O fogo amigo do Ipea

O instituto de pesquisa, ligado ao governo e dirigido por Mrcio Pochmann, critica a poltica fiscal de Dilma

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Há um clima de desencontro na área econômica do governo Dilma. Na terça-feira, o Ministério da Fazenda avisou que adiaria o anúncio de medidas para minimizar a desvalorização do dólar. Menos de 24 horas depois, o Banco Central informou que o ingresso de recursos no País até 11 de março já superava o montante de todo o ano passado, o que significa mais pressão sobre o câmbio e colocava em xeque a decisão da Fazenda em adiar novas ações nessa área. Nesta quarta, o fogo amigo se manifestou mais uma vez. O coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Messenberg, criticou a política de ajuste fiscal adotada pelo governo e defendeu o aumento do investimento público como forma de elevar a taxa de investimento na economia. Desde que assumiu a presidência do Ipea, em agosto de 2007, o economista Márcio Pochmann tem sido criticado por aproximar o instituto, em tese independente, do governo petista.

Para o coordenador, ao priorizar o corte de R$ 50 bilhões no orçamento, o governo está muito influenciado pelas análises macroeconômicas do mercado financeiro, que ele considera de baixa qualidade e enviesadas pela tentativa de impor uma agenda que privilegia a questão fiscal em lugar do investimento. "Para mim, a agenda está totalmente equivocada. O governo deveria olhar para a taxa de investimento na economia. Fazer poupança pública é diferente de sair cortando só para fazer superávit. Um ajuste fiscal que só pensa nos próprios termos cortará a fonte do crescimento, que deve ser o investimento", afirmou Messenberg, em conversa com jornalistas hoje, no Rio, para divulgar o boletim Conjuntura em Foco.

Para Messenberg, o governo não deveria embarcar numa agenda ditada pelo mercado financeiro, que, na visão dele, cobra uma ortodoxia que a última crise financeira mundial revelou que o próprio mercado não tem. Segundo o coordenador, os sinais de que o Banco Central estuda integrar analistas da academia e de outras instituições em sondagens de expectativas como a pesquisa Focus são positivos. Para o economista, o País deveria focar nos mecanismos de desaceleração do consumo, que ainda mostrou expansão muito superior ao crescimento da economia e do investimento no último trimestre de 2010, e elevar os gastos públicos em investimentos em infraestrutura para remover gargalos e reduzir custos da indústria, cuja estagnação desde o segundo semestre do ano passado preocupa.

"Mesmo se o setor externo fosse uma fonte permanente de investimentos não é isso que vai elevar a taxa de investimento", afirmou Messenberg, citando o indicador que ficou abaixo de 19% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, aquém do que é considerado ideal para o crescimento sustentado da economia, entre 22% e 25%.

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"Precisamos ter o consumo crescendo menos do que o PIB, com o investimento e o setor industrial à frente do setor de serviços e a absorção de tecnologia que irradia produtividade em todo o sistema", afirmou Messenberg. Para ele, o governo poderia controlar a inflação aumentando a restrição ao crédito para o consumo.

Estudo

O corte de R$ 50 bilhões no orçamento federal foi alvo de um estudo divulgado hoje pelo Ipea em seu Boletim Conjuntura em Foco. Na publicação, os técnicos apontam que as maiores dificuldades para se viabilizar o ajuste fiscal estão nas despesas obrigatórias, visto que as discricionárias não cairão muito em relação a 2010 de acordo com a programação do governo.

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Para o Ipea, o rearranjo fiscal dependerá em grande medida da expectativa de elevação da receita este ano. "Comparando com 2010, as despesas programadas para 2011 estão praticamente no mesmo nível em proporção do PIB, mas, comparando com o orçado, o valor programado é R$ 8,9 bilhões inferior. Haverá grande esforço por parte do governo para reduzir tais desembolsos sem afetar os programas em andamento", diz o trabalho.

O relatório avalia ainda que medidas como a redução do gasto de pessoal dependerão em grande parte da suspensão de contratações e de reajustes este ano, o que deverá produzir efeitos mais significativos nos anos seguintes. Os técnicos também apontam dificuldades sobre a redução dos gastos com abono salarial e seguro-desemprego na magnitude esperada pelo governo, assim como as despesas com Previdência, levando em conta que o salário mínimo considerado originalmente no orçamento era de R$ 540 e não de R$ 545 depois aprovado.

Tendência

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Na avaliação do atual nível de atividade, o boletim do Ipea sugere que os indicadores da passagem entre o terceiro e o quarto trimestres de 2010 indicam uma tendência mais precisa da economia. O relatório chama a atenção para crescimento de 0,7% do PIB nessa comparação, apesar da expansão recorde de 7,5% registrada em 2010.

Na comparação com o mesmo período do ano anterior, o PIB avançou pelo quinto trimestre consecutivo, com alta de 5%."Analisando os componentes do PIB pelo lado da oferta, o setor industrial, mesmo registrando alta de 10,1% no ano, recuou pelo segundo trimestre consecutivo na série com ajuste sazonal, acumulando uma queda de 0,9% no segundo semestre de 2010. Pelo lado da demanda, com exceção do consumo do governo, todos os demais componentes apresentaram variação positiva na margem, com destaque para o consumo das famílias, que avançou 2,5% sobre o terceiro trimestre", apontou o trabalho.

O Boletim Conjuntura em Foco traça um panorama da economia, mas não faz previsões. Segundo Messenberg, as previsões do instituto para o comportamento da economia este ano serão divulgadas no próximo mês, na Carta de Conjuntura.

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