Favorecida pela Anatel, Vivo condena punição a rivais

Antônio Carlos Valente, presidente do grupo Telefônica no Brasil, diz que a restrição à venda de celulares não foi benéfica a nenhuma empresa

247 – Inexplicavelmente, a Agência Nacional de Telecomunicações puniu três operadoras de telefonia celular, TIM, Claro e Oi, mas preservou a que aparece em segundo lugar no ranking de reclamações do Procon. Favorecida, a Vivo, do grupo Telefônica, argumenta que a punição não faz bem a nenhuma empresa. Leia trechos da entrevista que ele concedeu ao repórter João Varella, da revista Istoé Dinheiro:

DINHEIRO – Qual é sua avaliação sobre as medidas tomadas pela Anatel?

ANTONIO CARLOS VALENTE – A proibição de vendas não é benéfica para ninguém. Independentemente de a Vivo estar fora desse processo, no momento, isso traz muita perturbação. Uma série de atores vai fazer movimentos com pouca informação técnica sobre o assunto. Vemos tudo isso com preocupação. Precisamos de uma discussão madura.

DINHEIRO – O que deveria ser feito para diminuir a enorme quantidade de reclamações contra as operadoras?

VALENTE – Em primeiro lugar, não quero eximir nenhuma empresa de culpa. Evidentemente existem situações bastante específicas de cada companhia e se deve levar em conta as dificuldades que todas as operadoras têm de instalar antenas no Brasil. O serviço móvel usa tecnologia, via rádio. Uma emissora de FM, de 100 MHZ, frequência bem mais baixa do que a que usamos, tem cobertura pior em algumas regiões das cidades. No caso das FMs, você tem um único ponto com a geração de sinal. No caso da internet móvel, a tecnologia é a mesma, mas, como há um tráfego de dados intenso, é necessário colocar diversas estações rádio-base. 

DINHEIRO – O que dificulta a atuação das companhias?

VALENTE – Todas as empresas têm tecnologia e capacidade de investir, mas não conseguem avançar se não houver parceria com os governos municipais. Independentemente de haver novos clientes de telefonia, os usuários existentes estão aumentando o volume de tráfego de dados dia a dia. Mesmo que todas as vendas de novas linhas telefônicas fossem congeladas agora, ainda assim não bastaria. São 260 milhões de usuários que querem e devem ter recursos mais pesados de web. Para fazer frente a isso, não há outra solução: precisamos de mais estações rádio-base.

DINHEIRO – A despeito dessa saturação que o sr. aponta, houve campanhas agressivas para a venda de novas linhas de telefone...

VALENTE – Se um operador tem uma estratégia dissociada entre uso e custo, claro que vai ter muito mais problemas. Você tem de levar sempre em conta que tudo é compartilhado. Quando termino uma ligação, esse mesmo canal vai ser usado no instante seguinte por outra pessoa que deseja começar uma ligação. Essa infraestrutura é finita. 

DINHEIRO – Faltou cautela por parte das operadoras nas estratégias de comercialização?

VALENTE – Essa dissociação entre uso e custo pode parecer benéfica num primeiro momento. Mas, se você observar a experiência internacional, são poucos os lugares onde isso aconteceu sem problemas, justamente pelas características do sistema móvel. Claro que existem outras tecnologias que vão chegar e minimizar um pouco essa questão. Você pode colocar microcélulas dentro de imóveis, hotspots ou o que quer que seja, mas tudo isso tem limite. O mundo inteiro está passando por essa dificuldade. Terá de existir alguma participação do poder público, qualquer que seja a tecnologia adotada. Essa é uma questão que não pode ser perdida de vista. Tudo bem haver um pouco de paixão, mas a discussão é eminentemente técnica e tem de ser levada com maturidade, com todos os atores, para que a gente chegue a uma conclusão. 

DINHEIRO – O que o sr. achou da aceitação popular às medidas da Anatel?

VALENTE – Minutos antes desta nossa conversa, consultei um portal de notícias que fez uma enquete com internautas. Cerca de 95% dos mais de oito mil votantes disseram aprovar a suspensão das vendas. De forma alguma desconsidero o fato de que existam queixas. Você deve ter visto que as pessoas que eram clientes de uma operadora reclamaram mesmo, fizeram barulho. Há insatisfeitos também com outras empresas, até mesmo com a Vivo. O consumo de dados cresce como nunca, especialmente o de vídeo. Hoje como cliente, a primeira coisa que você vai fazer em casa é ligar a internet para ver os gols da rodada do Campeonato Brasileiro. É uma aplicação que não existia até pouco tempo atrás. Outra coisa é que as pessoas vão continuar comprando celular. Hoje são 260 milhões de linhas, crescendo a uma velocidade de dois milhões por mês. Talvez o governo chegue a uma conclusão radical, que a solução seria diminuir a base de clientes. Isso seria injusto. Temos de continuar conversando até encontrar um ponto de equilíbrio.

DINHEIRO – O que o sr. pensa sobre a situação de Porto Alegre, onde o Procon chegou a impedir as quatro maiores operadoras de vender temporariamente novas linhas telefônicas?

VALENTE – Não conheço muito detalhadamente a questão do Procon do Rio Grande do Sul, mas Porto Alegre tem uma das legislações mais restritivas de todo o Brasil. São Paulo, onde conheço mais, também tem uma lei velha. Você pode dizer que a legislação é de 2004, e isso parece até contraditório. Naquela época, no entanto, não havia uso de dados. A dra. Flávia [do Canto Pereira, coordenadora do Procon-RS] deseja que o cliente gaúcho seja bem atendido. Certamente ela vai entender que as empresas têm uma parcela de culpa, mas a municipalidade também tem. Esperamos que o governo federal crie uma lei específica para todo o País.

DINHEIRO – A Vivo pretende tirar maior proveito do fato de ser a única operadora não obrigada a interromper suas vendas? No dia seguinte à restrição imposta pela Anatel, surgiram diversos anúncios publicitários da empresa em jornais, por exemplo.

VALENTE – Vamos valorizar a qualidade da cobertura, que sempre tivemos como foco. Nossa prioridade é cobrir todo o Brasil. O segundo concorrente [Claro] não tem nem mil cidades atendidas com 3G. Nós temos 2,8 mil. No Rio Grande do Sul, por exemplo, fizemos uma solenidade simples há alguns dias na cidade de Travesseiro, a cerca de 140 km de Porto Alegre, para comemorar a chegada do serviço de terceira geração. É uma localidade que possui 2,3 mil habitantes. O que nos diferencia neste momento é a qualidade. Erramos também, mas lutamos para sanar os problemas o mais rápido possível.

DINHEIRO – A Anatel determinou que a Vivo diminua, em até cinco meses, em 40% o volume de interrupções do serviço no Estado de São Paulo. Como a empresa fará isso?

VALENTE – Nossa rede é confiável, temos índices de qualidade excelentes. Há motivos de interrupção de sinal que não são administráveis por nós. Em algumas localidades, quando ocorre um furto de cabos ou uma queimada, a central sai do ar. Vínhamos discutindo esse processo de melhoria, há meses, com a Anatel. Não fomos pegos de surpresa pelo anúncio público dessa medida.  

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