Votorantim precisa de capitalização de até R$ 3 bi
Instituição dos Ermírio de Moraes, da qual o Banco do Brasil tem 49,99%, precisa de R$ 2 bi a R$ 3 bi para sobreviver; "Se não fizermos, para de operar, não tem outro caminho", disse fonte do BB ao Valor Econômico; 247 noticiou no sábado 26; perdas somam R$ 1,25 bi
247 – Conforme noticiado no sábado 26 por 247 (aqui), o Banco do Brasil calcula entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões a necessidade de capitalização no Banco Vorantim, do qual tem 49,99% do capital. A operação também foi noticiada nesta segunda-feira 28 na edição do jornal Valor Econômico (íntegra abaixo), em reportagem assinada por Cristiano Romero.
Além da injeção de capital, já dada como certa – "se não fizermos, para de operar, não tem outro caminho", disse uma fonte do BB ao Valor --, está em discussão, dentro do Banco do Brasil, a compra do restante do Votorantim. Se essa intenção prosperar, a integralidade da injeção de capital terá de ser feita pela instituição estatal. Na prática, além do pagamento pelos 50,01% aos Ermírio de Moraes, o BB também teria de injetar o dobro do dinheiro previsto agora para manter o Votorantim dentro da regras de Basileia, que normatizam o sistema financeiro mundial.
Nas últimas semanas, o 247 e os jornais Folha de S. Paulo e Valor Econômico noticiaram a gestação, entre técnicos do governo, de uma fórmula para aliviar os bancos estatais de créditos podres, que seriam primeiramente transferidos para o Tesouro e, dali, para a Emgea (Empresa Gestora de Ativos), igualmente estatal. Os integrantes do Banco do Brasil que tomaram parte nessas conversas tentaram jogar para a Viúva (o Tesouro) a conta da inadimplência nos pagamentos de financiamentos de veículos existente no Votorantim, que já supera, agora, a marca de 7%, contra 2,3% em março do ano passado. Mas o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, barrou esse plano e fez questão de levá-lo ao conhecimento do titular Guido Mantega. Em entrevista na semana passada, o ministro negou sua anuência à alquimia. "Sobre isso que alguns estão noticiando, não há absolutamente nada", disse ele. Mesmo assim, diante da necessidade de capitalização – sem o dinheiro novo, afinal, o Votorantim passará, em breve, a descumprir as regras de Basileia a respeito de patrimônio, terá de parar de emprestar recursos para financiamentos e, assim, ficará apenas com uma carteira de alta inadimplência --, quem terá de colocar dinheiro será o Banco do Brasil.
Entre os sócios Votorantim e Banco do Brasil, não há consenso sobre os motivos que levaram o banco da família Ermírio de Moraes à situação atual. Os fundadores dizem que o banco passou a ser mal conduzido a partir da compra da metade pelo BB. Os banqueiros estatais dizem que havia problema originais de "compliance" (controles internos). É o que mostra a reportagem abaixo, do Valor:
Depois de acumular prejuízos, Banco Votorantim receberá aporte de capital
Por Cristiano Romero
Os dois sócios do Banco Votorantim (BV) - grupo Votorantim e Banco do Brasil (BB) - vão fortalecer o capital da instituição, que sofreu forte prejuízo nos dois últimos trimestres e vem assistindo ao crescimento acelerado da taxa de inadimplência. A capitalização vai ficar entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões e será feita de forma gradativa, no prazo de três anos.
A operação ainda não foi aprovada formalmente pelo Banco do Brasil, que possui 49,99% do capital do BV, mas a tendência é que isso ocorra dentro de duas semanas. "A capitalização é consequência do crescimento do BV e não apenas em função dos prejuízos recentes", explicou uma fonte envolvida no negócio. "Não tem volta. Se não fizermos a capitalização, o BV para de operar. Não tem outro caminho."
Por causa dos prejuízos, o índice de Basileia do BV, que indica o volume de capital que uma instituição bancária precisa para cobrir risco de crédito, vem caindo nos últimos meses. Em dezembro, estava em 14,1%. Em março, caiu para 13%. Pelas regras do Banco Central, os bancos brasileiros devem ter Basileia de pelo menos 11%.
Quanto menor o índice de Basileia, menor o poder de alavancagem do banco, isto é, menos ele pode emprestar a terceiros. Com a capitalização, o BV aumentará o seu patrimônio e, portanto, terá condições de expandir suas carteiras de crédito.
No último trimestre de 2011, o BV contabilizou prejuízo de R$ 656 milhões. Entre janeiro e março deste ano, novo prejuízo, desta vez, de R$ 597 milhões. A expectativa dos sócios é que o banco feche 2012 no vermelho e só volte a dar lucro em 2013.
A taxa de inadimplência, que reflete os créditos cujos pagamentos estão em atraso há mais de 90 dias, quase quadruplicou em um ano. Chegou a 7,3% em março, face a 5,8% em dezembro e a 2,3% em março do ano passado.
Os sócios avaliam que os problemas do BV começaram há dois anos, quando o banco tentou concorrer com os grandes bancos na concessão de financiamento para a compra de carros novos. Como cerca de 80% das aprovações de crédito em concessionárias são feitas automaticamente pelos grandes bancos, enquanto no BV as decisões são, segundo uma fonte, "julgamentais", o banco não conseguiu competir e acabou ficando com os piores créditos.
O BV vem passando nos últimos meses por um processo de reestruturação, por exigência do Banco do Brasil. Na avaliação do BB, havia problemas de "compliance" (controle interno) na gestão do banco.
O BB tem planos de compra os 50,01% do capital do banco que está nas mãos dos Ermírio de Moraes. Em 2008, quando o BB entrou no negócio, o BV foi avaliado em R$ 8 bilhões. Hoje, pelas contas do BB, o preço ficaria entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões.