Menos austeridade
O nível das dificuldades e agruras econômicas da União Europeia demonstra que o inferno econômico ainda não baixou, e ao que tudo indica, deverá demorar muito
O noticiário sobre o inferno econômico pelo qual passa a União Europeia parece até certo ponto esquecido pelos jornais. Porém, o nível de suas dificuldades e agruras econômicas demonstra que ainda não baixou, e ao que tudo indica, deverá demorar muito para que toda a situação se resolva.
As rodadas de negociação e o núcleo duro dos banqueiros europeus ainda estão tentando estabelecer bases para negociações, e ao que tudo indica a principal preocupação é impedir que novos países caiam na armadilha de mexer no sistema financeiro nacional ou que países dinâmicos como a Holanda sejam dragadas para os problemas institucionais.
A Alemanha vive um momento em que internamente, sua economia, se não cresce como o desejado, pelo menos não vem degringolando suas bases industriais, mesmo que afetada pela queda do ritmo de crescimento de suas exportações. Significa dizer neste momento que Berlin não tem uma população jovem desempregada nos mesmos índices que assolam a Espanha, e que já se transforma em um ambiente social hostil, para uma sociedade que não está acostumada a aceitar condições de emprego não muito vantajosas, e que até então eram dispensadas a imigrantes.
O país germânico sofre mais pelo lado político do que pelo lado efetivamente econômico. Talvez por isso tenhamos baixado a temperatura nas negociações europeias. Ângela Merkel, primeira ministra da Alemanha, está costurando acordos políticos em seu país e conjecturando cenários para que ela consiga se manter no poder. É julgado ainda que esta reclusão é estratégia para recuperar a imagem da alemã.
Há de se destacar ainda a pequena redução da influência de Merkel sobre o modelo de austeridade extremista, apontado como única solução para a recuperação dos países. Parece-me que estão em busca de um meio termo, que se de um lado não era agradável aos ouvidos, principalmente pelos bancos privados, por outro, vem sendo a única saída para que o giro da economia se mantenha.
Há consenso que austeridade econômica por austeridade não resolverá os problemas estruturais europeus. Tais medidas precisam e serão acompanhadas de ações reformistas, modernizadoras e alterarão o modelo de concorrência do bloco europeu com o resto do mundo.
Para agravar ainda mais a situação do bloco, percebe-se um queda no ritmo de crescimento chinês, que é o primeiro canal de vendas/escoamento de produtos da Europa. Tanto é verdade que, as conversas entre Estados Unidos e União Européia avançam de forma a criar um acordo comercial.
Alguns países como a Espanha conseguiram parcialmente reduzir o sofrimento de sua população, mas mantêm graves problemas econômicos, como por exemplo o nível de desemprego para os jovens.
Tal situação é agravada pela perda de confiança no futuro desta legião de espanhóis entre 20 e 30 anos, que passam a acalentar um pensamento derrotista e sem ação, não vislumbrando oportunidades de crescimento e produtividade, não só para si, mas para a economia de seu país. Reformas empreendidas pelo governo ajudaram a amenizar os impactos, mas amenizar não significa isentá-los de sofrimento.
A França vive um misto de frustração e inconformismo com o governo de Hollande, uma vez que se esperara um rompimento direto das bases econômicas que fôra utilizado no governo Sarkozy. Reiteradamente as estruturas estabelecidas emperraram as intenções de mudança. Reformas foram propostas, mas ainda não conseguiram atingir os objetivos e muito menos o apoio popular.
A Itália, tenta retomar sua rota política, mas infelizmente mantêm-se muito amarrada ao passado e não consegue renovar o espírito industrial, econômico e social. Ou seja, continuam presos em um modelo econômico paternalista, e que só agora conseguiu formar sua "nova velha" identidade política, já que reedita a escolha de um Presidente que ocupara o cargo décadas atrás.
No leste europeu, uma onda de redução no custo da mão de obra (muitos imigrantes voltaram para seus países, ou simplesmente deixaram de sair) faz com que algumas indústrias não tenham paralisado sua produção, mas como uma massa salarial reduzida, neutraliza-se uma expansão econômica, pois empobrece o mercado consumidor e restringe o orçamento.
Além disso, países centrais, que têm níveis de produtividade melhores, acabaram canalizando seus produtos e suas estratégias de comercialização para estes países do leste europeu, o que contribui para uma desconstrução das indústrias locais.
