Por que não se calam?

A direita esperneia, mas os espanhois estão mais indignados com seu rei, que caça elefantes, do que com Cristina Kirchner, que expropriou a Repsol

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Os argentinos têm demonstrando ter mais coragem que os brasileiros para corrigir os erros cometidos na ditadura e nos governos neoliberais que a sucederam. Não têm medo de punir assassinos e torturadores, de mandar para a cadeia ex-ditadores e de renacionalizar e reestatizar empresas estratégicas vendidas ao capital privado a preços irrisórios e mediante fraudes e roubos. No Brasil, os assassinos e torturadores dos tempos de ditadura continuam livres e empresas privatizadas em condições mais do que suspeitas continuam prestando péssimos serviços aos consumidores e enriquecendo seus proprietários à custa de benefícios estatais.

É claro que não é apenas a coragem que faz a diferença. Há fatores culturais, políticos e ideológicos, assim como circunstâncias econômicas e sociais, que levam as duas sociedades vizinhas a tomarem rumos distintos em relação a algumas questões. Mas vontade e coragem não podem ser subestimadas e isso sobra lá e falta aqui.

A direita brasileira, que domina a grande imprensa, não demorou a criticar, com a conveniente superficialidade que a caracteriza, a expropriação da YPF, a Petrobrás da Argentina, pela presidente Cristina Fernández de Kirchner. O discurso é o de sempre: quebra de contrato, insegurança jurídica, afastamento de investidores internacionais, conflitos com os países poderosos. O velho discurso subserviente aos países poderosos, ideologicamente neoliberal e em defesa incondicional dos interesses empresariais e do sagrado mercado.

Para a direita, soberania e autodeterminação só devem existir para alguns países dominantes. Os demais devem se submeter às normas impostas por eles, talvez em atenção ao covarde dito popular de que manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mas essa direita vive ainda no século 20 e não entendeu as mudanças que vêm ocorrendo na América Latina. São os mesmos que criticaram severamente a Argentina quando seu governo fez a moratória necessária em 2001, e se mostram perplexos como que acontece na Europa, que faz a moratória atrasada. Agora criticam a Argentina porque nacionalizou a exploração do petróleo e do gás, recursos estratégicos para qualquer nação que se preze.

A YPF é um patrimônio dos argentinos e foi imensa sua contribuição para a construção da infraestrutura do país no século passado. Sua privatização e desnacionalização, no governo neoliberal de Carlos Menem, foram repletas de irregularidades e ilegalidades. Os espanhois da Repsol receberam privilégios e vantagens inadmissíveis e, ao longo dos anos, reduziram a produção de petróleo e de gás, deixaram de investir no país e vinham causando enormes prejuízos à Argentina. Além de diminuir o número de empregados da companhia de 37 mil para 5.500.

Romper esse contrato é um direito da Argentina, que tem condições de avaliar as vantagens e desvantagens de sua decisão. Mas, independentemente disso, a questão central é que o governo argentino exerce legitimamente sua soberania ao expropriar a YPF e mandar os espanhois de volta para seu país em decadência. Desde, claro, que pague um preço justo, que não são os 10 bilhões e meio de dólares que quer o arrogante presidente da Repsol, Antonio Brufau. E se forem descontados os prejuízos ao Estado e os danos ambientais causados pela empresa nos últimos anos, esse valor será bem menor.

A Espanha, em recessão e crises econômica e existencial, protesta e ameaça represálias à Argentina. Tem o apoio da União Europeia, que não sabe para onde vai e certamente receberá a solidariedade dos organismos internacionais dominados pelos estadunidenses, como o Banco Mundial e o FMI. Os subservientes aos poderosos, que acham normal a ação dos mariners quando empresas estadunidenses são nacionalizadas por países soberanos e queriam que o Brasil fizesse o mesmo com a Bolívia e com o Equador, esperneiam.

Na Argentina, a medida recebeu expressivo apoio da população. Haverá consequências negativas, claro, mas pior teria sido deixar o petróleo e o gás do país nas mãos da Repsol. Há decisões que só podem ser tomadas em condições políticas favoráveis, mas que também exigem coragem.

El matador Juan Carlos

Os cidadãos espanhois têm mais com que se preocupar do que com as desventuras da Repsol. O país está em recessão, o desemprego bate recordes, a juventude protesta nas ruas e a corrupção chega até à família real. Só se salvam as conquistas no esporte. Mas, além de o governo espanhol querer dar lições aos argentinos, sua majestade, o rei Juan Carlos, estava gastando o dinheiro da nação matando elefantes na África. Juan Carlos foi conivente com a ditadura de Francisco Franco e procurou se redimir articulando a transição da Espanha para a democracia. É um rei decadente.

A carta enviada a ele por um indignado pesquisador espanhol, Alberto Cecília, é demolidora:

Querido Juan Carlos,

Me llamo Alberto Sicilia, y soy investigador de física teórica en la Universidad Complutense de Madrid. Hasta el año pasado, enseñaba en la Universidad de Cambridge. Decidí regresar a España porque quería contribuir al avance científico de nuestro país.

A las pocas semanas de llegar, me llevé la primera alegría: Francisco Camps obtenía un doctorado cum laude apenas 6 meses después de dimitir como presidente de la Generalitat. Escribí dos cartas para felicitarle, pero no me respondió. Paco debe estar muy ocupado. Quizás le contrató Amancio Ortega para que diseñe la colección de trajes primavera-verano.

Abrí la segunda botella de champán al conocer los Presupuestos Generales recién presentados. La inversión en ciencia se recorta en 600 millones de euros. Imagínate que se nos ocurre apostar por la investigación y acabamos ganando un Nobel: quebraríamos el orden geopolítico mundial. Hasta ahora, los Nobel científicos son para británicos, alemanes, franceses o americanos. Nosotros nos llevamos los Tours, los Rolland Garros y las Champions League. Si empezásemos a ganar también en ciencia, ¿qué consuelo quedaría para David, Angela, Nicolas y Barack?

He sufrido la tercera y definitiva conmoción al saber de tu safari. Dicen los periódicos que costó 37.000 euros, dos años de mi salario. Los que nos dedicamos a la ciencia no lo hacemos por dinero. Al terminar nuestras tesis doctorales en física teórica, algunos compañeros se fueron trabajar para Goldman Sachs, JP Morgan o Google. Quienes continuamos investigando lo hicimos por pasión. La ciencia es una de las aventuras más hermosas en las que se ha embarcado la especie humana. Al regresar a España, entendí que atravesábamos una situación económica complicada. Por eso acepté trabajar con muchos menos recursos de los que ofrecía Cambridge y un sueldo inferior al que ganaba cuando era estudiante de primer año de doctorado en París.

Juancar, tengo que darte las gracias. Tu aventura en Botsuana me ha hecho comprender, definitivamente, cómo es el país al que regresé. Regresé a un país donde el Jefe del Estado se va a cazar elefantes mientras cinco millones de personas no tienen empleo. Regresé a un país donde el Jefe del Estado se opera de prótesis de cadera en una clínica privada, mientras miles de compatriotas esperan meses para la misma intervención. Regresé a un país donde el Jefe del Estado se va de vacaciones en jet privado mientras se fulminan las ayudas a las personas dependientes.

Que yo me marche a otro lugar para seguir mis investigaciones no será una gran pérdida para España. No soy el Einstein de mi generación. Pero me desespera pensar en algunos físicos de mi edad que son ya referentes mundiales en las mejores universidades. Muchos de ellos soñaban con regresar un día a España. Teníamos la oportunidad de cambiar, al fin, la escuálida tradición científica de nuestro país. Nunca volverán.

Hemos convertido España en un gran coto de caza. Pero aquí no se persiguen elefantes ni codornices, sino investigadores. Dentro de poco podremos solicitar subvenciones a WWF por ser especie en extinción.

Permíteme terminar con otra cuestión que me turba. En África hay cientos de jóvenes españoles trabajando como cooperantes en ONGs. Chicos y chicas que viven lejos de sus familias porque quieren aliviar el sufrimiento humano y construir un mundo más decente. Si tenías tantas ganas de viajar a África, ¿porqué no fuiste a abrazar a esos muchachos y a recordarles lo orgullosos que estamos de ellos?

Juancar, en tu último discurso de Navidad afirmaste que “todos, sobre todo las personas con responsabilidades públicas, tenemos el deber de observar un comportamiento adecuado, un comportamiento ejemplar”. Y digo yo, si unos meses después tenías planeado ir a cazar elefantes, ¿por qué no te callas?

Dr. Alberto Sicilia.

 

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