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Fundo da BlackRock limita saques após onda de resgates abalar crédito privado

Movimento ocorre após aumento de resgates e dúvidas sobre qualidade dos empréstimos no setor

Um operador trabalha enquanto uma tela exibe informações de negociação da BlackRock no pregão da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), em Nova York, Estados Unidos, em 14 de outubro de 2022 (Foto: REUTERS/Brendan McDermid)

Reuters — A BlackRock (BLK.N) informou nesta sexta-feira (6) que limitou saques de um de seus principais fundos de dívida após um aumento nas solicitações de resgate, em meio a crescentes preocupações dos investidores com o setor de crédito privado, avaliado em cerca de US$ 2 trilhões.

As ações da maior gestora de ativos do mundo caíram 6,7% na Bolsa de Nova York, em meio a uma queda generalizada do mercado após dados de emprego nos Estados Unidos piores que o esperado e à escalada da guerra entre EUA e Israel contra o Irã.

O sentimento em relação ao crédito privado tem se deteriorado nos últimos meses, e investidores individuais estão cada vez mais pedindo a devolução de recursos de fundos como o HPS Corporate Lending Fund (HLEND), da BlackRock, que possui cerca de US$ 26 bilhões e foi estruturado para investidores de alta renda.

"Isso deve servir como um sinal de alerta para a indústria e para os reguladores sobre os riscos de fundos ilíquidos para investidores de varejo", afirmou Greggory Warren, analista sênior de ações da Morningstar.

As falências no ano passado de um fornecedor estadunidense de autopeças e de uma financeira especializada em crédito subprime para automóveis, além da quebra de um credor hipotecário no Reino Unido na semana passada, também levantaram dúvidas sobre os padrões de concessão de crédito.

No início desta semana, pedidos crescentes de resgate levaram a rival Blackstone (BX.N) a elevar o limite habitual de retiradas de 5% para 7% em um fundo de US$ 82 bilhões. A empresa e seus funcionários também investiram US$ 400 milhões para atender a todas as solicitações. Já a Blue Owl (OWL.N) recomprou 15,4% de um de seus fundos em janeiro.

O HLEND recebeu pedidos de retirada de US$ 1,2 bilhão no primeiro trimestre, o equivalente a cerca de 9,3% do valor líquido de seus ativos.

O fundo informou aos investidores que pagará US$ 620 milhões no resgate trimestral, atingindo o limite de 5%, patamar que permite aos gestores restringir novas retiradas.

A Blue Owl também substituiu resgates de clientes em um de seus fundos por pagamentos prometidos.

"O maior risco para gestores de ativos alternativos é que um aumento significativo na inadimplência dos empréstimos concedidos a seus tomadores afete negativamente o desempenho dos investimentos, impactando futuras captações e monetizações", afirmou Warren.

O HLEND, uma empresa de desenvolvimento de negócios (BDC) adquirida pela BlackRock junto com sua gestora, a HPS Investment Partners, em uma operação de US$ 12 bilhões para ampliar presença no crédito privado em 2024, informou que os pedidos de retirada ultrapassaram o limite de 5% pela primeira vez desde a criação do fundo.

As BDCs captam recursos principalmente de investidores de varejo e os utilizam para conceder empréstimos a empresas de médio porte, ativos que normalmente não podem ser vendidos rapidamente, o que pode gerar dificuldades caso muitos investidores tentem resgatar recursos ao mesmo tempo.

O presidente da Blackstone, Jon Gray, afirmou na semana passada que investidores institucionais continuam destinando recursos ao crédito privado.

Segundo o HLEND, o limite de 5% evita "um descompasso estrutural entre o capital dos investidores e a duração esperada dos empréstimos de crédito privado nos quais o fundo investe".

"Ao impedir resgates por meio dessas barreiras, os gestores evitam ser forçados a vender ativos, o que prejudicaria os retornos dos investidores remanescentes, devido à falta de transparência e liquidez desses investimentos", explicou Warren.

As novas aplicações no fundo somaram US$ 840 milhões no primeiro trimestre, abaixo dos US$ 1,2 bilhão que investidores inicialmente tentaram retirar.

O HLEND afirma que seus empréstimos são direcionados principalmente a empresas privadas maduras, com fluxos de caixa estáveis, e estruturados para ter prioridade de pagamento caso o tomador declare falência. O fundo distribui dividendos mensalmente.

De acordo com documentos da empresa, 19% do portfólio do HLEND está ligado ao setor de software, segmento que vem enfrentando forte venda de ativos devido ao receio de investidores sobre a concorrência de startups baseadas em inteligência artificial.

Investidores também têm buscado ativos considerados mais seguros diante da volatilidade dos mercados neste ano, impulsionada por temores de desaceleração econômica relacionados ao prolongamento do conflito no Oriente Médio, à disrupção provocada pela inteligência artificial e ao aumento da inadimplência em empréstimos.

A HPS afirmou em comunicado que vê na volatilidade atual uma oportunidade para ampliar suas posições.

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