Vendendo gente
Nas fusões e aquisições, é fundamental considerar o impacto sobre as pessoas envolvidas, o que exige experiência, competência e sensibilidade de quem se encarrega do trabalho
Antigamente, pessoas de grupos inimigos vencidos, ou de outras raças, eram vendidas nas praças ou em mercados. Depois tinham de trabalhar o resto da vida para o novo dono, a menos que fugissem ou fossem repassadas a outro comprador.
Hoje elas são vendidas como parte do acervo empresarial nas fusões e aquisições, as M&A. A situação melhorou muito, pois inexiste a obrigação de continuar trabalhando para o novo dono e, às vezes, a operação cria melhores oportunidades profissionais e é interessante para quem foi incluído na transação.
Trocar de camisa não é tão simples para quem foi comprado ou pertence à empresa minoritária na fusão, como muitos responsáveis por operações de M&A parecem crer. Mudam valores, forma de atuação, chefias, planos, política de RH e, às vezes, local de atuação ou função. Na maioria dos casos, passa-se a trabalhar para a empresa que era o concorrente a derrotar nas vendas, no atendimento, na promoção, nos preços e na qualidade.
Analogia interessante pode ser feita com o futebol, pensando no que ocorreria numa fusão – ou aquisição – envolvendo Palmeiras e Corinthians em São Paulo, Fluminense e Flamengo no Rio, Internacional e Grêmio no Rio Grande do Sul, para ficar em três exemplos. Imaginemos que Corinthians e Palmeiras se fundem. O Corinthians tem maior torcida, logo o natural é seu nome continuar, talvez com a marca Palmeiras ficando como segunda marca, para o time reserva, ou para outro esporte, como muitas vezes acontece nas empresas.
A negociação seria divulgada com as tradicionais palavras usadas nesses processos: reunimos os melhores talentos do setor, fortalecemos as operações, teremos novas oportunidades de crescimento e agora estamos todos irmanados no mesmo objetivo: torcer juntos e trabalhar para fazer do novo Corinthians o grande nome do futebol brasileiro, para competir com as melhores equipes do mundo. É só imaginar como se sentiriam corintianos e palmeirenses ao saber da operação de fusão (ou aquisição) de seus antigos times, para ter idéia do que ocorre no íntimo de boa parte das pessoas envolvidas nesses processos.
Por mexer com sentimentos, expectativas e valores pessoais, fusões e aquisições devem ter o mesmo cuidado que se toma nas due dilligences com tributos, contas, projeções de resultados, pendências e outros aspectos econômicos, financeiros e administrativos. Infelizmente, em boa parte dos casos isso não acontece, com intermediários e dirigentes ou proprietários das empresas envolvidas apenas preocupados com o que vão receber ou pagar, e com a continuidade do negócio depois de finalizada a fusão ou aquisição.
Vender e fundir empresas é uma tendência que seguirá crescendo por várias razões: os fundadores ficam velhos e não querem ou não podem continuar, o mercado precisa de empresas globalizadas que possam competir no país e fora, novas tecnologias exigem mudanças que a gestão tradicional não consegue absorver e implementar etc.
Qualquer que seja a razão para o movimento, é fundamental considerar o impacto sobre as pessoas envolvidas, o que exige experiência, competência e sensibilidade de quem se encarrega do trabalho. Tanto pelo respeito devido a cada um que trabalha e ajudou a construir o negócio, como também para retenção e estímulo aos talentos, que podem ou não garantir o êxito da operação.
