Os desafios da longevidade

Os brasileiros vivem cada vez mais. Mas como manter a qualidade de vida na velhice?

Entre os muitos desafios que o executivo moderno enfrenta podemos incluir agora também a longevidade. Tendo sua vida dividida em três grandes etapas - preparação para o trabalho; trabalho-emprego e pós-trabalho ou pós-emprego - o que agora se constata é um prolongamento da última. E isto exige rever uma série de conceitos e práticas na relação que cada um mantém com o trabalho e o desfrute na vida. Passando, é claro, pela carreira, vida pessoal, conjugal e familiar, além dos próprios modelos de sucesso e qualidade de vida.

Educado dentro de uma visão dicotômica onde o desfrute era adiado para depois de uma árdua dedicação ao trabalho, esta noção vale muito menos agora. Pois o período do pós-emprego pode prolongar-se por muitos anos. A crise do desemprego não é apenas uma questão que se resolve com empregabilidade. Ela atropela profissionais que se formaram dentro de conceitos em que trabalhar era ter um vínculo com uma empresa e permanecer diariamente em um ambiente austero, disciplinado e onde raramente se permitia a manifestação de qualquer sentimento. A visão do trabalho-emprego era desvinculada da importância de ter sucesso nos papéis que não eram vistos como provocadores de realização ou porque não eram recompensados financeira e motivacionalmente. Mas hoje começamos a constatar que ir à uma universidade também pode ser trabalho. Cuidar de filhos próprios, pode ser considerado um trabalho tão nobre quanto cuidar dos filhos de outros. Dedicar tempo à repensar a carreira, família, amigos e autodesenvolvimento também podem representar atividades com características de trabalho reconhecido. Ou pelo menos de auto-reconhecimento.

Diz um ditado popular que “você está ficando velho quando seus arrependimentos são maiores que seus sonhos”. E este é um dos dilemas que pode aumentar com a longevidade. A longevidade representa na sociedade moderna o mesmo impacto que tiveram o avanço tecnológico, a pílula anticoncepcional, o controle da natalidade, a descrença nas instituições – incluindo a empresa – o fortalecimento do individualismo e o acesso das mulheres às posições de poder. Ou seja, é mais um dos desafios a serem administrados.

Em 1994, quando lancei o livro “Trabalhar e Desfrutar - equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, procurei registrar nele a clara separação que os profissionais faziam entre o trabalho e o desfrute. Ou seja, todos os planos para “aproveitar a vida” eram adiados para o depois. Só que nosso processo educacional não nos prepara para o uso do tempo livre. Somos educados dentro de uma cultura que sempre valorizou o trabalho. E de forma especial remunerado com vínculo empregatício e, de preferência, com um belo sobrenome organizacional que nos dê valor nas relações sociais.

Verificava então o vazio que surgia na hora do desemprego ou aposentadoria. O indivíduo constatava duas realidades: a) Ele não havia desenvolvido uma identidade própria. Todo reconhecimento existia pelo empréstimo de um nome institucional de uma empresa à qual ele havia dedicado muitos anos da sua vida. b) Ele havia descuidado do seu desenvolvimento como indivíduo, membro de um conjunto familiar e cidadão. Imaginou que pudesse recuperar sentimentos e prazeres não vividos. Esqueceu que o tempo não volta e que emoções não vividas não se resgatam.

Minha recomendação enfática para os executivos sempre foi a de que o desfrute não é incompatível com o trabalho. O prazer da vida não existe apenas nos fins de semana, feriados, férias ou aposentadoria. O gosto da liberdade de fazer e desfrutar de algumas opções pessoais pode ocorrer também entre a segunda e sexta de todas as semanas. Mas para tanto é necessário, em primeiro lugar, ter clareza de quais são suas verdadeiras e autênticas expectativas. Muitas pessoas levam toda sua vida preocupadas em atender expectativas dos pais, parceiros, filhos, amigos, publicidade e apelos ao consumo. Raramente param para avaliar o que realmente é aquilo que estão desejando de suas vidas, tanto profissional como pessoal. Uma segunda questão importante é não confundir desfrute com consumismo. Não existe nenhuma correlação entre os dois sentimentos. Desfrutar pode ser feito sem possuir. O prazer não está apenas nos lugares sofisticados ou freqüentados pelos que desejam ser vistos ou badalados.

É impressionante constatar que possuir não torna as pessoas mais felizes ou criativas. Basta observar a mediocridade de muitos novos riscos, sejam eles empresários ou executivos, que no fundo copiam hábitos e gostos dos velhos ricos, que um dia também já foram novos ricos. Vamos encontrar haras, cavalos, propriedades de campo, mansões na cidade, belos carros, freqüência nas colunas sociais e a companhia de produzidas mulheres. Com certeza poderão dizer que ter depressão dentro de um Mercedes é mais agradável que num carro popular. Mas no fundo refletem a insatisfação daqueles que não tem clareza sobre suas autênticas expectativas e para salvar as aparências procuram atender as expectativas dos que o cercam. Isto significa, em muitos casos, que podem conseguir fama. Mas é bom sempre lembrar que a fama não é sinônimo de sucesso. A primeira é efêmera. A segunda pode estar vinculada a uma busca permanente de realização com qualidade de vida.

Enfim, a recomendação básica destas observações está destinada a três grandes públicos:

O jovem executivo que está fase inicial de sua carreira e que ainda pode repensar o modelo de relação com o trabalho que observou nos seus pais ou aprendeu na escola; As mulheres executivas que estão conquistando posições de poder no moderno mundo empresarial, para que evitem os erros cometidos pelos seus parceiros “machos” que previlegiaram o trabalho árduo na falsa expectativa de um desfrute futuro e incerto; E os profissionais maduros que estão sendo engolfados por mudanças rápidas e profundas nas suas relações com o mundo de forma geral e o trabalho nas organizações mais especificamente. 

Para todos estes grupos existem inúmeras formas de resgatar o prazer de viver e trabalhar com qualidade. Mas cuidado, não existem receitas prontas. Procure evitar soluções simplistas. Uma das melhores formas de extrair da vida o melhor que ela tem é saber lidar com as ambigüidades inevitáveis. O maior aprendizado que o homem moderno deve fazer não é encontrar um modelo de felicidade permanente. Isto não existe. O que pode ajudar é desenvolver formas para administrar dúvidas, incertezas, diferentes etapas da vida e uma constante complexidade que nós e o mundo criamos. Assim como existem dias nublados, com sol ou chuva, também nossa vida precisa ser encarada com realismo. Saudável será aquele que possa desenvolver esta capacidade para administrar a ambigüidade com o aumento do seu tempo de vida. E tudo isto com qualidade.

 

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