Velhas ações para novos caminhos

O governo emite ameaças à indústria caso seus empresários baixem a temperatura do investimento, o que pode complicar a relação de interesses entre as partes

Se de um ponto a China busca reenquadrar seu modelo superdimensionado de crescimento, a Europa encaminha avisos de que é necessário rever o estado de bem estar social tão defendido pela sua população, e que se desacostumou a geração de valor oriundo do trabalho em sua concepção teórica.

O noticiário econômico parece manter as mesmas manchetes quando se trata das posturas dos governos mundo afora para combater o desgaste da economia mundial. De um lado a austeridade alemã versus a cambaleante economia espanhola e a já abalada Grécia.

O fato é que alguns países da zona européia precisam cortar despesas e implantar uma cultura de austeridade que há muito tempo não se via. A tensão é grande e a rejeição ao plano alemão ganha apoio nas populações de países afetados com as indicações de restrições orçamentárias.

No Brasil, o governo apresentou relatórios sobre o andamento das obras do PAC, que mais uma vez apresentaram números que não podem ser confirmados no lado real da coisa, o que significa dizer que muitas obras estão paradas no plano prático, mas nos relatórios e nas divulgações apresentam outro status. Algumas obras paralisadas foram excluídas.

A necessidade das obras não é apenas uma notícia constante em nosso cotidiano, mas é compactuada internacionalmente, via publicações importantes como o jornal New York Times e a revista The Economist, que reiteram suas preocupações quanto as necessidades de infraestrutura pelo qual o país passa.

O governo brasileiro confirmou as expectativas de desoneração do custo da energia elétrica e outras medidas para impulsionar as indústrias, porém, ainda acredita no poder do crescimento do consumo doméstico para acelerar a economia acredita que há margem de expansão.

Preocupa-me o tom ameaçador pelo qual o governo parece optar no momento de emitir as mensagens para o empresariado, utilizando-se de ameaças de corte de subsídios caso não sejam feitas estas ou aquelas medidas de interesse do governo.

Apoio o governo no sentido de que há necessidade de uma contrapartida do empresariado, mas a forma como se colocam as cartas a mesa atrapalha a condução do processo.

Esta animosidade não pode ser prolongada, afinal, tanto empresários como governo precisam alinhar suas expectativas para que consigam desenvolver seus projetos em prol de geração de renda, emprego e crescimento econômico.

Sobre a insistência federal em se focar na expansão do consumo doméstico, é verdade que ainda há margem de crédito para tal tomada de decisão, porém, o governo não quer entender ou finge não querer, é que as medidas positivas desta expansão serão sentidas no curto prazo, mas no médio e longo, haverá uma retirada de renda disponível para novas expansões, e o único fator capaz de neutralizar tal perda é um ganho de produtividade, que apenas poderá ser feito se tivermos apoio técnico institucional sobre o melhoramento educacional e tecnológico.

Apenas conseguiremos reequacionar a função de produção se os ganhos salariais forem compensados pelos ganhos de produtividades, e para tal, há necessidade de que fatores externos construam um caminho positivo para tal sucesso.

O esfriamento da economia é latente. O comércio reclama de um período de paralisia, que mesmo impulsionado pelo crédito, não retomou ao ritmo visto em 2010. A queda de juros ao consumidor também é tímida, e isso agrava na recuperação das vendas.

Os grandes bancos insistem em aumentar suas reservas para cobrir possíveis perdas futuras, temendo por uma onda de inadimplência, que poderá em caso extremo apertar sua linha de conforto de liquidez.

Parte desta expectativa foi confirmada pela redução do volume de empregos formais criados no país, entre o primeiro semestre de 2011 e o primeiro semestre de 2012, segundo dados do Ministério do Trabalho.

Veja que o dado se refere a uma queda de geração de empregos, ou seja, a economia permanece em expansão, porém com ritmo inferior ao que antes estávamos acostumados, e isso já altera nas perspectivas de cenário econômico.

O brasileiro, vendo tal situação, começa a poupar (a captação de recursos depositados em "Cadernetas" de Poupança bateu recorde), restringindo ou adiando parcialmente seu consumo.

É verdade que muitos estão retraídos devido a queda na renda disponível para consumo, uma vez que já está comprometida no pagamento de crediários anteriores, e temendo um momento mais grave, poupa parte de sua renda que não está comprometida.

Enfim, o resfriamento da economia brasileira começou a retrair a geração de emprego formal, que pode em um próximo movimento impedir o acesso de novos brasileiros ao mercado consumidor, gerando perda de uma importante fonte de expansão econômica, que é o consumo doméstico. Menos brasileiros empregados formalmente, menor o poder de compra da massa populacional.

O governo emite ameaças à indústria caso seus empresários baixem a temperatura do investimento, o que pode complicar a relação de interesses entre as partes. A relação não pode ser na base do grito, e sim em forma de parceria.

Antônio Teodoro da Silva Júnior é economista e professor

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