Ideia de que governo deve ser como CEO de empresa é autoritarismo, diz economista

Economista Eduardo Moreira afirma que, após as eleições de 2014, os grande veículos de comunicação cristalizaram a ideia de que, para justificar cortes de gastos, os governantes devem atuar como gestores de empresa. “Tem muitas coisas erradas nesse raciocínio. Como também para aqueles que imaginam que o país é como se fosse uma família”, diz

Eduardo Moreira
Eduardo Moreira (Foto: 247)

Rede Brasil Atual - Uma ideia repetida à exaustão pelos noticiários da televisão é a de que os governantes devem atuar como gestores de empresa. Nas eleições depois de 2014, graças ao empenho dos grandes veículos de comunicação em justificar os cortes de gastos no orçamento público, essa ideia se cristalizou no senso comum, e se tornou praticamente um mantra, apropriado por políticos conservadores, entre eles, João Doria nas campanhas à prefeitura de São Paulo e ao governo do estado. “Mas é um grande erro imaginar isso”, adverte o economista Eduardo Moreira, em vídeo divulgado em seu canal no YouTube nesta quarta-feira (15).

“Tem muitas coisas erradas nesse raciocínio. Como também para aqueles que imaginam que o país é como se fosse uma família”, afirma Moreira, que fez o vídeo para rechaçar a comparação do Estado a uma empresa, e do governante ao CEO [do inglês, Chief Executive Officer] de uma empresa. “A primeira grande diferença é que nas empresas o principal elemento que existe é o da competição, onde uma empresa ganha e as outras perdem”.

Para efeito de comparação, o economista faz uma distinção entre jogos finitos e infinitos. Nesse primeiro grupo estão as empresas e os jogos de azar, como o xadrez: um ganha, outro perde. Já no segundo grupo estão o Estado e os governantes, com o desafio de nunca deixar o jogo acabar, um jogo onde não há, ou não deveria haver quem perde e quem ganha.

“O objetivo é que aquela sociedade perdure, fazendo com que as pessoas possam se perpetuar com filhos, netos, bisnetos, tataranetos, com qualidade de vida, com muitas possibilidades, dignidade, e não como uma empresa que tem o objetivo de conseguir um lucro grande e ganhar das competidoras para chegar no final do ‘jogo de tabuleiro’ como a grande vencedora”, afirma.

Um dos problemas de tocar o país como uma empresa é a dificuldade de entender que todos devem ganhar, adverte. “Todos devem ser beneficiados pelas políticas públicas, pelas medidas que um governante toma. Já em uma empresa, você pega as pessoas que estão indo mal, e você as demite. É assim que funciona o sistema capitalista, as pessoas agem assim nas grandes empresas. E você não pode mandar embora do Brasil pessoas que não têm este ou aquele perfil”, destaca. “Isso é o que fazem nos regimes autoritários”, completa.

“Regimes extremamente autoritários tratam o país como se fosse uma empresa”, afirma. “Eles exilam, mandam embora aquelas pessoas que não interessam, matam, exterminam”, diz. Por isso que vemos no Brasil, olhando historicamente, o extermínio da população indígena, o exílio de pessoas que pensavam de outra maneira”, diz, referindo-se ao período da ditadura civil-militar no país entre 1964 e 1985.

Moreira também critica a concentração de renda, que no caso do “jogo” das empresas sempre beneficia um grupo muito pequeno de empresários. “O lucro advém da exploração do trabalho de uma grande massa de trabalhadores”, diz para depois classificar como uma loucura esse raciocínio que suprime a ideia de um governo em benefício de toda a sociedade.

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