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MRV cresce com Minha Casa, Minha Vida e aposta em retomada do setor

Construtora lançou mais de 31 mil unidades em 2025, quase todas no MCMV, cresceu receita e lucro, reestrutura operações e vê 2026 com otimismo

Imóveis do programa Minha Casa Minha Vida (Foto: ag. Brasil)

247 - Nos primeiros nove meses de 2025, a MRV lançou mais de 31 mil unidades residenciais em todo o País. Desse total, 97% se enquadram no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que tem sido o principal motor da estratégia da companhia para atravessar um ambiente de juros elevados e custos pressionados. A aposta no segmento econômico resultou em um crescimento de 17,6% na receita operacional e em uma alta de 35,5% no lucro bruto no período.

As informações constam de reportagens e entrevistas publicadas pelo Estadão, que acompanhou os resultados recentes da empresa e ouviu o CEO da MRV&CO, Eduardo Fischer. Em meio a uma ampla reestruturação — que envolve a saída de praças menores, a venda de terrenos e a redução da operação internacional —, a construtora projeta um cenário mais favorável nos próximos anos, sustentado pela demanda estrutural por moradia no Brasil.

Segundo Fischer, o segmento econômico continua aquecido por causa do déficit habitacional histórico do País. “O nosso mercado sempre tem demanda”, afirma o executivo. Para ele, além do programa federal, iniciativas estaduais e regionais têm ampliado o acesso da população à casa própria, criando um ambiente mais previsível para o setor.

Não por acaso, a habitação ocupa papel central na agenda do governo federal, que mantém o MCMV com subsídios e condições de financiamento consideradas positivas para construtoras e compradores. No relatório de resultados do segundo trimestre, a própria MRV declarou que “a habitação popular continua sendo uma prioridade no País. Na esfera federal, o programa tem passado por aprimoramentos constantes”. Na ocasião, a empresa avaliou que o setor vive “o melhor momento de sua história”.

Apesar da relevância do apoio governamental, Fischer diz não temer uma eventual mudança de comando em Brasília. “É um tema fundamental. As lideranças políticas do Brasil já entenderam a importância da habitação e como ela traz retorno social forte”, afirma. Para o CEO, a política habitacional já se consolidou como um consenso entre diferentes correntes ideológicas.

À frente de uma das maiores incorporadoras do segmento popular na América Latina, Fischer atribui o aumento dos preços dos imóveis, sobretudo na baixa renda, à necessidade de acompanhar a inflação do setor. “A inflação do nosso setor segue mais alta do que o IPCA, então essa transferência de preços é necessária”, explica. Ele ressalta que a construção vende hoje um produto que ainda será entregue no futuro, o que exige cautela na formação de preços. “Estou vendendo algo que efetivamente não sei quanto vai custar.”

Segundo o executivo, a experiência do pós-pandemia reforçou essa lógica. “Olhar a projeção de inflação e tentar colocar essa projeção dentro do preço, para que não tenhamos problemas”, diz. Na avaliação dele, essa dinâmica deve continuar, com novos reajustes não apenas na MRV, mas em toda a indústria.

No terceiro trimestre de 2025, a companhia manifestou otimismo com o anúncio de elevação do teto de valor dos imóveis no MCMV. Para Fischer, a medida corrige parcialmente perdas acumuladas. “O anúncio é importante porque basicamente corrige o efeito inflacionário do passado. Se for olhar os números friamente, ele nem cobre toda a inflação, mas é importante porque, com o tempo, a condição de compra das famílias diminui.”

Dentro do programa, a Faixa 1 responde por cerca de 25% das vendas da MRV. Embora relevante, o segmento enfrenta pressão crescente. “É necessário que a renda máxima suba para além dos R$ 2.850 porque essas famílias estão perdendo a capacidade de compra”, afirma Fischer. Segundo ele, com a elevação dos preços, parte do público acaba migrando para a Faixa 2, enquanto os mais pobres ficam excluídos do mercado.

Questionado sobre a rentabilidade da Faixa 1, o CEO afirma que o modelo funciona, desde que haja atualização dos valores. “É rentável, mas precisa da correção”, diz. Ele lembra que o segmento conta com incentivos tributários, hoje ameaçados pela reforma tributária, justamente para viabilizar o atendimento às famílias de renda mais frágil. “O governo dá um incentivo tributário para atender esse público. A gente paga um pouco menos de imposto e constrói o imóvel com um preço mais baixo.”

O protagonismo do MCMV no atual governo também é destacado por Fischer, que associa o programa a transformações sociais amplas. “Quando você dá para as famílias uma condição de morar melhor, a educação dos filhos melhora, a renda melhora, melhora tudo”, afirma. Na avaliação dele, mesmo em outros governos, a lógica se manteve, ainda que com mudanças de nome, como ocorreu no período do Casa Verde e Amarela.

Para o executivo, a política habitacional tende a sobreviver a disputas eleitorais. “As lideranças políticas do Brasil, sejam elas de direita, esquerda ou centro, já percebem isso”, diz. “Uma eventual transição política na eleição não me preocupa tanto por conta dessa dinâmica.”

No campo macroeconômico, Fischer é crítico das atuais taxas de juros. “A taxa de juros no atual patamar é coisa de maluco”, afirma. Ele destaca que juros anuais de 15% a 18% dificultam qualquer negócio, embora reconheça que o público da baixa renda esteja relativamente protegido por usar recursos do FGTS, que seguem regras próprias, independentes da Selic.

Ainda assim, o executivo avalia que a queda dos juros tende a beneficiar o setor como um todo, especialmente empresas com maior grau de alavancagem. Em relação às eleições, ele também minimiza riscos. “Não vai ser o Lula, Tarcísio ou o Ratinho Júnior, ou quem quer que seja, que vai afetar a decisão de compra de imóvel do nosso público”, afirma, ressalvando apenas cenários de instabilidade extrema.

Outro desafio estrutural citado por Fischer é a escassez de mão de obra na construção civil, problema que, segundo ele, é global. “A nossa indústria é pouco atrativa, o trabalho é pesado”, afirma. Em cidades como São Paulo, a dificuldade é maior, mas processos construtivos mais industrializados ajudam a reduzir a dependência de grandes equipes.

Ele lembra que o setor já não é mais sinônimo de baixos salários. “Há bastante tempo, a nossa indústria remunera bem por conta dessa dinâmica”, diz. A tendência, segundo Fischer, é de maior industrialização e automação ao longo dos próximos anos, ainda que essa transformação não seja imediata.

Atualmente, a MRV mantém 270 canteiros de obras abertos em 22 estados. Na frente internacional, a empresa segue com o desinvestimento da Resia, sua operação nos Estados Unidos. O plano é vender US$ 800 milhões em ativos até 2026. “Já vendemos 150 milhões de dólares”, afirma Fischer, que considera o mercado americano líquido e capaz de absorver os ativos restantes.