Pobres filhos de pais ricos

De cada 100 brasileiros ricos, só 18 tinham pais ricos. Enfim, a riqueza não é hereditária

O velho ditado que falava de “pais ricos, filhos nobres e netos pobres” acaba de ser desmentido por uma pesquisa de mobilidade social feita pelos professores José Pastore e Nelson do Valle Sila. Segundo os resultados obtidos de cada 100 brasileiros ricos apenas 18 são filhos de pais ricos. Os outros 82  abastados são fortunas emergentes construídas com trabalho da primeira e atual geração. Ou seja, a riqueza que antes se imaginava somente poderia ser destruída na terceira geração não está conseguindo manter-se nem entre os da segunda.

Embora nosso índice de mobilidade social seja um dos mais altos ele vem se ampliando junto com a globalização e abertura dos mercados. Elas rompem com antigas economias fechadas ou monopólios e privilégios acumulados por anos de promiscuidade entre a empresa privada e o poder público. Basta ver o que aconteceu na Inglaterra após o período Tatcheriano. Dez anos atrás 57% dos maiores milionários tinham herdado suas fortunas sem nenhum mérito ou o esforço pessoal. Mas informações recentes publicadas no ”Sunday Times” indicam que 70% dos detentores de grandes fortunas as conseguiram com o trabalho da atual geração que comanda os negócios.

O rompimento do último modelo empresarial brasileiro, surgido durante a fase Juscelinista, no final da década 50 e início da 60 não explica tudo. Mas é importante para compreender o fenômeno que ocorre entre as elites econômicas que o Brasil viu surgir nos últimos anos. A mentalidade patrimonialista de muitos empresários era também acompanhada por uma diversidade de negócios e segmentos de atividades. Tudo isto foi atropelado pela globalização dos capitais, que não tem pátria, identidade e muito menos sentimentalismos.

A quantidade de empresários que é possuidor de uma riqueza imobiliária fantástica no Brasil atual é impressionante. Basta ver o caso de muitas famílias tradicionais onde os herdeiros queixam-se de não terem condições para pagar os impostos referentes às propriedades que herdaram. Possuem fazendas, imóveis muito bem localizados, e um conjunto de bens, mas padecem da falta de “caixa” para mante-los ou acertar suas dívidas com o fisco. Muito menos recursos para capitalizarem suas empresas. Por outro lado muitos empresários construíram verdadeiros impérios com uma visão e estratégia oportunista de “manter tudo em casa” desenvolvendo negócios que não mantinham nenhuma sinergia entre si. Eram apenas “bons negócios” , mas de forma isolada e sem uma clara análise de rentabilidade e custos.

Alguns devem ainda lembrar frases do tipo: “do porco a única coisa que não se aproveita é o som dos seus grunhidos quando é morto, mas de resto não se perde nada e tudo fica em casa”. Muitos destes grupos desapareceram por uma total falta de foco em relação aos seus negócios. Vale também ampliar esta análise com um quadro de empreendedores patriarcais que sempre agiu como “donos”. Ou seja, sua “assembléia” resumia-se olhar no espelho e tomar as decisões que lhe pareciam mais convenientes. E mal sabia esta figura de “dono” que seus herdeiros não poderiam seguir seu modelo, pois este se esgotava com ele próprio. Seus descendentes necessitavam preparar-se para uma postura de sócios onde a propriedade iria se pulverizar da mesma forma que o poder. Mas não se preocuparam com isto e ficaram a imaginar que fortunas são inabaláveis como fama, poder, “status” e a própria vida.

Apenas hoje alguns entendem que tudo isto é tão efêmero quanto a própria possibilidade de prolongar a vida infinitamente. Isto também explica porque grande parte dos tradicionais grupos de empresas de controle familiar nem ao menos conseguiram ser vendidas. Foram literalmente compradas por investidores frios e calculistas que possuem uma noção destes fenômenos e de quanto o capital migra a cada nova geração. As mudanças ocorridas nos últimos anos dentro das associações de classe como FIESP e outras tantas são emblemáticas destas transformações. Ícones da nossa indústria pertencem hoje à categoria de ex-empresários e o conforto de ainda terem suas fotos penduradas nas paredes das instituições que ajudaram a criar. Merecem todo nosso respeito e consideração. Alguns, inclusive, encontraram novas formas de manter sentido para suas vidas e continuarem contribuindo com a sociedade que lhes permitiu construir seu poder. Vale especialmente para aqueles que não escolheram na relação com a empresa sua única fonte de realização. Participavam como cidadão de outras atividades  na comunidade.

Mas o alerta que deve ser colocado nesta altura é que este não é um fenômeno do passado ou presente. Olhando para o nosso futuro ele será muito mais intenso com esta crise que estamos vivendo.. Os atuais empresários não devem ter ilusões. Caso não encaminhem seus herdeiros para uma busca de realizações pessoais independentes da fortuna que estão construindo, teremos este filme novamente em cartaz. E agora numa velocidade muito maior. Ou seja, não existe nenhuma garantia que os filhos possam manter o padrão de vida que você, empresário, conseguiu tendo por base os lucros obtidos pelo seu negócio. E isto não é apenas uma questão de tamanho. Vale para qualquer empreendimento que tenha a intenção de perpetuar-se de forma capitalizada com o poder acionário se pulverizando. Fica o alerta como diz o velho ditado “uma mãe é capaz de manter dez filhos. Mas nem sempre dez filhos conseguem manter uma mãe”.

 

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