Murilo Ferreira, o pacifista

Novo comandante da Vale assume o lugar de Roger Agnelli em tom conciliador com o governo

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Por Márcio Kroehn_247 - Depois de 10 anos, a Vale tem um novo porta-voz. Murilo Ferreira falou na sexta-feira 20 pela primeira vez com o mercado. Ele substitui Roger Agnelli na presidência da segunda maior e mais importante companhia brasileira. Mas a troca de comando foi uma das mais difíceis dos últimos tempos, com especulações sobre a possibilidade de o governo começar a intervir nas decisões da empresa. No meio do processo de substituição, que começou em fevereiro, o nome do economista Tito Martins aparecia como um dos mais fortes para ocupar a vaga de Agnelli. E, ainda por cima, ele teria a preferência do Bradesco, um dos maiores acionistas da Vale. O banco, porém, negou a indicação de qualquer executivo e a escolha acabou sendo do Governo Federal. Ferreira ganhou a vaga e retorna à companhia, de onde saiu da diretoria executiva em 2008 para criar a Studio Investimentos. Ele terá que mostrar, daqui para frente, que não pairam dúvidas sobre a sua indicação.

As primeiras palavras de Ferreira foram comedidas e bem pensadas. Ele evitou entrar em choques desnecessários e levantou a bandeira da paz: vai buscar diálogos construtivos com o Governo. “Ele parece ser um executivo com jogo de cintura e conciliador, mas será preciso prestar atenção nos próximos passos da Vale para avaliar o perfil dele”, avalia João Simões, sócio da Duna Asset Management. O tom diplomático de Ferreira já era esperado. Seria muito complicado alguém chegar ao cargo máximo de uma companhia atirando para todos os lados. “Ele tem um perfil de quem faz uma leitura ampla da situação”, escreve a equipe de analistas da corretora Planner. O desafio do novo presidente, porém, será solidificar a credibilidade. De 4 de abril a 20 de maio, datas do anúncio e da posse oficial, um burburinho agitou o mercado financeiro com os prováveis problemas que os investidores podem enfrentar com o novo comandante. O mais grave seria a influência do Governo Federal. “É preciso deixar claro que a Vale chapa branca não existe e foi só uma especulação”, afirma o CEO de uma gestora de fundos de investimento.

As pressões serão muitas contra qualquer desvio de rota. De um lado, a Previ, o fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, depende dos bons resultados da Vale para atingir o superávit de R$ 5 bilhões para pagar os aposentados e pensionistas. De outro, a balança comercial brasileira está diretamente ligada à venda do minério de ferro. “A Vale é muito estratégica para que os receios de interferência ou ingerência aconteçam”, avalia a Planner. Ferreira terá que mostrar o pulso firme que manteve Roger Agnelli por uma década no comando da empresa. Agnelli é um executivo austero, que implementou dentro da Vale uma gestão de busca contínua pela eficiência e pela produtividade. Por isso, recebia alguns olhares enviesados dos que achavam que ele deveria ser, em alguns momentos, menos ousado. Ao longo dos anos, ele foi somando inimigos no Governo por conduzir a mineradora do seu jeito, sem dar muita bola para o que vinha do acionista público – ele chegou a demitir funcionários mesmo com o pedido do presidente Lula para a manutenção dos empregos. Nos últimos tempos, os analistas também começaram a olhar com desconfiança para algumas ideias dele. “Ele era muito impulsivo e podia ter quebrado a Vale se o negócio com a Xstrata tivesse se concretizado no início de 2008. A dívida de mais de 70 bilhões teria levado a empresa para o buraco na crise, poucos meses depois”, diz um analista de mercado. O desgaste era natural. Resta saber como Murilo Ferreira conseguirá pacificar essas relações.

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