Galípolo defende cautela do BC diante de guerra e inflação
Presidente do Banco Central afirma que sociedade não tolera inflação e destaca impacto da guerra no Irã sobre expectativas econômicas no Brasil
247 - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou nesta segunda-feira (6) a necessidade de cautela na condução da política monetária brasileira diante de um cenário global marcado por incertezas. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o economista destacou que a guerra no Irã tem pressionado o mercado internacional e influenciado diretamente as expectativas de inflação no Brasil.
Durante a abertura de um seminário sobre política monetária promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), no Rio de Janeiro, Galípolo enfatizou que a atuação do Banco Central precisa ser guiada por prudência e equilíbrio em momentos de instabilidade externa.
"Eu acho que usei a palavra cautela desde que entrei no Banco Central mais vezes do que usei em toda a minha vida antes de entrar no Banco Central. Mas, no Banco Central, a palavra cautela vem acompanhada da palavra serenidade. Nunca está sozinha", afirmou.
O presidente do BC explicou que essa postura visa permitir uma análise mais aprofundada dos riscos antes da adoção de medidas na política de juros. "A ideia é poder tomar tempo para conhecer melhor o problema e fazer movimentos mais seguros, dar passos mais seguros, na direção da política monetária. É dessa cautela que a gente vem se beneficiando mais recentemente", acrescentou.
O cenário internacional, especialmente após a escalada do conflito no Oriente Médio, tem elevado o preço do petróleo e ampliado as projeções de inflação. No Brasil, o reflexo já aparece nas estimativas do mercado financeiro. De acordo com o boletim Focus divulgado pelo Banco Central, a projeção para o IPCA em 2026 subiu de 4,31% para 4,36%, aproximando-se do teto da meta oficial, que é de 4,5%.
Em março, o Banco Central havia reduzido a taxa básica de juros, a Selic, para 14,75% ao ano, após sinais de desaceleração inflacionária. No entanto, a deterioração do cenário externo reacendeu preocupações quanto à convergência da inflação para a meta. Ata recente do Comitê de Política Monetária (Copom) já havia indicado que a piora nas expectativas de longo prazo pode exigir juros elevados por um período mais prolongado.
Galípolo também destacou uma mudança na percepção social sobre o papel dos bancos centrais. Segundo ele, a pressão pública não ocorre apenas em momentos de alta dos juros, mas também quando cortes excessivos comprometem o controle inflacionário.
"Não apanham mais" apenas quando são associados à queda de popularidade de governos, disse, ao observar que o controle da inflação se tornou uma prioridade para a população. "As pesquisas mostram que esta é uma sociedade que não tolera mais a inflação. Virou um tema central [...]. Não tem nada melhor para um banqueiro central do que a incorporação de uma vigilância contra a inflação dentro da sociedade."
A taxa Selic é o principal instrumento utilizado pelo Banco Central para conter a inflação. Juros elevados tendem a frear o consumo e reduzir a pressão sobre os preços, embora também possam desacelerar a atividade econômica ao encarecer o crédito para famílias e empresas.