 e assista à entrevista: