Em editorial, Globo critica capitalismo entre amigos

Jornal recomenda que o governo se mantenha longe da operação que pode entregar o comando da empreiteira ao empresário Joesley Batista

Em editorial, Globo critica capitalismo entre amigos
Em editorial, Globo critica capitalismo entre amigos (Foto: Divulgação)

247 –

Dono da empresa que mais cresceu no governo Lula, o empresário Joesley Batista, do grupo JBS Friboi, está a um passo de se tornar controlador também da Delta. Mas, em editorial, o jornal O Globo recomenda que o governo federal fique longe da operação. Leia:

Delta e o capitalismo entre amigos

Atingida pelo escândalo da descoberta do esquema mafioso de Carlinhos Cachoeira, a empreiteira Delta, campeã de obras no PAC, entrou em rota para o colapso. Sem crédito nos bancos, a empresa começou a repassar contratos — o de participação na reforma do Maracanã foi um deles —, e tornou-se questão de tempo a falência. Sem credibilidade junto a bancos e governos não há empreiteira que resista. A surpreendente decisão do grupo J&S de comprar a construtora poderia ser motivo de alívio, por salvar empregos. Mas gerou problemas para o governo federal, ao levantar suspeitas de envolvimento político em um negócio que teria sido desenhado, acusa-se, para salvar o dono da empreiteira, Fernando Cavendish.


Fosse uma decisão empresarial de mercado, não haveria qualquer desdobramento no mundo político, como aconteceu. Os indícios de envolvimento oficial existem: a holding J&S, além de ter crescido sob o impulso do BNDES, na política de criação de "campeões nacionais", tem como principal ativo o frigorífico JBS, do qual o banco estatal detém 31,4%.

O BNDES garante não ter qualquer participação na iniciativa do J&S de absorver a Delta e ainda aceitar administrar a empresa antes de qualquer auditoria interna — raridade no mundo dos negócios. O Palácio, por sua vez, em nota, tachou de "falsas as ilações de que a referida operação teve aval deste governo". Garantiu não interferir em operações privadas. Lembrou, ainda, que a Controladoria-Geral da União (CGU) audita os contratos da Delta e pode declará-la inidônia para fazer negócios com o poder público.

Consta que a presidente Dilma estaria contra a interferência oficial no imbróglio, e ontem foi incentivada pelo senador Pedro Simon (PMDB-RS) a manter o Estado ao largo: "É vigarice pura". Pode ser ou não. Mas tudo indica ser a posição mais sensata para o governo.

A operação se candidata a ser exemplo de distorções causadas toda vez que o Estado resolve interferir no mercado privado a fim de induzir o crescimento de empresários escolhidos para serem os tais "campeões nacionais". No setor de frigoríficos, agora em destaque devido à polêmica em torno da Delta, o BNDES já empatou — e perdeu — dinheiro público.

Nos últimos 30 anos fortaleceu-se no Brasil, ao lado do grande aparato financeiro estatal, um forte braço sindical envolvido em bilionários investimentos, os fundos de pensão de estatais. Previ, Petros e outros atuam no alto mundo dos negócios, algumas vezes juntos com o BNDES. A escolha dos investimentos não é transparente, até porque os fundos, por lei, são entidades privadas. E o BNDES, por sua vez, não se notabiliza por ser translúcido. Se todo este cenário for analisado de um plano mais elevado, constata-se que há no Brasil instrumentos para a prática daquilo que os americanos chamam de "crony capitalism", capitalismo entre amigos ou, mais adequado para o Brasil, "capitalismo de companheiros".

O Ministério Público Federal do Rio deseja barrar o negócio, porque há evidências de fraudes cometidas pela Delta no relacionamento com Cachoeira. O mesmo pedido é feito pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) à Procuradoria-Geral da República. Falta mesmo projetar luz sobre toda esta história.

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