Meirelles, a carta de Dilma para salvar o PAC

Venda da Delta para o JBS pretende tirar plano de obras do governo das mos do leproso Fernando Cavendish para coloc-lo sob a guarda do banqueiro Henrique Meirelles; BNDES tem mais de 30% do capital da empresa compradora; futuro novo dono, se o negcio vingar, Jos Batista Jr. alimenta sonho poltico de ser governador; vai funcionar?

Meirelles, a carta de Dilma para salvar o PAC
Meirelles, a carta de Dilma para salvar o PAC (Foto: Folhapress)

Marco Damiani _247 – Depois da “engenhosa”, como já vai sendo vista pelo mercado, mudança nas regras da poupança, o governo parece perto de executar outra manobra elaborada, agora no setor de infraestrutura e, mais propriamente, em seu centro nervoso, o PAC. Para tanto, o grupo JBS, que tem mais de 30% do seu capital pertencente ao BNDES, se move, empurrado pelo governo, na direção de comprar a Delta Engenharia, maior empreiteira do Plano de Aceleração do Crescimento, com obras contratadas em diferentes Estados.

Na prática, o negócio visa tirar o destino do programa central do governo Dilma das mãos de um empresário que se auto-definiu como leproso, Fernando Cavendish, para colocá-lo sob a guarda de uma das poucas unanimidades positivas do País, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Ele é nada menos que o presidente da holding J&F, que controla o JBS. Nessa posição, tem a missão de atender aos planos dos irmãos Joesley e José Batista Jr., controladores da companhia, e, em igual ou até maior medida, atentar pelos interesses do governo, representados no capital investido pelo BNDESPar. “Esse grupo está crescendo e se diversificando. Vai ser uma experiência desafiadora”, disse o ex-presidente do Banco Central em março deste ano, ao tomar posse na holding.

Por Meirelles passa, desde já, toda a arquitetura da aquisição em curso. Isso não significa, porém, que, caso se consume, o plano esteja fadado ao sucesso. Bem ao contrário, os obstáculos são enormes, e o histórico das duas empresas é um complicador real e efetivo para o final feliz. Mesmo assim, a alternativa que envolve, dentro do governo, cabeças como a do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, tem tudo para ser levada adiante. O receio de que a quebra da Delta estilhace consigo a vitrine do PAC é grande demais para permitir que o governo não tome alguma iniciativa.

Exposta à execração pública, com seu presidente afastado das funções, abrindo mão de missões centrais como a reforma do Maracanã e praticando calotes milionários nos consórcios dos quais participa junto a gigantes da construção civil, a Delta vive a iminência de quebrar. Por isso mesmo, não deverá custar muito. Ao mesmo tempo, a empresa tem uma série de contratos em vigor, o que projetaria, a seu favor, um bom fluxo de caixa. Em razão da forte participação do BNDES no capital do JBS – o banco promoveu, dois anos atrás, uma injeção de R$ 3,8 bilhões de capital na companhia --, a consumação do negócio que levaria o grupo para o setor da construção civil criaria uma situação inusitada. O BNDES poderá estar, em diversos canteiros de obras, na ponta que empresta recursos para a sua realização e, simultaneamente, na posição de se beneficiar, como participante de uma empreiteira, de pagamentos feitos em dia – ou ser prejudicado por atrasos.

CONCORRENTE BERTIN RECUOU - A partir do governo Lula, o JBS foi um dos grupos mais beneficiados pelo apoio oficial. Por meio do BNDES, obteve respaldo financeiro para se tornar o maior frigorífico do planeta. Um prodígio para qualquer companhia, quanto mais essa que nasceu como um simples açougue, em Anápolis, Goiás. Em razão de um forte aumento de capital, de R$ 3,8 bilhões, realizado dois anos atrás, o que elevou a presença da BNDESPar a mais de 30% das ações, o JBS tem recursos e, aparentemente, goza de boa saúde financeira. Isso não tira, porém, sua condição de neófito no ramo da construção civil. O grupo Bertin, seu concorrente no setor de carnes, procurou executar o mesmo tipo de salto para a construção civil. Integrou-se ao consórcio que venceu a concorrência para realizar as obras da usina de Belo Monte, mas recuou e desistiu de sua participação, assustado com a alta exigência de capital para tocar a obra.

Há, como complicador, um elemento político. O empresário José Batista Jr., que controla a companhia ao lado do irmão Wesley, que é o presidente executivo do grupo, tem planos de ser candidato a governador de Goiás nas próximas eleições. Como se sabe, a mistura de empreiteiras e políticas costuma provocar muito mais problemas do que promover soluções. Esta será mais uma missão para Meirelles resolver, ele que está perto de virar tocador de obras.

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