Viés de baixa

O capital que antes apenas especulava, agora precisará produzir, e nosso país coloca-se de portas abertas para aplicá-lo e efetivamente construir as bases de futuro

As alterações recentes na economia brasileira foram importantes, mas não dolorosas. Foram feitas de forma adequada, com parcimônia e deverá marcar efetivamente uma nova fase no governo Dilma. Se não uma nova fase, com certeza é parte da biografia da Presidenta e aponta, nestes últimos tempos, uma mudança efetiva para quase toda população.

Nestes mais de três anos que semanalmente escrevo artigos de opinião sobre Economia, esta foi sem dúvida a tomada de decisão do governo federal mais delicada, uma vez que o confisco da poupança ainda assombra memória de algumas pessoas, e qualquer assunto relativo a alteração das regras ou flexibilização da remuneração da poupança era tratado pela equipe econômica com receito.

Receio de que a mensagem final não chegasse a grande população, e que isso, poderia provocar uma corrida aos bancos e em caso extremo abalar o sistema financeiro nacional.

O panorama geral é que, retomaremos o conceito de gatilho: quando a SELIC baixar a 8,5% ao ano, automaticamente muda-se a remuneração dos depósitos em poupança feitos a partir de 04-04-2012, tendo como remuneração para a caderneta 70% da nova taxa SELIC, mais TR, que, neste nível tenderá a zero.

Porém, a tomada de decisão da queda dos rendimentos da caderneta de poupança está muito além da simples alteração das correções. O caminho passa pela geração de expectativas, de novas quedas nos juros e isso sim é o que efetivamente movimentará os novos rumos da economia.

A tratativa de gatilhos é simples, clara, direta e funcional. Garante aos pequenos investidores e os grandes uma isonomia de tratamento, além de manter isento o mais popular produto de investimento de Imposto de Renda, o que era temido por muitos, e sinceramente, era uma das alternativas que este autor imaginava que ocorreria: taxação em Imposto de Renda para as aplicações acima de R$ 50.000,00.

A queda do piso de alteração dos juros da SELIC pode influenciar até mesmo os volumes de recursos e captação de dólar, restringindo a atratividade dos papeis públicos e destravando o governo para baixar ainda mais os juros básicos da economia, na tentativa de aquecê-la.

Entrementes, o governo federal via opinião pública e cobranças abertas, puxam o spread bancário para baixo e obriga os bancos a reduzirem seu custo de crédito, o que significa dizer que, o governo aperta os bancos para reduzirem os juros cobrados a população e assim manter o consumo ativo.

Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal promoveram uma nova rodada de redução, e, dentro destes, o que efetivamente chamou atenção foi a arrojada redução para a Casa Própria, ou melhor, o crédito habitacional.

Com esta redução e uma geração de expectativa expansionista para o setor da construção civil, as ações de empresas construtoras e incorporadoras negociadas na Bovespa já mudaram de patamar e surfaram em altas maiores de 5% nos seus preços.

Em contrapartida a isto, aumenta-se os requisitos para a tomada de empréstimo, uma vez que, há uma perda nos ganhos individuais das operações, que devem ser compensados com a redução da inadimplência, ou seja, uma base cadastral de clientes com mais qualidade e menor risco.

Sobre os investimentos e a alteração da rota de dólares para o Brasil, mostra-se datado a opção de um capital externo de entrar em nosso território para se aproveitar dos cupons de juros da dívida pública a taxas de dois dígitos. Quero dizer que, com uma prudente redução da taxa básica da economia, deixaremos de ser destino único e exclusivo de capital especulativo.

É importante lembrar que, em sua última passagem pela Alemanha, Dilma Rousseff ouviu de Ângela Merkel que, ela, como chancelar de Berlin, não poderia impedir seu povo, seus investidores de buscar no Brasil ganhos rápidos e especulativos, dada a taxa de juros aqui paga.

Veja que ainda temos as maiores taxas do mundo, porém, a expectativa e o caminho a seguir é que tenhamos um patamar mais racional, próximo a nossa realidade econômica, e isso fará com que a alta atratividade de nossos títulos públicos remunerados pela SELIC perca espaço, abrindo caminho para um capital interessado na pujança econômica e na solidez brasileira.

Reitero que diferentemente de nossos vizinhos, ostentamos instituições fortes, delineadas e sob arcabouço jurídico em destaque e uma democracia livre. Esta tríade nos garante receber e aportar investimentos, mesmo que tenhamos agentes díspares, mas que ainda não sobrepuseram a evolução histórica das instituições.

A expectativa na manutenção da queda das taxas de juros demonstra muito mais que, um viés de baixa pode significar um crescimento real da economia, do lado real, pelo lado da geração de empregos e renda. Um viés de baixa nos juros significa um cenário positivo na economia.

O capital que antes apenas especulava, agora precisará produzir, e nosso país coloca-se de portas abertas para aplicá-lo e efetivamente construir as bases de futuro. Esbarraremos em alguns gargalos operacionais, é verdade, mas que precisarão ser transpostos para que a locomotiva brasileira não pare por qualquer problema.

 

Antônio Teodoro é economista e professor

 

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