Exportações do Brasil para EUA atingem mínima histórica e tarifaço de Trump amplia incertezas, diz Miriam Leitão
Participação americana nas vendas externas brasileiras cai para 9,3%, menor nível em 30 anos
247 - As exportações brasileiras para os Estados Unidos atingiram o menor patamar dos últimos 30 anos, em mais um sinal dos impactos provocados pela política tarifária adotada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A participação do mercado americano nas vendas externas do Brasil recuou para apenas 9,3% do total exportado.
A avaliação foi feita pela jornalista Miriam Leitão, em artigo publicado em O Globo, com base em levantamento do Valor Econômico. Segundo os dados apresentados, a queda se intensificou após a imposição das tarifas americanas e ocorre em meio à ameaça de novas medidas protecionistas previstas para os próximos meses.
Os números mostram uma mudança significativa na relação comercial entre os dois países. Entre agosto de 2025 e maio de 2026, os Estados Unidos responderam por apenas 9,3% das exportações brasileiras. Antes da adoção do tarifaço, a participação era de 12,4%.
Participação dos EUA despenca nas exportações brasileiras
O contraste com o início dos anos 2000 é expressivo. Em 2002, os Estados Unidos absorviam 26% de tudo o que o Brasil exportava, o maior percentual registrado na série histórica. Na prática, de cada US$ 100 vendidos pelo país ao exterior, US$ 26 tinham como destino o mercado americano.
Ao analisar a trajetória dessa redução, Miriam Leitão destaca que existe um componente estrutural anterior às tarifas. Ao longo das últimas décadas, a pauta exportadora brasileira passou a ser cada vez mais direcionada à China, especialmente por meio da venda de commodities.
Apesar dessa mudança gradual, a jornalista observa que a queda recente ocorreu de forma acelerada. O recuo de 12,4% para 9,3% em um curto intervalo de tempo evidencia, segundo a análise, o impacto direto das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Tarifas de até 50% agravam cenário comercial
Um dos principais fatores para a retração das exportações é a aplicação de tarifas que chegaram a 50% sobre produtos brasileiros. A medida atingiu setores importantes da pauta exportadora e reduziu a competitividade dos bens nacionais no mercado americano.
O cenário pode se tornar ainda mais desafiador. Há expectativa de uma nova rodada de tarifas em julho, o que amplia a preocupação entre empresários e integrantes do governo brasileiro envolvidos nas negociações comerciais.
Segundo a análise de Miriam Leitão, a contestação judicial das futuras medidas tende a ser mais difícil. Diferentemente das primeiras tarifas, questionadas com base no uso de instrumentos ligados à alegação de emergência econômica, as novas medidas estariam sendo fundamentadas em legislação comercial tradicional dos Estados Unidos.
Brasil enfrenta dificuldades para negociar com Washington
Outro ponto destacado é a dificuldade do Brasil em estabelecer um diálogo produtivo com as autoridades americanas. Apesar dos esforços diplomáticos realizados nos últimos meses, não há sinais concretos de disposição dos Estados Unidos para rever sua posição.
O governo brasileiro tem mobilizado representantes do setor produtivo, integrantes da administração federal e comissões de alto nível para apresentar argumentos contrários às tarifas. Até o momento, porém, essas iniciativas não produziram resultados significativos.
A próxima etapa da disputa ocorrerá em 6 de julho, quando o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos realizará uma audiência pública para discutir as medidas comerciais. Ainda assim, as expectativas de mudança permanecem reduzidas entre os negociadores brasileiros.
Déficit comercial reforça argumentos brasileiros
Entre os principais argumentos apresentados pelo Brasil está o histórico déficit comercial nas relações com os Estados Unidos. O governo brasileiro sustenta que as medidas protecionistas não encontram justificativa diante dos números da balança comercial bilateral.
Durante entrevista à GloboNews citada por Miriam Leitão, o embaixador Maurício Lyrio chamou atenção para esse aspecto ao afirmar que o déficit acumulado brasileiro com os Estados Unidos alcança cerca de US$ 400 bilhões.
Além da questão comercial, negociadores brasileiros também contestam críticas americanas relacionadas ao desmatamento e ao sistema de pagamentos Pix. Segundo a avaliação apresentada na análise, esses temas vêm sendo utilizados pelos Estados Unidos como justificativa para ampliar a pressão sobre o Brasil, apesar dos argumentos contrários apresentados pelo governo brasileiro.
