Em meio a estagnação econômica, rentabilidade dos bancos é a maior desde 2012

BC indicou que a rentabilidade dos bancos seguiu crescendo no primeiro semestre deste ano. Retorno sobre o Patrimônio Líquido do sistema bancário alcançou 15,8% em junho de 2019, no nível mais alto desde março de 2012 (15,9%)

Marcela Ayres, Reuters - O Banco Central indicou nesta quinta-feira que a rentabilidade dos bancos seguiu crescendo no primeiro semestre deste ano, com destaque para indicadores recordes entre instituições privadas, contrariando expectativa da autoridade monetária sobre estabilização deste movimento, conforme Relatório de Estabilidade Financeira (REF).

Segundo o documento, o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) do sistema bancário alcançou 15,8% em junho de 2019, elevação de 1,1 ponto em relação a dezembro de 2018, e no nível mais alto desde março de 2012 (15,9%).

Olhando apenas para os bancos privados, o ROE alcançou 16,5% ao fim do primeiro semestre, ante 15,6% em dezembro, e no maior patamar da série disponibilizada pelo BC, com início em dezembro de 2011.

Já entre as instituições públicas, a rentabilidade subiu a 14,3% em junho, ante 12,8% no fim do ano passado.

A título de comparação, o retorno sobre o patrimônio líquido dos bancos brasileiros ganha do observado, por exemplo, na Turquia (14,2%), China (13,2%), Rússia (11,1%) e Estados Unidos (3,5%). Mas perde da rentabilidade dos bancos na Argentina (55,8%) e no México (20,9%), conforme dados disponibilizados pelo BC em coletiva de imprensa.

De acordo com o BC, a melhora no primeiro semestre veio pela recuperação gradual no crescimento da carteira de crédito em mix mais rentável e pelo aumento na eficiência operacional dos bancos públicos. Também foi impactada pela retomada gradual do crescimento da carteira de crédito, com maior participação do crédito às famílias e às pequenas e médias empresas.

Olhando à frente, o BC destacou que há “leve arrefecimento” dessa tendência, em função do “esgotamento da redução das despesas de provisão e da expectativa de retração dos ganhos de eficiência operacional”.

No REF anterior, o BC havia dito que a expectativa para este ano era de que a alta do indicador não fosse mais verificada após os bancos terem cortado gordura em custos e diminuído despesas de provisão.

O diretor de Fiscalização do BC, Paulo Souza, pontuou que a estabilização de fato está acontecendo na análise comparativa anual.

“Até 2018, você tinha um ganho a ser realizado em função da redução da taxa de juros. A partir de agora, ou os bancos migram para aumento de volume ou eles alteram o mix das suas operações, ou a tendência é que o resultado que foi observado em 2018 você não vai ter grandes variações para os próximos períodos”, disse.

Questionado se os bancos ainda não poderiam ganhar caso decidissem não repassar a queda no custo de captação com a recente diminuição da Selic, Souza ponderou que a diferença daqui para frente nessa frente não será vultosa como no passado.

“Não tem grandes espaços (para ganhos) em custos de captação”, disse.

Em julho, o BC iniciou o ciclo de afrouxamento monetário e, de lá para cá, reduziu os juros básicos em 1 ponto percentual, à mínima histórica de 5,5%, indicando espaço para novos cortes adiante.

Souza lembrou que a queda da Selic foi muito mais expressiva em anos recentes. A Selic começou 2017 em 13,75% e abriu 2018 em 7%.

Em relação à economia, o BC afirmou no relatório que o ritmo de recuperação da atividade permaneceu gradual.

“Nesse cenário econômico pouco aquecido, o financiamento doméstico amplo às empresas não financeiras avançou em ritmo semelhante ao do semestre anterior. O recuo no crédito bancário foi compensado pelo expressivo aumento do financiamento via mercado de capitais”, disse.

“O crédito às famílias, por sua vez, foi pouco afetado pelo desempenho da economia e manteve a tendência de aceleração apresentada nos semestres anteriores”, completou.

Segundo o BC, a dívida bruta do governo e o cenário de riscos não sofreu alterações e o persistente aumento dos ativos problemáticos na carteira das grandes empresas continuam sendo os principais pontos de atenção.

“O mercado reduziu sua preocupação com os riscos político-fiscais – embora ainda os considere a maior fonte de vulnerabilidade para a estabilidade financeira –, mas aumentou a apreensão com o cenário externo. As instituições permanecem confiantes na capacidade de o sistema financeiro absorver choques adversos”, frisou o BC.

Tanto a solvência do sistema bancário quanto o nível de provisões e a liquidez das instituições seguem em níveis confortáveis e o BC indicou que, mesmo com a retomada do crédito, a perspectiva é de manutenção da solidez dos índices de capital.

AUMENTO NO RISCO EM CRÉDITO ÀS FAMÍLIAS

No relatório, o BC também destacou que houve “leve” elevação dos ativos problemáticos no crédito às famílias, que têm crescido no ritmo mais elevado desde o final de 2015.

Na avaliação da autoridade monetária, isso não representa um risco pelo fato de esses ativos estarem perto dos patamares mínimos em termos históricos.

“A análise por safra demonstra tendência de aumento de risco apenas para a modalidade crédito pessoal não consignado”, apontou o documento.

Para o BC, o crédito às pessoas físicas seguirá crescendo, “com nível de risco pouco acima do atual”, já que a estratégia dos bancos é de avanço em modalidades mais rentáveis e arriscadas. Mas o relatório ponderou que, se não houver retomada econômica efetiva, essa estratégia das instituições pode mudar.

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