Mais uma superfusão que beneficiou um só: Furlan

Cade manda Brasil Foods se desfazer de 80% dos produtos com a marca Perdigo; fatiamento da empresabeneficia aSadia, da famlia de Luiz Fernando Furlan, que estava quebrada



247 - A decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre a fusão Sadia-Perdigão levanta dúvidas sobre a validade de uma operação tão difícil e custosa como a da na Brasil Foods (BRF). Foram dois anos de longas discussões para um final que beneficia poucos. Com severas restrições impostas pelo órgão de defesa da concorrência, nesta quarta-feira 13, como a suspensão da venda dos produtos Perdigão no País, a obrigatoriedade de negociar com concorrentes seis marcas e suas respectivas plantas produtivas e a limitação da utilização da Batavo, foi colocado em cheque a busca pela criação de gigantes brasileiros em diferentes setores. Desde a formação da Ambev, com a união das líderes do mercado de bebidas Brahma e Antarctica, estabeleceu-se um padrão de que o maior é sempre melhor. Com o apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma grande empresa em apuros poderia se salvar. Foi assim no setor de telecomunicações com a união de Brasil Telecom e Oi, e no de celulose, com Votorantim e Aracruz. Mas nem sempre o resultado é o que se espera.

A operação da BRF teve como único objetivo salvar a família de Luiz Fernando Furlan do fracasso. Com uma perda bilionária no mercado de derivativos (instrumentos financeiros com vencimento no futuro) em 2008, a Sadia estava praticamente quebrada e em busca de socorro. Embora o faturamento daquele ano tenha sido de R$ 10,7 bilhões, o prejuízo de R$ 2,5 bilhões que ficou com aquela aposta só indicava uma saída: a fusão com a Perdigão, sua principal concorrente, para formar mais uma gigante nacional, agora no setor de alimentos. Em 2009, com a benção do presidente Lula e, inicialmente, R$ 400 milhões do BNDES, Sadia e Perdigão se transformaram na BRF, a Brasil Foods, com sorrisos dos principais acionistas dos dois grupos, Furlan e Nildemar Secches.

A Perdigão, de Secches, que foi convencida a fechar o negócio, tinha uma dívida controlada até aquele momento. Na formação da BRF, assumiu um passivo de R$ 6 bilhões, com mais de dois terços desse problema econômico vindo dos negócios da Sadia. Se a empresa levasse ao pé da letra as leis de oferta e procura de mercado, poderia ter arrematado a concorrente sem qualquer custo. O benefício ficou com Luiz Fernando Furlan, o maior interessado em não ver seu patrimônio destruído. No desenho da BRF, Furlan recebeu 32% do capital da nova companhia e ainda ficou com o benefício de vender o banco e a corretora Concórdia, que faziam parte do seu grupo. Os acionistas da Perdigão ficaram com 68%.

O socorro à Sadia de Furlan, que foi Ministro do Desenvolvimento de 2002 a 2007, ajudou, também, a preservar o patrimônio dos principais fundos de pensão do País, como Previ, dos funcionários do Banco do Brasil; Petros, dos funcionários da Petrobras, e Valia, dos da Vale. Se a empresa quebrasse, esses fundos teriam que conviver com o prejuízo. Para evitar o problema, o BNDES ajudou na reorganização societária que exigiu uma nova oferta pública de ações da BRF, no valor de R$ 4 bilhões. O banco público comprou R$ 750 milhões em papéis e ajudou esses fundos a manterem suas importantes participações. Atualmente, Previ, com 12,7%, e a Petros, com 10%, são os maiores acionistas individuais da BRF.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Após a decisão do Cade, a gigante BRF encolheu. Será preciso cortar 80% da capacidade de produção da Perdigão para o mercado nacional. A marca será retirada das gôndolas dos supermercados brasileiros por períodos determinados, dependendo da força de vendas dos produtos. Pela avaliação do Cade, em alguns segmentos a BRF tinha o monopólio. Durante três anos, lombo congelado, presunto, apresuntado, palheta, tender, linguiça, paio, e pernil. O salame fica suspenso por quatro anos. Por cinco anos, os pratos prontos (massas em geral, como lasanha e pizza), as almondegas e os frios. Salsichas e peru terão que ser vendidas para uma concorrente. E o Cade proibiu a BRF de criar novas marcas para os mercados das quais foi retirada.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Além disso, será preciso vender toda a cadeira produtiva e as marcas Rezende, Wilson, Confiança, Delicata, Doriana e Escolha Saudável. O objetivo é que o comprador entre imediatamente no mercado para concorrer com a BRF. A marca Batavo, uma das mais importantes do grupo, terá sua atuação restrita apenas aos produtos derivados do leite. Pelas contas feitas até agora para ficarem juntas, Sadia e Perdigão precisarão se desfazer de 10 fábricas, quatro abatedouros, 12 granjas, quatro fábricas de ração e oito centros de distribuição. Nenhum dos negócios pode ser readquirido em um prazo de 10 anos. Com tantos “nãos” à superfusão, apenas um sorriso permanecerá intacto.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email