Eike, a maldição do diabo loiro!

Eike Batista, Anhaneikê: Tudo que não é sólido desmancha no ar!

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Quem acompanha meus artigos aqui no Brasil 247, O Rei Midas Está Nu! e A Questão do X (leia aqui: http://brasil247.com/pt/247/economia/1571/Eike-o-rei-Midas-est%C3%A1-nu.htm; http://brasil247.com/pt/247/rio247/38788/A-quest%C3%A3o-do-X.htm), abordando criticamente as fragilidades dos projetos do empresário Eike Batista, não estranhou a queda brutal das ações das empresas do megaespeculador. O Grupo EBX, em uma semana, despencou na bolsa 40,5%, o valor de R$ 45,81 bilhões passou a R$ 37, 42 bilhões. O artista sumiu da mídia. Nada a declarar. É questão de tempo, o mercado cria e derruba seus mitos.

Mineração é atividade séria e de risco

A indústria de mineração, como a do petróleo, nada mais é que uma economia extrativista, etapa pré-capitalista, o aproveitamento de acumulação primitiva do capital. O lucro pode ser grande devido ao risco ser igual o prejuízo e de sentido contrário ou maior, com as consequências. Gasta para nada! Pior que no jogo, quando conta com a sorte, o sonhador pode ganhar, na mineração há casos de lucros e alguns locais sem nenhuma chance, com perda total, pois jamais poderia achar o que a natureza não guardou. No garimpo empata a conta de lucros e perdas, com um número ínfimo de ganhadores e elevadíssimo custo ambiental. Na indústria mineral organizada, as estatísticas de sucesso são de duas minas para cem indícios de minerais interessantes e há muitos empreendimentos lucrativos. O seguimento do petróleo é um negócio complicado demais. O grupo das “Sete Irmãs”, os trustes consagrados por Monteiro Lobato, dominou as reservas mundiais e foi ampliado pelas empresas estatais da Rússia, Venezuela, Bolívia, Argentina e a nossa Petrobras. Um clube fechado em que não cabe o Diabo Loiro para dominar o Diabo Negro.

Vista de um lado, a mineração é o dinheiro pronto, no caso do metal amarelo, o ouro é o demiurgo, o próprio capital e no caso do petróleo, o óleo é o ouro negro, o deus negro. Vista de outro lado, é o blefe, perda absoluta. As guerras de conquista são sustentadas ou voltadas para esse tipo de capital, onde há muito minério, há conflitos e as jazidas não têm fronteiras geográficas. É aventureiro ou ingênuo o empresário, sem tradição e equipe técnica, que entra no ramo da mineração, quando não conta sequer com as forças de Sansão. Cabeça brilhante, iluminada pelo seu símbolo do sol, mas mascarada pela peruca, atua em qualquer negócio, como se fosse um coringa. Percorre do batom ao X-tudo das refeições, passando pela hotelaria, show business, marinas, barcos, minérios, ferrovias, navios, portos, siderurgia, energia e até o vale-tudo do UFC. Na contra mão do capitalismo quer voltar ao fordismo verticalizando a indústria. Vai tirar petróleo? Antes instala fábrica de navios, plataformas, sondas e portos para escoar a produção e neles exportar minério que “fabricará” Então, aproveita o Porto Açu, para montar siderurgia, que gera escória para fazer uma fábrica de cimento; além disso, com o aço, faz fábrica de carros e de tubos para transportar o petróleo. Parece projeto de inventor do moto-contínuo. Uma equação industrial que não se fecha, com tantos X Da Questão, nem com a geração de energia solar, eólica, térmica a gás e carvão importado. 

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Chegou o momento de mostrar produção. É muita ousadia um neófito querer dominar o mercado sujo de óleo e de sangue, baseado apenas nas informações oriundas da Petrobras. Eike Batista contratou um punhado de técnicos, a soldo de ouro, que detinham informações estratégicas da empresa, que saíram sem respeitar a quarentena levando na memória os mapas, perfis geológicos e de sísmica. O desrespeito por geólogos é tal, uma vez que não faz pesquisa mineral, que Eike Batista afirmou na Revista Exame: “os geólogos são sonhadores, o único que pensa com visão econômica é o Paulo Mendonça”. O mesmo geólogo que demitiu da presidência da OGX, na tentativa de estancar a sangria das suas ações. Trocou o indez, o indutor da galinha de ovos de ouro, o seu Mister Oil, pelo presidente da empresa de navios. Faz sentido se o barco está afundando!

 

A Questão do X

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Eike Batista, no seu best-seller O X Da Questão (Editora Sextante: 2011), escrito pelo Jornalista Roberto D´Avila (livro que eu já critiquei), conta que abandonou os estudos e assumiu a venda de enciclopédia e seguro de vida “de porta em porta” em Aachen, a cidadezinha de Carlos Magno, na Alemanha. Em seguida, começou a intermediar contrabando de diamantes de garimpeiros de Diamantina – MG para logo depois tomar um empréstimo de 500 mil dólares, não contabilizados, capital que o principiou no contrabando de ouro na região do Tapajós no Pará. Ganhou dinheiro, mas levou um cano e fez novo empréstimo de igual forma e valor. Diz no livro que ganhou 6 milhões de dólares no “comércio” de ouro. Tentou organizar o garimpo, viu que era melhor requerer pesquisas e vender as áreas. Rei do diamante, do ouro, do ferro e agora do ouro negro. Esquece-se da praga de índio e do Manifesto que diz: tudo que é sólido desmancha no ar! Imagine o que não é sólido! Faltou-lhe quem lesse na cabeceira ao menos O Poço do Visconde de Lobato e mais tarde O Capital de Marx. Dinheiro não cai do céu. O trabalho é que faz o capital, que gera mais capital, sem pagar a mais-valia ao trabalhador.

            Mas, o folclore de empreendedor bem sucedido, bom pagador e empresário de palavra é balela. Há um rastro de praga em sua trilha coberta de nuvem negra que faz subitamente o negócio gorar.

 

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 A lenda do Diabo Loiro.

            A sorte de Eike é a sua sina advinda da maldição de índio, que provoca a autofagia do capital, visto que falta a pedra Muiraquitã ao novo Macunaíma.

Uma cortina de fumaça. Praga de Xamã na lenda do Eldorado sobre o comprador de ouro, que corre “de boca em boca” nos garimpos abandonados, nas minas goradas e na Amazônia contaminada pelo mercúrio, nas barrancas do Rio Tapajós, em Itaituba, no Pará. O Mito teria o corpo fechado. Inclusive já levou um tiro pelas costas, por causa de um acerto de contas, e saiu ileso.

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 Em pleno garimpo, o comprador de ouro, prevenia a maleita mascando dente de alho e engolindo uma talagada de cachaça. Com isso, sua figura exalava um “bafo de onça” mais forte que o enxofre de satanás e era envolvida por uma aura de fumaça branca. Este revolucionário método de erradicação da malária baseado no uso tópico de álcool e alho está descrito no manual de autoajuda O X Da Questão, página 79, e quiçá possa render ao autor da brochura o Prêmio Nobel da Medicina. No garimpo, com a chegada de Eike Batista, caso não tenha sido eliminado o impaludismo, houve incremento do consumo de bebida e avanço da prostituição, com a elevação da moral e da recuperação do ouro fino. O milagre foi líquido e volátil. Na bateia ou “na cobra fumando” – um concentrador rudimentar de ouro, com um caixote seguido de uma calha riflada forrada com um pano grosso felpudo – era adicionado o “miraculoso” mercúrio metálico.

O líquido prateado, “em um passe de mágica” ou por “feitiçaria”, agrega o ouro em forma de liga, com facilidade na recuperação e faz a purificação celestial. Uma vez concentrado pela “queima ao ar livre”, volta o ouro metálico no pião da bateia (um crime ambiental, pois a queima – destilação – deve ser feita em retortas). Sublimação! Ato que aos humanos é considerado como inatingível, como sair do corpo sólido e transmutar no espírito invisível em estado de Jinas na quarta dimensão.

Todo Xamã, qual alquimista, almeja a transmutação. Impossível imaginar o sucesso do jovem loiro de olhos azuis entre os nativos. Porém, o cacique dos garimpos comprou uma briga com os curandeiros, pais-de-santo e os pajés. Em plena selva, nas áreas devastadas, a corrida do ouro foi tal que havia uma nuvem de fumaça branca provocada pela queima do azougue.

A fama correu entre as tribos desmoralizando os feiticeiros, com a fumaça sem explicação, por isso os pajés reunidos “rogaram a praga de índio”. Tiro e queda, na lenda da maldição e no pacto com o diabo. É uma estória que tem semelhança com a fábula do Anhanguera, o Diabo Velho, o Bartolomeu Bueno da Silva. Este Bandeirante, para pegar o ouro dos índios, ateou fogo na cachaça colocada na sua cuia, e com isso ameaçou botar fogo nas águas dos rios. Falta conferir o ouro que nossos índios não conheciam e o parentesco deste Silva, paulista de Santana de Parnaíba - SP, com o mineiro de Valadares, cujo pai é Eliezer Batista da Silva, da cidade de Nova Era - MG, para aumentar a coincidência da feitiçaria. O X do sucesso está na etimologia do Silva. Então, para piorar a desgraça, a proteção familiar estava na raiz do nome Silva, que o progenitor já havia renegado e retirado do nome comercial, tout court, Eliezer Batista. Envergonhado com sobrenome tão popular, não o colocou no filho, Eike Fuhrken Batista, que nasceu para brilhar, pois consta no prefácio do livro (p.10): “estava escrito havia 40.000 anos que Eike seria um entrepreneur puro-sangue”. O resultado não foi bom para o Silva, sem o Silva. O oráculo não sabe como ajustar o horóscopo, a numerologia 63 e na onomástica o X da questão, que é o Silva, pois vem do latim silva, selva e vai dar no nosso silvícola do reino do Curupira e do Xamã.

O rei do garimpo era um jovem de cabelo loiro. A cabeleira deu o apelido que virou a lenda do Diabo Loiro, Anhaneikê, (incorporou o diabo, do tupi-guarani: eikê, embarcou, entrou ou incorporou; e, anhan, diabo, capeta, belzebu). O cheiro forte que o Diabo Loiro exalava ajudou a construir a lenda do “homem de ouro” que tomava cachaça com alho, para espantar o mosquito vetor da febre terçã, trocada pela febre do ouro.

Anhaneikê queria todo o ouro da região, a qualquer custo. Por isso seus garimpeiros abusavam do azougue. Ora, aos olhos de um leigo, era impossível perceber uma qualidade física de passar do estado sólido para o gasoso, com odor de acetileno, álcool ordinário, fumaça e uma perfeita feitiçaria. Virou lenda do homem que transforma o ouro em pasta e faz voltar com a fumaça. O metal líquido prateado se junta ao ouro amarelo sólido e forma uma massa semissólida esbranquiçada.

Na cuia de aço – bateia – o amalgama queimado ao ar livre tem como sobra o ouro esponjoso, subindo a fumaça branca para o céu. Nada mais que o mercúrio sublimado, que volta ao solo e vai sendo atacado por ácidos e causa o mal de minamata.

Vai explicar isto ao nativo. É coisa do diabo!

 

Praga de índio

O Pajé, com medo de perder o lugar para o jovem feiticeiro, “Diabo Loiro”, fez o jogo do fogo contra fogo. No Garimpo Rosa de Maio e no do Abacaxi, no Pará, qual o Curupira, saiu corrido, dando no pé, virado ao contrário, deixando a planta da “mineração” abandonada no mato. As pessoas supersticiosas juram de pés juntos que toda dinheirama perdida é a praga de índio, pior do que a jogada por padre ou  rapariga.

O Rei Midas, para piorar a situação, consta que, certa vez, colocou na cabeça o cocar de índio, pois “dá azar” a quem não é coroado por natureza.  Caso folclórico na boca pequena, que espalha por ai: “Eike Batista recebeu praga de índio, por isso, os portos com nome indígena micam”. Faz sentido: em Santa Catarina, Biguaçu, pássaro grande; em São Paulo, Peruíbe, rio de tubarão; e, no Rio de Janeiro, o porto Açu, grande igual aos problemas. Já no pré-sal, batizou o campo petrolífero de Waimea, ondas gigantes, mas não adiantou mais mudar o nome para Tubarão Azul, pois não acaba com a praga. Em terra, no Maranhão, o gás que vendeu como “meia Bolívia”, não deu para o cheiro. O céu não está azul e o tubarão pode virar um lambari, pois nada serviu meditar em Machu Picchu, uma vez que o espírito inca não pode desfazer a praga de seus irmãos. Foi em vão adotar a logomarca do sol inca, pois o feitiço dura enquanto houver mercúrio poluindo o Tapajós. Vale tanto na terra como no mar e no ar a ira de Plutão, Netuno e Éolo, com a interferência do Mercúrio.

A previsão de Eike Batista produzir muito petróleo em alto mar no Campo de Waimea, 60 mil barris/dia, levou a OGX da holding EBX a comprar um navio plataforma, com 270 metros de comprimento e capacidade de estocar 900.000 barris de óleo, por 650 milhões de dólares. A embarcação ficou tempo exposta no cais do Rio de Janeiro, cheia de faixas prenunciando o novo X-eike do petróleo. Maravilha! Mal passou no teste de segurança do trabalho! Porém, com a produção diária que foi anunciada, com estardalhaço até nos segundos, o poço OGX-26HP: em 31 de janeiro de 2012, às 18 h 39 m e 50 s, começou tirando 20 mil barris/barris, com estimava de 40 a 50 mil no segundo semestre de 2012, mas logo caiu para  5 mil barris ou 795 toneladas/ dia. Não é pouco, mas nesse ritmo não paga as despesas e vai ter de esperar 200 dias para encher os porões do navio, com 63 pessoas a bordo. É um legitimo caso de mandar o acionista ficar a ver navio. Será econômico isso? Não é, para piorar, a ganância igual ao caso do vazamento da Chevron? Devido ao aumento de pressão imposta, fez surgir rachaduras no fundo do mar. Vai dar bode. É a lei fundamental do capitalismo: o lucro ou risco do prejuízo cabe aos acionistas particulares. Não, não e não, há muito dinheiro público e de fundos de pensão em jogo. É preciso urgente explicação das Empresas X, Bancos, Bovespa, autoridades oficiais e recolher o livro O X da Questão que ensina a Visão de 360°.

Para os céticos, como eu, não é por causa da “praga de índio” que o porto dá errado, o ouro não aparece, o ferro rico não existe, o gás fabuloso não surge e o petróleo abundante não sai. É tudo falta de estudo geológico. Contudo, não custa esperar, quem sabe, salvo minha alma na defesa dos geólogos e do espírito do capitalismo, com o Eike Batista, cacique das lavras, portos e conexos lavando a alma dele com pré-sal grosso, para tirar a urucubaca.

*jornalista e geólogo

 

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