Roda mundo, roda peão

De volta após mais uma rodada pelo mundo econômico desenvolvido, Dilma chega convencida de que as grandes potências estão desprezando os apelos constantes do governo brasileiro

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Ao longo dos últimos dias o noticiário se ateve principalmente aos acasos de Carlos Ramos e sua teia de relacionamento. Passou quase despercebida o giro pelos Estados Unidos que a Presidenta Dilma Rousseff fez. Aliás, caso não fosse a foto de Dilma usando óculos 3D, a mesma tinha quase passado em branco nos noticiários.

De volta após mais uma rodada pelo mundo econômico desenvolvido, Dilma chega convencida de que as grandes potências econômicas estão desprezando os apelos constantes do governo brasileiro e dos Brics sobre o tsunami financeiro e o excesso de liquidez provocada por tal movimento.

Os países ricos estão preocupados com seus problemas e iminentes crises internas, fazendo com que a visita de nossa governante exercesse papel meramente diplomático, sem retornos financeiros a vista e uma agenda vazia.

Reiterada das posições de que Europa e EUA aumentarão a base monetária quando julgarem necessário, Dilma viu um Barack Obama abatido e preocupado com seus problemas políticos.

Muito preocupado, diga-se de passagem. Tão preocupado que demonstra ser incapaz de dar atenção as questões de comércio exterior, fechando-se em copas e restringindo sua ação a combalida economia estadunidense.

O ponto central desta perspectiva passa pelo período pré-eleitoral enfrentado pelos Democratas nos EUA e os reflexos da crise econômica que devastou uma série de bancos e empresas hipotecárias, fazendo emergir um sem número de desempregados e miseráveis no país que tem (ou melhor, já teve) como símbolo o sonho da prosperidade e liberdade.

Dilma retoma novamente a sua agenda interna, pautando pelo Código Florestal e as pressões que sofrerá por todos os lados, principalmente da bancada ruralista que defende o interesse econômico dos agropecuaristas.

Além disso, as constantes guerras fiscais dos Estados brasileiros já vêm alterando a paciência do Planalto. Espera-se rapidamente uma proposta concreta, uma vez que já existem soluções em discussão e o governo federal não pretende ser mero espectador da luta livre que se transformou as relações de ICMS para importadores.

Porém, dentro de todo este cenário, o que mais certamente trará notícias positivas para a economia será a confirmação de que a redução das taxas de juros cobradas pelos bancos controlados pelo governo federal se multiplicará e alcançará de forma efetiva o mercado. Os bancos privados já deram a resposta e já baixaram seu apetite.

A taxa de spread bancário brasileiro, que é o custo do dinheiro para os bancos, possui uma das taxas mais atrativas do mundo. Pautado por esta afirmação e no potencial de expansão de serviços bancários, é que o governo via Ministério da Fazenda pressionará os banqueiros a reduzirem suas margens, ou melhor, ajustá-las ao que o mercado mundial vem praticando.

A questão é que o discurso datado de que a taxa SELIC era a grande vilã para a redução dos juros ao consumidor final perdeu forças. Agora, alguns bancos tentam utilizar a carga de impostos e outras rotinas burocráticas do governo para justificar a manutenção dos altos juros.

Dilma já transmitiu o recado para Guido Mantega: comprará briga com os agentes financeiros para que o consumidor tenha juros mais próximos da realidade, e não aceitará que o governo seja usado como desculpa para a manutenção dos altos índices.

O consumidor efetivamente deverá contar com o crédito mais barato, e o lojista também ajudará neste elo comercial, que tem no crédito a mola que impulsionará as transações comerciais.

O mercado interno é tranqüilo, e o nível inflacionário parece convergir para as esperanças do governo federal, mesmo acima do centro da meta. Tudo ainda dentro do previsto.

Outro ponto a ser analisado é que, como há um esfriamento das relações comerciais com os países, leia-se EUA e China, haverá uma canalização de produção nacional para o mercado doméstico e retração da atividade externa econômica brasileira.

Soma-se ainda a questão cambial, que vem desestimulando a exportação, ou melhor, vem tornando os produtos brasileiros altamente desinteressantes.

Ou seja, o governo sabendo do esfriamento externo, amenizará o impacto da economia através do crescimento do apetite do consumidor interno, pautado pelo crédito barato.

Em suas viagens pelo mundo, Dilma ainda não conseguiu obter e o reconhecimento do papel importante que o Brasil trata sua economia e as ações externas. Assim como a maioria dos países desenvolvidos, o governo deverá retomar seu foco nas relações internas. Muita tensão ainda é verificada em nossos parceiros comerciais, principalmente na Argentina.

Antônio Teodoro é economista e professor

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