‘Precisamos urgentemente de um programa sério de reforma agrária’, diz Eduardo Moreira
Aos 45 anos, dos quais mais de 20 atuando no mercado financeiro, Edurado Moreira tem andado pelo Brasil para conhecer as experiências do Movimento sem Terra
Carta Capital- Casas com paredes de lona, pisos de chão, rede elétrica precária, com pouco acesso à água potável e saneamento inexistente, em comunidades onde a seca e a geada assolam plantações e as ameaças de despejo ocorrem à mão armada. Tudo em plena pandemia, o que agrava problemas como o desemprego e a má-alimentação. Sobre isso, reina o governo de Jair Bolsonaro, que acentua reformas neoliberais em prejuízo dos mais pobres.
São essas as profundas dificuldades vividas pelas milhares de famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, organização que, desde o seu nascimento, em 1984, amarga a hostilidade de setores alinhados às elites agrárias. É graças ao movimento que essas famílias garantem o mínimo acesso à alimentação, à terra e à educação, além de encontrar forças para atravessar um dos mais graves períodos de desigualdade da história brasileira.
Assim começa o relato de Eduardo Moreira. Aos 45 anos, dos quais mais de 20 atuando no mercado financeiro, ele tem andado pelo Brasil para conhecer as experiências do movimento. Passou por acampamentos e assentamentos das regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, e acaba de voltar de viagem por comunidades no Sul. As observações colhidas nesse trabalho de campo devem compor um livro a ser lançado em breve.A última jornada durou cinco dias e começou em Londrina, no Paraná, em 19 de agosto, onde Moreira participou da inauguração de uma loja do Armazém do Campo, rede do MST que comercializa alimentos agroecológicos produzidos por seus militantes.
No dia seguinte, em 20 de agosto, dirigiu-se para Cascavel, onde visitou o acampamento Resistência Camponesa, nascido em 1999, em uma área de 446 hectares, e composto por 52 famílias, incluindo 50 crianças e adolescentes que estudam em escolas de campo dum assentamento chamado Valmir Mota. No local, predomina o cultivo de mandioca, batata, frutas, hortaliças, milho, feijão, abóbora e arroz. A produção serve para a alimentação das famílias, e o excedente vai à venda em feiras.
Na sequência, Moreira fez passagem na cidade de Laranjeiras do Sul e conversou com membros da Cooperativa de Crédito Rural de Pequenos Agricultores e da Reforma Agrária do Centro Oeste do Paraná, a Crehnor, fundada em 1999 pelo MST para oferecer serviços financeiros a trabalhadores do campo.
Também esteve no município de São Miguel Iguaçu e conversou com indígenas da aldeia Tekoha Ocoy, que reúne cerca de 205 famílias. Os habitantes dali moravam em uma região inundada pela hidrelétrica de Itaipu e foram alocados em uma faixa de terra, com largura estreita e extenso comprimento.
Outra visita foi ao acampamento Sebastião Camargo, na cidade de Marilena, com aproximadamente 400 famílias. A área é originária de uma ocupação de 1998, e seus moradores sofrem ameaças de remoção até hoje, sem contar com o apoio do órgão competente para a assistência aos camponeses, o Incra.
Para Moreira, conhecer essas histórias é importante para, sobretudo, elaborar propostas que contribuam para o avanço na luta dessas famílias e a conquista de direitos sociais.
“A primeira coisa é ter um programa sério de reforma agrária que assente essas famílias que sabem plantar e só precisam de um pedaço de terra para isso”, afirma. “Como fazer isso? Há várias maneiras.”
Leia a íntegra da entrevista na Carta Capital