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Adestrador cria método sem punição e transforma conhecimento canino em negócio digital

Com quase um milhão de seguidores nas redes sociais, Juliano Sanchez aposta no reforço positivo para democratizar conhecimento sobre comportamento animal

Adestrador e analista comportamental canino Juliano Sanchez (Foto: Divulgação)
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Beatriz Bevilaqua, 247 - Durante muito tempo, o adestramento canino no Brasil esteve associado a comandos rígidos, punições e uma lógica de obediência baseada no medo. Enquanto o mercado pet se expandia e os cães deixavam os quintais para ocupar um espaço cada vez mais central dentro das famílias, muitos tutores continuavam recorrendo a métodos ultrapassados para lidar com problemas comportamentais.

Foi nesse cenário que o adestrador e analista comportamental canino Juliano Sanchez decidiu seguir um caminho diferente. Há 21 anos atuando na área e à frente da “Dogs Demais”, ele construiu sua trajetória defendendo que cães não devem ser tratados como máquinas de comando, mas como seres capazes de sentir, interpretar emoções e desenvolver vínculos profundos com humanos.

O vínculo afetivo com animais desde a infância se transformou em profissão. Mas, ao longo dos anos, Juliano percebeu que o mercado exigia uma mudança profunda na forma de enxergar os animais. 

“Quando eu comecei, o adestramento era muito voltado para comandos: senta, deita, fica. Era basicamente isso. Só que os cães passaram a ocupar outro lugar na vida das pessoas e se tornaram membros da família”, afirma.

O problema de corrigir sintomas e ignorar causas

Segundo Juliano, um dos principais erros cometidos pelos tutores é esperar que o cão compreenda o comportamento humano da mesma forma que uma pessoa faria e, diante da frustração, recorrer apenas à bronca. “As pessoas criam uma expectativa de que o cachorro vai agir como um ser humano e entender exatamente o que elas querem. Mas o processo de aprendizado do cão é completamente diferente do nosso”, explica.

Latidos excessivos, destruição de objetos, mordidas e comportamentos agressivos estão entre as queixas mais frequentes que chegam ao especialista. Para ele, o problema está na tentativa de interromper comportamentos sem investigar suas causas.

“Um cachorro morde, late, destrói e até utiliza agressividade para proteger aquilo que é importante para ele. Muitas pessoas querem simplesmente interromper esse comportamento brigando com o animal. Isso vira uma bola de neve de frustração porque não estão tratando a causa.”

Juliano cita um exemplo bastante comum entre tutores de filhotes: as mordidas durante a fase inicial de desenvolvimento. Em vez de punição, ele defende redirecionamento.

“O jeito certo é direcionar essa mordida para o objeto correto e mostrar para ele como deve interagir. Se simplesmente houver bronca, o problema pode piorar.”

O método que rejeita dor e medo

A experiência acumulada ao longo de duas décadas levou Juliano a criar o Método MEC, sigla para Modificação Emocional Canina, uma metodologia baseada em reforço positivo e na compreensão emocional dos animais.

Ele conta que começou a carreira utilizando técnicas tradicionais, como guias corretivas e enforcadores, mas passou a questionar os impactos desse modelo. “Eu queria resultados sem precisar impor força, sem utilizar nada que causasse dor, medo ou desconforto.”

A mudança de abordagem veio acompanhada de estudos constantes. Segundo o especialista, a formação contínua é indispensável para quem deseja permanecer no setor.“O maior erro é achar que já sabe o suficiente.”

Para reforçar sua visão, ele cita pesquisas científicas que ajudam a desconstruir antigos mitos sobre os cães. “Durante muito tempo se dizia que cachorro era irracional. Mas hoje já existem estudos mostrando atividade cerebral muito semelhante à humana em áreas ligadas à recompensa e emoções. Eles conseguem sentir, entender e até tomar decisões.”

Mesmo consolidado no atendimento presencial, Juliano decidiu ampliar o alcance do trabalho a partir de 2019, quando percebeu o potencial do ambiente digital. O incentivo veio de dentro de casa.

“A Dani, minha esposa, falava que eu precisava mostrar isso para mais pessoas. Foi ela quem me incentivou a entrar no digital.” O resultado foi expressivo. Hoje, Juliano soma cerca de 436 mil seguidores em uma plataforma e mais de 300 mil em outra, alcançando quase um milhão de pessoas com conteúdos educativos sobre comportamento canino.

A estratégia transformou conhecimento técnico em produto escalável: além dos atendimentos, ele oferece cursos online voltados tanto para tutores quanto para profissionais interessados em ingressar no mercado.

Um mercado em expansão e carente de qualificação

Com o Brasil entre os maiores mercados pet do mundo, Juliano avalia que há espaço para novos profissionais, mas alerta para os riscos da falta de preparo técnico. “Tem muita gente entrando no mercado sem qualificação, cobrando barato e fazendo um trabalho ruim. Isso prejudica os animais, os tutores e o próprio setor.”

Para ele, o diferencial competitivo está justamente na especialização e na capacidade de oferecer soluções éticas e eficazes. “É uma profissão muito interessante porque a barreira de entrada não é tão grande. Mas permanecer nela exige preparo. Esse é o verdadeiro desafio.”

Assista a entrevista completa aqui: