Fantástica fábrica cultural

Pedro Herz apostou em um negcio que, por muitos anos, era chamado de sem fins lucrativos. Sua Livraria Cultura provou o contrrio e tornou-se cone e ponto turstico de So Paulo

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Por Márcio Kroehn_247 - Um passeio pela avenida Paulista, o coração da cidade de São Paulo, começa (ou termina) no Conjunto Nacional. Mais especificamente dentro da Livraria Cultura. O espaço de mais de 4,3 mil metros quadrados reúne milhares de títulos impressos em livros ou revistas e gravados em áudio ou vídeo. É um convite para ler, ouvir ou ver ali mesmo. Quem não se sente tentado a aproveitar todas as opções desse mundo da fantasia cultural? Mas não foi sempre assim. O início foi modesto, em um pequeno espaço na rua Augusta que servia de ponto de venda e moradia para a família Herz. A matriarca Eva inventou o negócio com o aluguel das obras de ficção na década de 1930. Nos anos 50, vieram as vendas. O filho Pedro assumiu a gestão em 1969 e encontrou um novo endereço, onde a livraria está até hoje.

Com os anos vieram a expansão. Ocupa o espaço vazio de uma loja aqui, outro ali, até substituir o antigo Cine Astor, em 2001. A predominância da cor madeira e iluminação forte virou referência do Conjunto Nacional. Mas esse ponto turístico da cidade de São Paulo é, principalmente, um negócio. Pedro Herz nunca viu de forma diferente. O seu sucesso contradiz com uma imagem enviesada do senso comum. Para muitos, livraria era sinônimo de hobby. Como ganhar dinheiro com livros em um país que, em média, lê menos de dois exemplares por ano? Ele nunca deu bola e escolheu, sim, fazer a sua fantástica fábrica cultural. Hoje a Livraria Cultura está em mais sete cidades. A oitava será o Rio de Janeiro, no segundo semestre deste ano. As vendas acontecem, também, no universo virtual. Pedro Herz embarcou nas ondas da internet em 1994. CDs e DVDs entraram nas prateleiras com a expansão dos aparelhos multimídia. E desde o lançamento do Galaxy Tab, no final do ano passado, o aplicativo está embarcado para os usuários do tablet da Samsung. Para os que sempre viram a livraria como um negócio físico, Herz escolheu fazer o seu negócio vivo. “O leitor escolhe aonde vai ler e eu satisfaço a vontade dele. Se ele quiser Dom Casmurro em papel grande, pequeno ou quadrinhos ele vai ter”, diz ele. “Eu vendo e continuarei a vender conteúdo, aonde o leitor quiser”, completa.

Apesar dos negócios seguirem as tendências tecnológicas, Pedro Herz tem uma angústia. Será que essas novas mídias farão novos leitores? Ele, que nos anos 90 anotava em um caderninho as dívidas dos intelectuais que frequentavam a livraria, duvida da dedicação dessa nova geração eletrônica à leitura. “Ainda não encontrei uma resposta porque não vi nenhum livro eletrônico best seller ser impresso”, afirma Herz. Uma das saídas por estar, segundo ele, na disputa intensa: no mesmo aparelho há jogos eletrônicos, vídeos, sons e leitura. Em uma recente viagem para visitar uma loja na Bahia, ele aproveitou o voo e xeretou o que as pessoas estavam fazendo com o tempo livre. Havia muitos tablets entre os passageiros, mas ninguém estava com um texto aberto na tela. Alguns viam fotos, outros jogavam. É o fenômeno do repartido. “Leio menos, ouço menos música, o deslocamento para o teatro consome duas horas. A disputa pelo tempo é cada vez maior e estamos dividindo o nosso dia em fatias menores”, diz ele.

Para dividir o próprio tempo, Pedro Herz acorda cedo para colocar em prática a famosa citação latina “mens sana in corpore sano”. Três vezes por semana está nas mãos de um personal trainer às 7 horas. Aos 71 anos, continua circulando pelas suas lojas para conversar com clientes e amigos. O teatro, uma de suas paixões, é obrigatório na agenda – algumas de suas lojas possuem salas batizadas de Eva Herz, uma homenagem à mãe. Outra obrigação é cuidar da Sociedade de Cultura Artística, da qual é presidente. Neste momento, aguarda a autorização da prefeitura para reconstruir o teatro destruído em um incêndio, em 2008. O dinheiro já está no caixa. E, agora, passou a ser presidente do conselho de administração da Livraria Cultura. O dia-a-dia foi entregue para os filhos Sergio e Fabio. “Agora eu mando e cobro”, diz, brincando, o pai. “Mas eu sou um felizardo por ter feito tudo em harmonia”, complementa Pedro. A sucessão do negócio é parte do plano de abrir o capital da empresa na bolsa de valores, que acontecerá em breve. Há dois anos a gestora Neo Investimentos entrou como sócia estratégica. Algum problema para ele? Nenhum. Ou melhor, há um que o incomoda: não saber o nome de todos os funcionários. No final do ano, serão 2 mil vestindo o uniforme da livraria. É o crescimento dessa fantástica fábrica cultural.

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“Best Seller da Cultura Made in Brasil"

Por Ricardo Bellino - Sempre presente em sua loja, mesmo em fins de semana, Pedro Herz transforma clientes em amigos pela arte da conversa. Em vez de se preocupar em criar um network de clientes, ele criou uma verdadeira confraria de amigos. Essa é a grande lição que podemos extrair do perfil desta semana do nosso especial "Best Seller da Cultura Made in Brasil”.

Hoje em dia, virou moda falar da criação de networks, ou redes de relacionamentos. Não faltam livros e cursos que destacam as vantagens que você ganha, do ponto de vista profissional, ao ampliar sua lista de contatos e relações. E, com frequência, essas vantagens se resumem a uma só: conseguir ter acesso a pessoas que, por sua posição ou influência, poderão ajudá-lo de alguma forma a atingir os seus objetivos.

Ocorre que essa é uma visão muito limitada do que é uma rede de relacionamentos, pois transforma as relações humanas em uma mera questão de troca de favores. Isso pode funcionar, mas só até certo ponto. Como, nesse caso, não existem laços verdadeiros entre as pessoas, mas apenas interesses utilitários, assim que uma pessoa deixa de ser “útil”, ela é automaticamente descartada — e esse acaba sendo o destino de quem se preocupa em fazer “contatos” em vez de fazer amigos.

O verdadeiro network é muito mais uma confraria do que uma lista de contatos. Em uma confraria, as pessoas se aproximam umas das outras movidas pelo interesse saudável e natural de fazer amizades, de trocar experiências, de aprender com seus semelhantes. Ao serem devidamente cultivados, esses laços se transformam em uma rede de apoio mútuo, essencial não apenas para nossa vida profissional, mas também para nossa vida pessoal.

O que vale, aqui, não é pensar em quem eu posso “usar”, mas com quem eu posso contar.

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